terça-feira, julho 24, 2007

pensamentos do dia.

quando você esquece de pagar a conta do gás e a água quente do seu chuveiro é a gás, é o mesmo que se você tivesse esquecido de pagar a conta de água.

a cerveja sagres-mini realmente fica gelada por mais tempo já que você termina ela antes que esquente. o foda é que todo aquele timing que você demorou uma vida inteira para aperfeiçoar-- de quanto tempo demora para uma cerveja ficar tinindo de gelada no freezer-- vai pro caralho. já perdi umas 4 mini sagres congeladas no freezer.

o "bom dia portugal," um programa que passa pela manhã aqui, sempre me fódi o horário. no brasil, o bom dia brasil acabava oito da manhã em ponto. era começar a ana maria braga para correr pro trabalho. aqui a pourra do programa vai até quase 10 da manhã. e não tem a ana maria braga pra fazer você ficar sem ar e correr. foda.

dia desses entrei numa tasca e pedi um prego, um sanduba de carne. um x-filé. bom, eu perguntei pro fera do outro lado do balcão: "e aí? quanto custa?" ele ficou olhando para minha cara um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete segundos e quando ameaçou falar um número que começava com "dois euros e..." ele parou, abriu o sanduíche, colocou mais uma fatia de queijo e disse, desta vez rapidamente: "três. três euros."

quinta-feira, julho 19, 2007

o seu jaime e uma teoria sobre a diferença entre o "seu fulano" e "sir fulano"-- parte 2

mas voltemos ao que fez dele "seu". seu jaime. dia desses, encostado no balcão, pesquei uma conversa dele com o andré peixoto que trabalha comigo e tem um fígado de aço. seu jaime disse que ia tirar férias. apontou com as sobrancelhas uma foto presa na parede que fica de frente para o balcão em que ele passa quase 10 horas por dia servindo ginja. seu jaime ia tirar férias ali, naquela foto. um vilarejo daqueles que você conhece de histórias da branca de neve e tal. puta negócio bonito. umas vinte e duas casinhas fincadas num vale. o que me fez lembrar daquele filme "collateral" com o tom cruise e o jamie foxx. o tom cruise era um assassino que pegava um taxi com o jamie foxx dirigindo. aquele filme em que o jamie foxx tinha uma foto de uma ilha no quebra sol do taxi. sabe? então, aquela foto movia ele. era ela que incentivava o jamie foxx dirigir aquele taxi com o tom cruise grisalho com uma arma na mão. bom, o mesmo acontece aqui. com o esqueminha do seu jaime. aquela foto do outro lado do balcão é o que incentiva o seu jaime. ele serve dez ginjas e olha na foto. olha para o relógi, vê que já é madrugada, e olha para a foto. puxa papo, conversa, serve chopp também, e olha para a foto. aquela vila que eu não sabia que existia é o que faz do seu jaime merecedor do títulos de "seu", seu jaime. a vida do seu jaime que existe naquela foto é a história ,a bagagem que fez ele merecedor do título. na inglaterra os "sir", você pode notar, são quase que exclusivos de multi biliardários, artistas e tal. o 'seu' não, o 'seu' é muito mais foda ganhar. só ganha "seu" pessoas assim. que alimentam o início da noite de milhares de portugueses e turistas. e que tem uma foto como a do seu jaime, estratégicamente colada na altura da visão, do outro lado do balcão. gente bacana como seu jaime. os 'seu' e os 'sir'. o sir vira sir quando a rainha quer e bate com a espada no ombro do fera, sir richard branson. já o seu, não. "seu" só vira seu com o tempo. seu não tem essa putaria da rainha da inglaterra. "seu" é quando o povo quer. os 'seu' são foda. se você quiser conhecer um "seu", visite a ginjinha do seu jaime. no chiado. não abre segunda-feira e três semanas por ano. como você já sabe, ele planeja essas férias o ano inteiro. a noite inteira. a cada ginjinha servida. grande seu jaime.

o seu jaime e uma teoria sobre a diferença entre o "seu fulano" e "sir fulano"-- parte 1

como todo lugar do mundo, portugal também tem os "seus...", "seu miguel", "seu manoel", "seu zé." geralmente quando você conhece uma pessoa que tem o "seu..." antes do nome, essa pessoa, obrigatoriamente, tem algum tipo de história. tem alguma bagagem. alguma coisa que fez ele ganhar este "seu". é como os "sir" da grã bretanha. sir paul mccartney, por exemplo, era compositor da maior banda da história. então, virou sir paul. o "seu" é uma espécie de sir, dos mortais. de pessoas que frequentam o seu dia a dia. gente que você encontra no elevador. gente que serve você no restaurante. o seu antônio pode ser facilmente uma pessoa que trabalhava na sua escola e era o único que sabia onde ficava a chave do armário em que se guardavam as bolas de futebol. bom, aqui em lisboa encontrei um "seu", muito bacana. o seu jaime. seu jaime tem um bar que serve ginja no bairro alto. ele é responsável pelo consumo de grande parte das ginjas consumidas no bairro alto. na verdade, tecnicamente, o bar do seu jaime não fica no bairro alto, fica no chiado, mas é perto. é lá que começam muitas noites que vão acabar nas ruas mais acima, do bairro alto. o bar do seu jaime é um bar pequeno, bem localizado. mas bem pequeno. com um balcão que cabe duas pessoas atrás. o seu jaime e a sua mulher. ele serve dois tipos de ginja, meia e inteira. a meia custa 1 euro. a inteira 1 e 50. seu jaime importa ginja de óbidos, uma cidadezinha perto daqui. seu jaime faz sucesso. fala baixo, esboça pequenos sorrisos e respeita a ordem de chegada no balcão.

terça-feira, julho 17, 2007

o portunhol. ou porque e impossivel aprender a falar o espanhol.

passei 48 horas entre portugal e espanha esse fim de semana. me perdi pra cacete. se em são paulo, cidade que eu morava já há 8 anos eu me perdia, aqui eu só me fodo. bom, o que nos leva ao assunto deste textinho. o portunhol. perdido num vilarejo daqueles com um único café e uma só grande avenida cercada de terra batida, achei a única alma viva da cidade e pedi ajuda. mandei um português, devagar, lentamente, e nada. o senhor olhava para a minha cara como quem olhava para o jar jar binks no primeiro episódio da nova safra de guerra nas estrelas. tentei portunhol, nada. tentei carregar mais no portunhol e nada. foram três minutos que pareceram horas. apontei para o mapa. ele apontou no horizonte e lá fui eu. esta cena se repetiu umas trinta e duas vezes nesses últimos dois dias. o espanhol é simpático, gente boa, esboça sorrisos com facilidade. mas uma coisa que é comum em todos os espanhóis: eles não falam portunhol. o que, no início, não dá para entender. "caráio, eu estou falando espanhol, como é que esse fêla da pulta não está me entendendo? ele só pode estar de sacanagem." mas portunhol não é espanhol. bastou ligar a tv do hotel para entender isto 100%. não entendi picas do programa de entrevistas que passava na tv. nada. 0,2%. quando eu era mais moleque, fiz um curso de espanhol. eu achava que aprendia, o professor achava que ensinava. ele também falava portunhol. todo e qualquer brasileiro que acha que fala espanhol, ou que pelo menos arranha, está enganado. ninguém fala. fala o portunhol. é que, todo brasileiro entende o espanhol. por algum motivo, nosso cérebro consegue compensar uma ou outra palavra numa frase inteira de espanhol-- fazendo que a gente entenda. pelo menos uns 70% do que foi falado. e é por isso que não conseguimos aprender a língua. temos vícios do português. e o nosso cérebro, ele novamente, fica com uma puta preguiça quando descobre que as duas línguas são muito parecidas. fica com uma preguiça fudida quando descobre que dá para enrolar aperfeiçoando algumas entonações e movimentos de língua. quando descobre o portunhol. resultado, alguns poucos brasileiros, uns dois ou três, e só, de um universo de 180 milhões, conseguem falar espanhol. o resto não. bom, o resto é mestre de portunhol. o resto se perde 32 vezes numa viagem que era para durar 4 horas e meia e acaba durando 7 horas. e, quando encontra um espanhol, metralha perguntas em portunhol. o espanhol não entende picas. você não entende picas de como ele não está endendendo você. e os dois ficam alí, um olhando para o outro se perguntando: "mas que caráio de idioma este filhodaputa está falando?"

quinta-feira, julho 12, 2007

o otorrino.

dia desses fui num otorrino. gente boa o cara. investiga a garganta. dá uma espiada nos ouvidos. e foca no nariz. nas narinas. luz, mini binóculo olhando lá dentro da bagáça. um emprego, digamos, diferente. "amor, como é que foi o seu dia hoje?" e a única coisa que o cara consegue se lembrar são as narinas, ou melhor, o buraco das narinas e dos ouvidos das pessoas. e ele fica ali, cara fechada, sem saber ao certo o que falar. otorrino é um médico que não reconhece os pacientes na rua. exemplo: você está comendo com a sua mulher e entra o otorrino com a família. se você acenar para o fera, ele não vai entender picas. não vai saber do que se trata. agora, se você inclinar a cabeça para trás e puxar um fio de cabelo dos nariz, aí ele vai reconhecer. vai fazer a maior festa. vai apresentar a família e vai comentar com a mulher depois: "o erick é realmente um nariz muito simpático!" "os ouvidos dele também são bacanas e tal, mas as narinas dele conversam mais. são mais simpáticas. falando nisso, acho que conheço aquele par de orelhas daquela mesa ao lado. otorrino na praia também dever ser engraçado. dois amigos otorrinos: "você viu aquelas narinas que passaram?" "nosssssa, se vi, você notou a cartilagem da ponta?" e por aí vai. não sei, também fico imaginando o dia que esse cara decidiu: "eu vou dedicar a minha vida inteira ao nariz." dia desses fui num otorrino.um emprego curioso.

caramel apple vanila crumble.

não sei quem foi o filhodaputa que inventou. é um sabor novo de sorvete da haagen dazs. caramel apple vanila crumble. se você ler o nome dele em voz alta três vezes começa a babar. fico imaginando o carinha numa sala sentado de frente para um computador: "apple pie. hmmm, não, apple pie não. e se fosse "apple vanila sensation? também não, tá faltando sonoridade. sonoridade é isso que está faltando. caramel apple vanila crumble! aposto que logo logo vai ter um brasileiro babando por essa pourra."

terça-feira, julho 10, 2007

o aquecimento global e o ben& jerry's

acho, só acho. que os caras do ben & jerry's foram instruídos pela matriz americana a servir as bolas de sorvete com um certo ar de superioridade. a temperatura subiu? não fodi, sirva o sorvete como se fosse uma das últimas coisas geladas que restam no mundo. fica o cara ali, atrás do balcão com aqueles barris de sorvete entre você e ele. e ele é claro, o único com acesso a pourra do sorvete. e você, bom, você derretendo do outro lado. o aquecimento global te fudeindo. e ele com todo o poder do mundo. e é assim que o fêla te trata. não trata mal. trata com um certo ar de fodalhão da esquina. com um certo ar de "aquecimento global é foda né?" "o sorvete tá gelado, sabia? e só eu posso servir para você!" o aquecimento global e o ben& jerry's

o keanu reeves pilotando o ônibus 58.

lembra do speed- velocidade máxima? lembra como é que o keanu reeves pilotava o ônibus? sempre acima de 100 km por hora ou aquela pourra explodia? tem um motorista que pilota o ônibus 58 que assiste esse filme todos os dias. sabe todos os diálogos de cor. mas sabe principalmente cada curva mal feita pelo keanu reeves. sabe que o keanu reeves não parava no sinal vermelho e que ele gostava de fazer curvas bem fechadas para derrubar o pessoal do ônibus. ou pelos menos esta é a impressão que se tem. só pode ser. ou isso, ou o tal motorista é um tarado fêla da pulta. não são todos. acho que é um só. digamos de um universo de uns vinte e tal motoristas, tem um keanu reeves do speed. hoje cai em cima de uma velhinha. semana passada quase derrubei um tiozinho. fico esperando, torcendo, quase que diariamente para que o fêla alugue um outro filme do keanu reeves. alguma comédia romântica. dessas em que ele pilota um carro conversível em câmera lenta com uma mulher ao lado. se ele não alugar eu alugo pra ele. não fódi.

domingo, julho 08, 2007

o melhor bolo de chocolate do mundo.

e quando eu digo o melhor, não é uma opinião minha. é o nome do lugar. é, o cara, o chef, o cozinheiro que inventou o tal bolo chegou a conclusão que em nenhum outro lugar do planeta terra se faz um bolo similar ao dele. portanto, aquele que ele vende, é, obrigatoriamente, o melhor bolo de chocolate do mundo. dia desses, com uma pitada de curiosidade e duas pitadas de fome, fui experimentar. fui até lá. pedi uma fatia do melhor bolo de chocolate do mundo. assim mesmo: "eu gostaria de uma fatia do melhor bolo de chocolate do mundo, por favor." e o carinha do outro lado do balcão, com o cuidado de quem segura uma jóia preciosa feita com diamantes encontrados no centro da terra, partiu uma fatia para mim. ele entregou o prato para mim como se segurasse um dispositivo com nitroglicerina. com cuidado. com muita calma. prendendo a respiração. ele não queria que nenhuma lasca de chocolate se desprendesse do topo da fatia. peguei o prato ansioso. puxei uma cadeira, agarrei o garfo e pimba, tasquei uma dentada no bolo. eu não sei se é o melhor bolo do mundo. tecnicamente para fazer uma afirmação dessas eu teria que experimentar todos. mas, como não existe essa possibilidade-- vamos dizer que é bom pra cacete. muito bom. nota 11,5. daqueles que depois da primeira garfada você começa a comer lentamente com medo que acabe. e, ao mesmo tempo come rápido porque é muito gostoso. olhei para o fêla do outro lado do balcão e perguntei se aquela receita existia em algum lugar. ele riu da minha cara. ok, ok, ele não riu. apenas educamente disse: "é, hmmmm, não." o melhor bolo de chocolate do mundo fica numa esquina em campo de ourique na R. Coelho da Rocha, 99 | Tel.: 21 396 53 72
não é massudo. não economiza nos ingredientes. e não divulga a receita.

quinta-feira, julho 05, 2007

o brasserie. (2)

o restaurante do cardápio de uma só linha me deu uma idéia. os caras só vendem filé fritas? eu vou vender mousse de chocolate. vou fazer o restaurante de uma só sobremesa. mousse de chocolate. vou alugar o imóvel ao lado. porta com porta. e vou fisgar todo mundo que sair com a pança cheia de filé com fritas da porra do brasserie. deu certo pros caras. vai dar certo pra mim. um cardápio de uma só linha. uma só linha no verso. sobremesa. mousse de chocolate. não fódi.

o gerúndio morreu.

quando você chega em portugal, a primeira coisa que nota é que o gerúndio morreu. o taxista não fala: “estou te levando para o hotel pelo túnel.” ele fala “estou a levar você para o hotel pelo túnel.”não sei quando foi. não sei se é desde sempre. mas todo os dias o meu gerúndio vai morrendo. uma morte lenta. não falo mais “estou ligando para o _____!” falo “estou a ligar para o ______!” fico a imaginar, não imaginando, se um dia o governo baixou um decreto proibindo o gerúndio. ninguém toca no assunto. ninguém fala do gerúndio. só sei que o filho da puta morreu. taí, a primeira coisa que eu vou fazer quando terminar de escrever este textinho é ligar para o serviço de atendimento do meu banco. quero ver como a muié do s.a.c. fala. “

terça-feira, julho 03, 2007

o nintendo wii ou a academia. você escolhe.

academia? nintendo wii? academia? nintendo wii? bom, na hora da decisão, optei pelo wii. pensei: comprando o wii eu tenho uma academia de ginástica mais o wii. não sei se você já jogou o nintendo wii, mas a bagáça é impressionante. tênis, por exemplo. você faz um backhand com o controle sem fio e o carinha na tela faz um backhand. você rebate na paralela do lado de cá da tela e do lado de lá, o cara imita. dia desses por exemplo, joguei uns trinta e dois games seguidos. é difícil parar. é necessário tocar o telefone de alguém de bem longe como o seu pai ou sua mãe para forçar você a desligar a pourra do jogo. ou tem que faltar luz. ou a sua mulher tem que tacar fogo no sofá. ou despejar uma garrafa de cerveja sobre você. o wii tem esse problema. esse porem. não vem com um aviso que alerta você dos perigos. ou melhor do perigo de você nunca mais largar o controle. ele até avisa do perigo do controle soltar da sua mão por acidente. mas não fala nada do fato de que você vai abandonar tudo e qualquer coisa para jogar a caráia do jogo. o lado bom da história é que você acaba se exercitando. para jogar, você, obrigatoriamente precisa correr e gesticular com o controle. para cima e para baixo. para um lado e para o outro. fica com a subáca moiada. o braço doendo. uma leve taquicardia. e um pulmão vacilante. por isso é que faz todo o sentido optar em comprar o wii no lugar de pagar três meses de academia. faz todo o sentido. pelo menos foi o que eu fiz. depois de consumir quilos de bacalhau. arroz de camarão. arroz de peixe. pão com chouriço. pão afogado no azeite. falando em azeite, colheres cheias de azeite. bom, depois de passar quase dois meses numa experiência gastrônomica sem qualquer precedente em qualquer guia turístico, e isso inclui o guia michelin-- tive que pensar no peso e no colesterol. e foi aí, no momento em que a pourra da calça jeans ameaçou me deixar na mão que eu me encontrei na encruzilhada da primeira linha deste texto. academia? nintendo wii?

quinta-feira, junho 28, 2007

você apertou o botão do ponto, não fode.

o pessoal daqui leva a sério o esquema de transporte público. eu, que pego o auto-carro, o ônibus, todos os dias-- sinto que tem um negócio, uma lei silenciosa que se você quebrar, leva um cascudo. uma porrada na base da nuca dos tiozinhos que estão nos ônibus. a lei é a seguinte: "apertou o botãozinho para pular no ponto, tem que pular." não importa se você errou, e o seu ponto é na verdade o próximo. apertou, pulou. como não conheço lisboa direito, volta e meia erro o ponto. e volta e meia olho para dentro do ônibus com uma cara de coitados como quem diz: "gente, eu errei, esse não é o meu ponto, é o próximo. alivia aí. não me forcem a saltar..." mas todos olham com uma cara muito específica como se gritassem: "a lei é única e é para todos: "apertou, pulou". e lá vou eu caminhando até o meu ponto sob o olhar impiedoso dos passageiros do ônibus. o pessoal daqui leva a sério o esquema de transporte público.

anedotas de ginja (2)

dia desses, com uma ginja na mão subi as escadas que davam para a casa de banho, o banheiro, de um bar. as escadas deste banheiro em particular são as mais íngremes da história do universo mundial. quase noventa graus. não, é um esqueminha de noventa graus. bom, lá fui eu subir as escadas com um copo de ginja na mão. beleza. na boa. tranquilo. o problema foi a descida. a volta. com um copo de ginja na mão, eu tinha que escolher: segurar no corrimão da escada dos dois lados ou segurar de um só lado e levar o copo de ginja com todo o carinho e importância que ele merece. fui com o copo na mão, o que acabou me levando para baixo muito mais rápido do que eu planejava. a gravidade é foda. funciona. um degrau quase molhado me fez escorregar. não estava bêbado. não. era a primeira ginja. resumo da história: acordei com o cotovelo inchado quase quebrado. moral da história: ginja é bom, acordar com o cotovelo muito inchado não. ou: ginja é tão bom que você se sujeita a ser, por alguns segundos, a atração do bar. ou: quem foi o fêla da pulta que deixou o degrau molhado.

terça-feira, junho 26, 2007

você economiza com a passagem e se fode com as ligações.

tem um negócio que eu descobri aqui em portugal. a passagem de avião para aqui não é lá essas coisas. é cara mas não destrói o orçamento. não é porque vocie comprou duas passagens de avião para lisboa que vai deixar de comer. são tantos brasileiros comprando passagens com o dólar barato que o preço está bem ok. mas o governo português arrumou um jeito de compensar a economia. o pib do país. se de um lado as cia. aéreas estão lucrando menos, as empresas de telefone estão jogando dinheiro em câmera lenta para cima. depois de um mês ligando para o brasil. falando e falando e falando. me fodi. vou ter que pagar a conta de telefone em 26 vezes sem juros. é cara para cacete. fico imaginando alguém num palacete qualquer do governo puxando esta conversa: "ô ministro ... você já notou como os brasileiros estão pagando pouco pelas passagens aéreas? tá fodeindo com o produto interno bruto! você não acha que poderíamos fazer alguma coisa? sei lá, para aliviar o buraco? equilibrar as finanças?" e o ministro na maior calma responde: "você tem toda razão, fode eles na conta de telefone!" mas isso você só descobre quando chega a primeira conta. vai por mim. segura a onda na conversa.

o brasserie e o cardápio de uma só linha.

aqui em lisboa, pertinho do trabalho existe um restaurante curioso. o cardápio tem uma só linha. o dono é das pessoas mais inteligentes que existem. ele só serve um prato: carne tenra e macia com batatas fritas. é, o fêla da pulta arrumou um esquema fantástico em que ele serve apenas o prato com menor rejeição do universo: filé com fritas. e cobra uma grana. o brasserie não é daqueles lugares que você opta para comer ao invés do mcdonald's. não o brasserie tem o preço um tantinho salgado. mas vale a pena. vale muito a pena. vai ser bom assim na casa do caráio. tem que ser bom. não há hipotese alguma de ser mais ou menos. uma cozinha socada com cozinheiros sob o comando de um chefe fazendo filé com fritas tem que dar certo. o cardápio de uma só linha é uma das maiores invenções que eu já vi. terminei o meu prato lá no brasserie com uma pontinha de inveja. queria ter pensando nisso antes.

quinta-feira, junho 21, 2007

anedotas de ginja. (1)

dia desses entrei com um pessoal aqui da firma num bar e pedimos uma dose de ginja* para cada. a mulher educadamente disse: "dois e cinquenta por dose." somamos o número de pessoas com o preço que acabara de ser revelado e todos chegaram a conclusão que com aquele dinheiro poderíamos comprar um pacote turístico para a malásia. troca de olhares. troca de olhares. troca de olhares. ela finalmente cedeu e disse: "vocês já tentaram na esquina?" e lá para a esquina fomos todos. bom, e lá na esquina a dose custava 1/3 do preço. moral da história: "quando ela quer beber, a mocinha do bar só bebe no bar da esquina." ou "ela tinha acabado de levar um esporro do dono do bar e quis foder ele." ou "ela é a pessoa mais gentil e honesta do mundo." ou "ela é dona dos dois." ou "quando você entra num bar com nove pessoas e pede um licor, toda e qualquer mocinha de trás do balcão é instruida pelo dono a mandar os fêla da pulta para outro bar com receio de bagunça." ou "ela estava com preguiça de lavar os copos."

* ginja é um licor português feito com o fruto da ginja. que, pelo o que eu entendi, é prima bem próxima, quase irmã, da cereja.

o noobai. ah, o noobai.

o noobai café não tem nada fucking fuckers no cardápio. é uma comida honesta. sanduíches, um prato do dia que você não vai recordar no dia seguinte ao certo qual era , uma entrada bacana e uma cerveja estupidamente gelada. a comida não é o que separa o noobai café de todo e qualquer restaurante, bar e similares de lisboa. o que faz do noobai café merecedor de três estrelas no guia michelin é a vista. a impressão que se tem quando você está sentado bebericando um chopp é que o sujeito que fundou o noobai acordava muito cedo. e, como tinha esse costume, chegou antes que todo mundo-- para pegar aquele cantinho de lisboa. é difícil explicar como é vista. dependendo do horário, é difícil conseguir um lugar para ver a vista. o noobai fica alí, no adamastor. não faz reserva. se o pátio estiver cheio, valei sentar dentro e ficar espiando, olhando. no momento que alguém ameaçar levantar, você corre. mas corre mesmo. o estiramento muscular que você vai ter vale a pena. o mico de alguns segundos que você vai pagar, vale a pena. não fique pensando coisas como: "putz, eu, um marmanjo, vou ficar correndo pelo pátio do restaurante atrás de uma mesa." é claro que você também pode chegar cedo. e sair tarde. o noobai é um daqueles restaurantes/bares que você recomenda para meio mundo. e quando alguém pergunta o que é bom lá, você pensa, pensa, pensa e não se lembra. mas, por um motivo óbvio nunca esquece de recomendar.

terça-feira, junho 19, 2007

o cão cagão sagrado de lisboa.

a índia tem lá suas vacas sagradas. se você quiser levar um tapa na fuça é só entrar num restaurante e pedir um bife, um steak, uma carne suculenta. bom, as vacas são sagradas lá. aqui não. quem é sagrado aqui é o cão. o cachorro. o melhor amigo do homem. explico. os lisboetas não pegam o cocô dos seus queridos cães. neste aspecto lisboa se encontra em 1990 e poucos. acho que foi por aí que ainda se via a caca dos cachorros com liberdade total no brasil. chega a ser estranho. é preciso ter jogo de cintura, ginga. é, não é fácil driblar o cocô dos cachorros de lisboa. acho, só acho que seria possível se eleger prefeito da cidade com uma única plataforma. "vote no erick. ele vai acabar com o cocô dos cachorros!" votação recorde. quem sabe no futuro. é claro que isso não é uma regra. o serginho e a aline, casal nota 11 que reside aqui-- bem, os dois sempre carregam alguns sacos plásticos extras no bolso para não deixar na rua o que o igualmente sagrado "lolo" faz. o lolo, uma mistura genial de labrador com "salsicha" é gente fina, faz e fica ao lado esperando os donos limparem. mas acho, e tenho quase absoluta certeza que são os únicos. fico imaginando os cachorros conversando aí no brasil ou em qualquer outra parte do mundo: "e aí, o que você vai fazer nessas férias? acho que vou ficar aqui em são paulo, mas eu sonho mesmo é viajar para lisboa!" e o outro: "ah, lisboa, uma das poucas metrópoles do mundo em que ainda se pode fazer um cocô em plena luz do dia sem se preocupar! é meu sonho de consumo também!" se existisse uma agência de viagens para cachorros, lisboa seria paris e hawaii, juntos. um paraíso. não sei como é que vão resolver essa parada. ninguém comenta. ninguém reclama. as vezes acho que todos estão acostumados. eu não, olho feio para as tiazinhas na rua. tento inserir o assunto em conversas de bar, sempre que possível. e fico meio que esperando, ou como diriam os portugueses, a esperar alguém me contar uma história de um cão sagrado de lisboa que salvou alguém no grande terromoto de 1755. e que, desde então ganhou este status. de cão cagão. e que passou para seus semelhantes esta liberdade, de fazer as necessidades nas ruas lisboetas sem preocupação. deve ser. só pode ser.

sexta-feira, junho 15, 2007

duelos 2. a revanche e o golpe baixo.

ontem a caminho de casa, algumas horas após ter escrito sobre os duelos, me encontrei no meio de um. de um duelo. na hora lembrei que tinha escrito sobre os duelos e quase comentei com a tiazinha que estava na minha frente, mas ela ia achar um tiquinho estranho. por isso, mantive a calma, respirei fundo e não me mexi. queria uma revanche.queria ganhar um duelo pelo direito de seguir em frente sem ser escorraçado para a rua. pela manhã já tinha perdido um duelo. no almoço, outro. então, o sol estava se pondo (no verão a caráia do sol só desce depois de 8 e tra lá lá.)enio morricone conduzia a trilha sonora na minha cabeça. a tiazinha olhava nos meus olhos. e eu, nos olhos da fêla. e nada dela se mover. nada dela ameaçar qualquer movimento. um, dois, seis, quase oito segundos se passaram. oito segundos que quando você está olhando para uma tiazinha cara a cara num canto de calçada em portugal-- são como uns três meses. o tempo não passava. e foi aí que eu parti para a ignorância. não, não ameacei partir para cima da tiazinha. não. agachei para amarrar o tênis. tomei conta da calçada inteira. e ela, teve que me contornar pela rua. um golpe perfeito. a amarrada no tênis. se você estiver aqui em lisboa, use esta estratégia. mas não use bastante. use com moderação. se espalhar, ninguém mais acredita e vai teimar em esperar. ganhei um duelo. com golpe baixo, mas ganhei.

quinta-feira, junho 14, 2007

os duelos.

portugal é o país com as menores calçadas do mundo. não de extensão, de largura mesmo. cabe uma só pessoa por vez. são calçadas de mão única. o que significa que toda vez que você sai de casa tem que, obrigatoriamente disputar duelos. duelos com senhoras. duelos com senhores. duelos com crianças. duelos com cachorros. funciona mais ou menos assim: você está de um lado da calçada a caminho do trabalho e do outro lado vem uma tiazinha agarrada com as compras. é ela ou você. um dos dois tem que gentilmente dar um passo para fora da calçada e deixar o outro passar. é como aquela clássica cena do footloose em que o kevin bacon fica em cima do trator e duela com o namorado da muié que ele tá tentando pegar que também está em cima do trator. o primeiro que pulasse fora, perdia. no filme o kevin bacon ganha. mas aqui não tem isso. é meio no chute. não existe um código de conduta. não existe uma tabela que explique como você deve se portar. ninguém diz se os velhinhos têm preferência sobre os mais jovens. é sempre em cima da hora. sempre no último segundo. no último instante. é quase emocionante. e quase sempre rola colisões. já quase derrubei velhinhas. já quase levei esporro. já levei umas olhadas de cima para baixo e de baixo para cima. mas olhando assim o lado positivo da história, uma ida para o trabalho pode ser muito mais emocionante. você não vai simplesmente para o trabalho. vai participar de um duelo com uma senhora. vai desafiar um moleque e seu labrador. vai tentar ficar mais tempo sobre a calçada. vai tentar não ceder. e vai chegar no trabalho com a estranha sensação de que foi jogado por uma velhinha para fora da calçada e que convenceu um senhor com apenas a força de um olhar que era mais sensato ele parar, entrar na rua por um segundo e deixar você passar. portugal é o país com as menores calçadas do mundo. não de extensão, de largura mesmo. cabe uma só pessoa por vez.

terça-feira, junho 12, 2007

os dedinhos roxos de campo de ourique.

em campo de ourique, no bairro que eu moro aqui em lisboa, tem uns três médio mercados. uns quatro pequenos. um cem muito pequenos. mas quem mora lá acaba sempre fazendo as compras nesses médios. não são os supermercados 24 horas. mas quebram um galhão. eles têm de tudo. e são eles, os médio mercados que criaram um fenômeno em campo de ourique. os dedinhos roxos. os dedinhos roxos de campo de ourique. o que são eles? bom, campo de ourique passa a impressão de ser um bairro bem pequeno. mas não é lá assim tão pequeno. os prédios não passam de três andares. a maioria têm dois. as ruas são estreitas e nunca passa mais do que um carro de cada vez. e, como você cisma que as coisas em um bairro pequeno são próximas-- acaba se fodendo quando sai para fazer compras. é, você sai de casa com uma lista de quatro itens na cabeça: detergente, coca-cola, pão e fósforos. nada mais. nada menos. mas aí você chega no mercadinho e começa a namorar as guloseimas das prateleiras e pensa: “ah, campo de ourique é tão pequeno, é tudo tão perto, não tem nenhum problema levar mais coisas para casa. os sacos de compras vão estar pesados, mas é rapidinho.” mas nada é tão perto assim. é tudo impressão. o que seria um quarteirão na sua cabeça, são três. e você volta pra casa com sacos de plástico pesados agarrados nas pontas dos dedos. sacos que a cada passo dão voltas de 360º, apertando cada vez mais os seus dedos. que vão ficando, primeiro vermelhos, depois roxos. e foi depois de passar por essa experiência que eu comecei a notar o tal fenômeno. todo mundo. as tiazinhas. as senhoras. os mais velhos e os mais jovens. todos perambulam pelas ruas de campo de ourique com os dedinhos roxos. sacos de compras pesados. dedinhos frágeis. um bairro um tanto maior do que aparenta. os dedinhos roxos de campo de ourique.

sexta-feira, junho 08, 2007

seu domingos.

não conheço o “seu domingos” para tratar ele assim-- com essa intimidade. mas é assim que ele se apresenta. seu domingos. sem frescuras. sem formalidades. o “seu” que precede o “domingos” já permite você entrar no restaurante dele com a impressão que frequenta o lugar desde quando ele era apenas domingos. o restaurante fica perto da praia do meco. não tem um luminoso na frente. as letrinhas pintadas numa tímida placa de madeira parecem ter sido obra do próprio seu domingos entre uma porção e outra de mariscos. mariscos, pequenos, médios e grandes. salada de ovas, de polvo, de lula, e caracóis. chopp gelado. pão fresco. imagine um balcão de madeira com um sujeito com os cabelos grisalhos penteados bem rente—atrás deste mesmo balcão. com uma camisa social com as mangas dobradas, as costeletas aparadas e um poster do sporting sobre a cabeça. este é o seu domingos. que desliza de um lado para o outro atendendo pedidos. na verdade ele finge que atende os pedidos. o que o seu domingos faz é distribuir a comida que pula do mar para a panela e da panela para as prateleiras que estão atrás dele. “marisco! quem pediu!?” e um sujeito olha pra os mariscos, olha para o seu domingos. o sujeito finge que pediu mariscos e o seu domingos finge que sabe que ele pediu mariscos. e, numa operação que flui com uma impressionante improvisação, as pessoas voltam para as mesas abraçadas a algum prato. qualquer prato. isso pode acontecer num restaurante em que todos os pratos, todos, são bons. ninguém reclama. ninguém briga. você convence o seu domingos com os olhos que aquela salada de polvo que acaba de sair é sua e ele te dá. o sujeito que disputa um espaço no balcão com você-- olha com uma cara de coitado e você cede a salada de polvo pra ele. e volta pra mesa com uma porção de lulas. tudo isso no meio de gritos, pedidos, chopps e mesas apinhadas de gente com areia da praia entre os dedos dos pés a espera de qualquer prato. horas depois, você mesmo limpa a mesa. você mesmo se encarrega de anotar o que a mesa consumiu. comenta, de passagem, com o seu domingos o que comeu e ele aponta com o canto da cabeça pra você pagar para mulher dele. o seu domingos é daqueles lugares que textinhos, relatos como esse não fazem justiça. é preciso ir. e ir de novo. mas vale sempre lembrar que o seu domingos, apesar do nome e de estar pertinho, pertinho da praia, bem, o seu domingos, não abre nunca aos domingos.

quarta-feira, junho 06, 2007

secretos de porco preto. 2.

hoje estava lá eu comendo pela segunda vez o tal secretos de porco preto. o filé do filé dos suínos. a mestre master fucking fuckers worldwide intergaláctica dos porcos. a manteiga em forma de carne. o entupidor de artérias número 1. ah, os secretos de porco preto. bom, e, pela segunda vez, olhei para o lado, e com a boca cheia comentei com o andré peixinho peixoto, grande expert da gastronomia portuguesa: “não fódi, vai ser bom assim na casa do caráio!” e ele, também de boca cheia, respondeu: “se você acha tão bom mesmo, talvez deveria escrever novamente sobre ele no seu blógui."

terça-feira, junho 05, 2007

o fado. que caráio é o fado?

o fado é uma música típica portuguesa. metade turismo, metade tradição. você não escuta o fado em qualquer esquina. é triste pra cacete. bastam dois minutos escutando fado para você chorar copiosamente. sem saber porque. sem entender porque caráio uma tristeza indescritível faz você cuspir lágrimas grossas e pesadas pelos cantos dos olhos. fico imaginando como deve ser a vida de um sujeito ou de uma mulher que escreve letras e arranjos de fado. o cara deve ser no mínimo cafuzo da cabeça. aquela imagem que quase todo mundo tem que o fado faz parte do dia a dia em portugal não é lá assim verdadeira. o fado existe, mas você tem que fuçar um pouquinho. e, se você entrar numas de escutar fado-- freqüentar um restaurante que, entre o prato principal e a sobremesa, serve uma dança ao vivo com fado tocando no sistema de som do lugar, se prepare. não é que você vai chorar. não. você vai no mínimo remoer alguma memória bem mais ou menos. vai pensar na derrota da seleção para a frança na copa de 2006 e 98, para a argentina em 90. vai lembrar o dia que você descobriu que papai noel não existe. alguma coisa. fado é foda. dia desses coloquei o alarme sem querer numa estação que tocava fado, pulei da cama em três segundos. fiquei, de repente, triste de estar desperdiçando segundos da minha manhã de segunda. fica aqui uma sugestão. se você resolveu viajar para portugal para esquecer um namoro que não deu certo, fuja do fado. agora, se você quer acordar cedo, aproveitar cada segundo do dia. compre um alarme daqueles sony sound fucking makers e coloque numa estação tipo “fado hits 24 hours”. ah, e sabe aquela pessoa que pede sempre uma encomenda escrota? tipo, alguma coisa grande e pesada que vai foder com o seu retorno para o seu país de origem? compre um cd de fado de presente. diga que a tv de 56 polegadas que ele ou ela queria não ia caber na mala, mas você trouxe com todo o carinho do mundo, um cd duplo de fado.

sexta-feira, junho 01, 2007

secretos de porco preto. uma teoria.

secretos de porco preto. nome curioso. o porco tem que ser o tal porco preto e secretos, pelo o que eu entendi são partes nobres, bem escondidas do porco. e o nome é curioso porque até ontem a porra do prato era um segredo de estado. não conhecia, nunca tinha visto num cardápio. trocadilhos a parte, essa caráia deste prato estava escondida num cardápio de um restaurante português que também se escondia num beco aqui perto da firma. um segredo. e acho que entendi porque escondem esse prato. acho. é uma teoria simples. que não foi auditada pela price water coopers. a teoria é que os lisboetas escondem de nós turistas. servem bacalhau. servem mariscos. servem camarões graúdos. mas escondem o tal secretos do porco. e foi assim, nesse esconde esconde no cardápio que o prato ganhou esse nome. é bom pra caralho. tiras de porco das mais saborosas da história. imagina aquela costela de porco que deixa os dedos lambuzados de banha. bom, agora imagine só a carne da costela, mas de umas dez costelas. essa carne toda lado a lado formando um bife de porco. não confundir com lombinho. não, é uma carne bem macia, gordurosa, saborosa. o filé do porco. não, é o filé do filé. sabe quando você vai a um restaurante de carnes argentino e o garçom hermano te diz que a carne do dia é um corte especial do centro da alcatra nobre da coxa dianteira do boi? é mais ou menos por aí. secretos de porco preto é o kobe beef dos suínos. um negócio tão bom que os portugueses não querem dividir com os turistas. mas foram dar esse nome irônico. carregado de sarcasmo. descobri a pourra do segredo. e como você pode ver pelo texto que acaba de ler, estou dividindo com você.

quinta-feira, maio 31, 2007

o plano do couvert português.

sempre tive uma relação de amor e ódio com couvert de restaurante. se de um lado a pourra do couvert mata a fome quando seu estômago mais ronca— também fódi com o apetite das pessoas. você foi até o restaurante comer o tal ojo del bife argentino e acaba matando a fome com lascas de pão mergulhadas nas bolinhas de manteiga. outra coisa também é que o couvert invariavelmente infla qualquer conta. quantas pessoas estão na mesa? então multiplica esse número por 5,90. não tem jeito, se não o apetite, o couvert acaba fodendo o seu bolso. aqui em portugal o couvert é diferente. tem o mesmo pão. as mesmas manteigas. os mesmos patês e queijinhos. de longe é idêntico. mas quando chega a conta é que você vê a diferença. aqui se cobra pela unidade. tinham três pães no cesto e quatro potinhos de manteiga? bom, mas você só meteu a mão em dois pães? e abriu apenas um pote de manteiga? ah, meu amigo, então é isso que você vai pagar pelo couvert. dois pães e um pote de manteiga, discriminados na conta. se em um outro restaurante você optar por ficar brincando com o mini-queijo, e der um gelo no pão... você paga apenas pelo mini-queijo. nada mais justo. nada mais democrático. se em são paulo a facada do couvert era daquelas facas gigantes usadas para fatiar peças de alcatra, a daqui é daquelas de passar manteiga e sem serra. o plano do couvert português é sensacional. tenho certeza que se tivesse no brasil algo similar, você se sentiria menos trouxa. menos forçado a socar a pança com pães, “eu tô pagando couvert então foda-se, vou comer todos os pães de queijo do restaurante! vou foder esses caras.” mas não, quando você é forçado a pagar uma grana pelo couvert e come para se vingar, está é estragando o seu jantar. aqui o couvert tem o tamanho e o preço que você bem entender.não sei qual é a relação que você tem com couvert de restaurante. mas se estiver em portugal,pode ser uma relação bem flexível.

terça-feira, maio 29, 2007

o intervalo do cinema. ou "pára tudo, pára o beijo, o pôr do sol, a perseguição implacável... que a gente volta em cinco minutinhos..."

em alguns lugares aqui em lisboa, cinema tem intervalo. cinco, três minutos. no momento em que o mocinho está prestes a beijar a mocinha. é, aqui, as vezes, o detetive tem que puxar o freio de mão do carro que está perseguindo pelas ladeiras de são francisco? no brasil não existe. e se acontecer algo parecido as pessoas gritam para o rapaz atrás do projetor, gesticulam, chamam o gerente. fazem tudo, menos sair para fumar um cigarro. o intervalo no meio das sessões de cinema é curioso. a primeira vez fui apanhado de surpresa, entrei sem ver a faixa que avisava a pausa do filme presa no cartaz. levei um susto. não um susto alfred hitchcock, um susto daqueles que você tem quando falta a luz em casa. neste caso, a luz veio. acenderam-se as luzes do cinema. e como ninguém reclamou, ninguém xingou, ninguém correu para a saída de emergência mais próxima, fiquei tranquilo. minutos depois, o filme continou e todos viveram felizes para sempre. acho que o intervalo nos cinemas daqui têm um lado bom. um só. que não está ligado a um segundo balde de pipoca. um lado muito bom. porque, se no brasil eu passava o filme ouvindo o casal de trás conversar e só podia olhar na cara deles no final do filme. o intervalo do cinema permite um duelo. uma troca de olhares. uma quase ameaça. o intervalo do cinema é perfeito para acabar com pessoas que falam. acendem-se as luzes e tudo que você precisa fazer é virar-se para trás e olhar como quem diz: “eu sei que são vocês que estão falando. e se vocês continuarem, no final do filme voltaremos a conversar.” silêncio total prossegue tal troca de olhares. é inevitável. principalmente quando o filme que corre pela tela é o de algum serial killer cuja identidade nunca foi identificada pela polícia.

sexta-feira, maio 25, 2007

moedas que valem mais que notas no brasil.

no brasil eu sempre tive alergia a moedas. não me entenda errado. gosto de dinheiro. nunca destratei um centavo. mas as moedas escorriam do meu bolso para a bolsa da minha mulher. chegava em casa e colocava as moedas sobre a mesinha da cozinha. nunca tive uma carteira que tivesse aquele mini bolsinho para carregar moedas. no brasil, com moedas, você compra chiclete, assim no singular. mas aí, bom, aí chegando aqui eu me deparo com as moedas de euro. a de 50 centavos, a de 1 euro e a de 2. a de 2 euros é a fucking fuckers master das moedas. a imperadora intergaláctica das moedas. a darth vader das moedas. vai valer assim na casa do caralho. e o foda é que eu demoro pra acostumar. sempre me fodo. sempre esqueço moedas no fundo da mochila. nos bolsos das calças. já deixei uma vez sobre a mesa de um restaurante. era um puta troco fudido. e nem me toquei. com pressa de pegar o cinema, vi de longe umas moedas se aproximar e pensei "ué, moedas, vou deixar pro fera que atendeu a gente!" deixei uns 30% de gorjeta. uma conta de 14 euros, 4 euros de gorjeta. moeda aqui é foda. tenho medo delas. quando compro um jornal, uma bala, um café-- e vejo que vou receber moedas de 1 ou 2 euros-- corro para a carteira e tento fazer alguma matemática que possa me ajudar numa troca por uma nota de papel. aprender a lidar com as moedas vem do dia-a-dia, é costume. ainda vou perder muito dinheiro aqui. dia desses retornei para o tal restaurante da gorjeta de 30% e o mesmo garçom quase brigou com uma tiazinha para me atender. neste dia ele atendia uma outra parte do restaurante. discutiu com a tiazinha. queria porque queria atender a minha mesa. a tiazinha não entendeu nada. mas nada mesmo. afinal, naquele dia eu já estava mais íntimo das moedas e de seus respectivos valores. naquele dia, ela deve ter recebido uma das piores gorjetas da sua vida. ficou puta com o tiozinho e comigo. nessa ordem. culpa das moedas. que como o título deste textinho diz, valem mais do que notas no brasil.

quarta-feira, maio 23, 2007

os abutres do ponto de ônibus. ou quando você fica com a saca cheia e pega um taxi.

o sistema de autocarro, de ônibus em lisboa é sensacional. mas as vezes, as vezes, demora um tiquinho mais do que o comum. a noite principalmente, o serviço funciona de 20 em 20 minutos ao invés dos 10 em 10 da parte da manhã. zuzo bem, é só ser um tiquinho paciente. mas é aí, é nessa hora que os abutres atacam os pontos de ônibus. quando você está cansado do trabalho. quando tudo que você quer é chegar em casa e mergulhar o rosto no prato de pataniscas de bacalhau. quando você está contando os minutos para assistir mais um episódio de algum programa que você não sabe o nome, mas tem aquele ator que era amigo do forrest gump. é nessa hora que os taxistas começam a circular pelos pontos de ônibus. eles passam devagarzinho. olham para o ponto, dão uma bocejada para você fazer o mesmo e seguem em frente. mas muitos, muitos mesmo seguem em frente com um novo passageiro no banco de trás. um passageiro que estava ali no ponto. um plano interessante, curioso, marvado. os taxistas, os abutres se juntaram num belo dia e bolaram esse plano: "e se a gente, com o pôr do sol, passasse a circular lentamente pelos pontos de ônibus da cidade para pegar lisboetas e turistas. tiozinhos cansados. jovens esfomeados. abutres. fêlas. já fui vítima desse plano algumas vezes. um dia, com fome estava lá encostado no ponto quando passou um taxista que tinha em uma de suas mãos, um sanduíche que escorria queijo pelas beiradas.ele deu uma baita mordida e olhou fundo nos meus olhos. pulei em cima do capô do carro dele. cheguei em casa e montei um sanduíche idêntico. ele me deu a receita. o truque do bocejo também é infalível. o taxista passa lentamente e solta um bocejo. você boceja de volta e uma pequena parte do seu cérebro grita: "ôpa, que sono hein fera! vâmo pegar esse taxi e chegar mais cedo em casa pra cair debaixo das cobertas?!" nesse eu já caí umas três vezes. o serviço de autocarros daqui é fantástico, mas os abutres do ponto de ônibus podem atacar a qualquer hora. moral da história: tenha sempre, sempre 5 mangos no bolso da calça. deixe de almoçar, mas não gaste esses 5 mangos. como você já sabe, os abutres estão sempre por perto. e você, sempre longe de casa.

colaboração de sergio lobo. que numa quarta-feira friorenta apontou para um taxista que se aproximava do ponto de ônibus e disse: "esses taxistas são foda, desaceleram quando passam na frente do ponto só para tentar a gente."

segunda-feira, maio 21, 2007

o porto e o necaxa.

o porto foi campeão português. mas você tem que fuçar nos jornais para descobrir os detalhes do jogo. isso, porque quem mora em lisboa odeia o f.c. porto. se você começar uma frase com "o time do porto...", é melhor terminar com um palavrão. não se fala do porto aqui. não se comenta. depois do jogo ontem, não escutei uma só buzina nas ruas. nenhum grito de campeão. é como se não existisse a última rodada do campeonato português. quem nasce em lisboa é benfica. acho que é por lei. não se pode discutir, tem que aceitar e adorar o benfica. a sensação que eu tive aqui é a seguinte: é como se eu estivesse morando em são paulo, e, o título de campeão brasileiro tivesse ficado com o necaxa do méxico. com um timinho de um lugar longe. que ninguém sabe a pourra da escalação. ou finge que não sabe. é mais ou menos assim.

abril, chuvas mil. maio, decide caráio.

"abril, chuvas mil!" assim que eu cheguei em portugal era o que eu mais escutava. e corria da chuva e as pessoas falavam a tal expressão. saía da escada rolante do metro sob um cortina de água e um português resmungava: "abirl, chuvas mil." enquanto assistia a previsão do tempo no bom dia, liboa na tv... era só o tiozinho da previsão falar que seria uma segunda-feira chuvosa para o âncora do programa tampar o microfone e falar: "abril, chuvas mil!" faz sentido. em abril, aqui chove. chove muito. chove mil vezes mais do que o normal. a tal expressão também tem uma coisa boa a seu favor, a rima. é fácil de lembrar e auto-explicativa. bom, resumindo, curti a expressão e já sei o que esperar de abril. nunca vou ser pego de surpresa. mas chegou maio. como o calendário insiste, uma hora abril tem que acabar, não tem jeito. o que nos leva ao tema, ao título, ao assunto deste textinho: maio. é, porque se abril, é "abril, chuvas mil." maio, bom, maio é "decide caráio." maio, decide caráio. mais uma vez, maio, decide caráio. explico. este sábado que passou, trinta e três graus. sol. asfalto se desfazendo. senhoras se abanando encostadas nos muros. filas nas sorveterias. aí chega o domingo, doze graus. treze talvez. não mais que isso. e uma chuva fina que fatiava toda e qualquer vontade de sair de casa. de se mover.guarda-chuva saiu da mochila. o casaco mais grosso saiu do cabide. e a máquina de café trabalhou overtime, trabalhou duro. e essa putaria se repete dia sim, dia não. semana sim, semana não. reza a lenda que esse vai ser o verão mais quente de todos os dias. junho vem com tudo. armado pra acabar com a indecisão crônica de maio. nesses nove dias que restam de maio vou divulgar a minha teoria, a minha expressão. quem sabe, quem sabe, ano que vem se você chegar aqui em lisboa nessa época, em maio você não escuta uma nova expressão. ao sair do metro, ao lado de um português todo encasacado-- quando um sol de 38 pegar ele de frente-- ele vai olhar para o lado e vai resmungar... "maio, decide caráio!"

quinta-feira, maio 17, 2007

o vinho de 4 euros e o fígado rosado.

não entendo picas de vinho. sei mais ou menos a diferença entre um tipo de uva e outro. quando tomo um vinho que eu curti, volto a pedir o mesmo. sei que um "sangue de boi", aqueles vinhos em garrafas de 20 litros com aquele trançado de palha ao redor da garrafa não é um bordeaux. sei o basicão. sei evitar uma dor de cabeça na manhã seguinte. já assisti o documentário mondovino e o filme sideways. nunca bochechei vinho e cuspi no copo para comentar do sabor aveludado e dos tons de tanino. quebro um galho. o que nos leva ao tema desse textinho: o vinho de 4 euros. entre 2,99 e 6,99. na média, 4 mangos, 4 euros. os mesmos vinhos que eu comprava no brasil, em são paulo, e que lá custavam entre 30 e 50 reais, aqui custam 4 euros. simples assim. varia um euro para cima. um euro para baixo. se você tem um fígado daqueles rosados, saudáveis, o seu lugar é aqui. pra tomar taças cheias no almoço, taças que transbordam no jantar. com a casa que eu aluguei, veio de brinde um rack daqueles de guardar vinhos. tudo aqui conspira para você colaborar com o aumento do consumo per capita de vinho dos portugueses. existem vários motivos para o preço dos vinhos beirar os 4 euros. portugal é o maior produtor intergalático de cortiça para rolhas de garrafas de vinho. proporcionalmente pelo tamanho da área que ocupa no mapa-mundi, é um dos maiores produtores de vinho, o que continua depois do jantar, com o vinho do porto. se você curte vinhos. se carrega na bolsa um recorte de jornal com alguma notícia de algum estudo que diz que vinho faz bem para o coração—visite portugal. passe uma, duas semanas por aqui. aproveite o clima. aproveite a açorda de gambas. mas aproveite, principalmente, o vinho de 4 euros.

terça-feira, maio 15, 2007

9.7 de cada 10 portugueses fumam.

isto é um fato. você vai trabalhar e volta para casa com a impressão que veio da boate. você vai almoçar e volta para casa cheirando a despedida de soleteiro. você vai jantar e volta defumado. você se torna um fumante. eu devo fumar uns dois cigarros por dia sem querer. fácil. e aí você pergunta, “mas erick, os cigarros daí não têm aqueles adesivos com foto de pulmão carvão, dentes podres?” não, os cigarros daqui têm um adesivo gigante que diz “fumar mata!” fonte grande. daquelas que se pode ler a distância. os portugueses fumam pra cacete. quando o metrô ameaça chegar na estação, basta olhar para o lado para ver um monte de gente já com um cigarro sambando preso nos lábios. e, segundos depois, a escada rolante fica parecendo um show do U2 durante ‘with or withou you”. uma caráiada de isqueiros pipocam acendendo os cigarros. dependendo da música que está tocando no sistema de som do metrô, dá até vontade de chorar. de emoção, não da fumaça nos olhos. o dia que proibirem o cigarro nos bares ou restaurantes aqui, esse país pega fogo. é, porque pelo o que eu notei aqui, todos os restaurantes são divididos em “fumantes para caralho” e “fumo apenas 3 cigarros por refeição”. e não sei se a combinação de doses cavalares de azeite, vinho e caminhadas pelas ladeiras da cidade, mas todos aparentam estar com a saúde perfeita. impressionante. 9.7 de cada 10 portugueses fumam. e um dia você vai trabalhar e volta para casa pensando alguma história na cabeça caso a sua mulher não acredite que você estava mesmo trabalhando – e não na noitada mais selvagem de lisboa.

quarta-feira, maio 09, 2007

liedson e a teoria do pastel de nata.

a teoria do pastel de nata é simples. o pastel de nata é mais gostoso aqui em portugal do que aí no brasil. os ingredientes, pelo menos na teoria, são os mesmos. mas alguma coisa faz com que os pastéis de nata daqui acabem com os daí. espanquem. cubram os pastéis de nata feitos no brasil de porrada. não tem conversa. não tem putaria. não tem nacionalismo nem torcida. é melhor aqui e pronto. bom, mas quem é ou o que é liedson? o liedson para quem não sabe jogava no flamengo e no corinthians aí no brasil. atacante. camisa 9. jogador nota 5,5 aí. e isso, com boa vontade. nada demais. não me lembro de nenhuma jogada memorável do fêla. acho que nunca foi cogitado para jogar na seleção brasileira. no flamengo vivia no banco. mas aqui, aqui o cara é artilheiro isolado do campeonato português. o cara é ídolo. já vi até livro tipo autobiografia nas livrarias: “liedson, minha vida, minhas palavras.” caceta como é que o liedson aprendeu a jogar bola? impressionante. e não é porque os portugueses jogam pior. não, tá cheio de estrangeiros aqui. portugal foi para as semi-finais na copa da alemanha. o brasil, não. ou seja, o campeonato é duro. e o liedson, brilha. como nunca brilhou no brasil. no meu flamengo. fêla da pulta. que porra aconteceu com o liedson? como ele foi virar craque da noite para o dia? capa de jornal? será o ar? será a água? deve ser o pastel de nata. é a teoria do pastel de nata. os mesmos ingredientes, que por algum motivo-- funcionam melhor aqui em portugal do que aí no brasil.

segunda-feira, maio 07, 2007

o buraco negro da ikea.

a ikea daqui é umas vinte e seis vezes do tamanho da tok & stok. o preço, mais ou menos metade. e é isso que fode. o tamanho da loja e o tamaninho dos preços. é um buraco negro. daqueles que você entra segunda e sai quarta-feira. é preocupante. a ikea é um daqueles lugares em que a mulher do alto-falante volta e meia avisa pelas caixas de som: "pelo amor de deus, o dono do adolescente moreno com uma camisa do ac/dc preta, favor aparecer na recepção para resgatá-lo!" você começa a namorar uma poltrona, se aproxima, olha o preço, vê uma que está logo ao lado, vê outra que está ao lado. continua andando, esbarra numa senhora portuguesa e pede desculpas, e aí já vê que você está no corredor dos sofás, olha preço, olha cor, olha modelo, ôpa, estamos agora vendo armários, cozinha, banheiro, e quando você olha para o lado.... cadê a sua mulher? e você se lembra que a última vez que você viu ela, estava comentando sobre uma cadeira. a ikea daqui é foda. fui três vezes no total. é como o louvre. como a disney. não dá pra ver de uma só vez. tem que ir duas, três vezes. ah, e tem que ir combinado de que a sua mulher não vai brigar com você e você não vai brigar com ela. é, porque você vai cismar em comprar uma poltrona zambers que não cabe na sala. ela vai cismar em comprar o kit cozinha 1, 2 e 3. você vai querer a luminária de três metros de altura. ela vai querer o tapete de meia tonelada. vocês vão marcar de se encontrar nos talheres. mas só vão se encontrar nas caixinhas de palha, de acrílico, de madeira, dos designers suecos que ganharam o prêmio nobel. mas no final tudo dá certo. é só pagar mais 80 mangos, euros é claro, pros caras entregarem e montarem na sua casa. e todos vivem felizes para sempre. mas isso é claro, se não se perderem para sempre no buraco negro da ikea.

sexta-feira, maio 04, 2007

a velhinha que mora na frente.

na frente do meu prédio mora uma senhora de uns 106 anos. sem sacanagem. sem exagero. se der mole tem mais. ela é uma senhora curiosa. daquelas que ficam debruçadas na janela, o dia inteiro. com olhos de águia. vestido florido. cabelo armado. óculos de grau. já me acostumei com a senhora. penso nela como se fosse um alarme de primeira geração. uma grade daquelas eletrificadas de são paulo. qualquer bosta que acontecer no meu quarteirão aqui em lisboa, a senhora vai limpar o pigarro da garganta. vai balançar a cabeça. vai soltar um suspiro. um cão de guarda como se não fabrica mais. impossível de imitar como o vestido que ela usa. durmo tranqüilo aqui em lisboa. porque na frente do meu prédio mora uma senhora de uns 106 anos.

pataniscas.

pataniscas são quase bolinhos de bacalhau. um tanto mais moles e maiores. igualmente saborosos. pataniscas de bacalhau. são mais mastigáveis, com uma crosta mais crocante, mais fina, mais dourada. pelo o que eu vi aqui em lisboa, os locais, os lisboetas, mergulham as pataniscas num caldo de feijão grosso com um arroz denso. o negócio é bom. daqueles que depois que acaba você deseja estar usando uma calça de moletom. daquelas com o elástico frouxo.

o dia da mãe. não das mães.

aqui em portugal é dia da mãe. não dia das mães como no brasil. assim mesmo no singular. "compre o seu presente do dia da mãe." é um negócio curioso, mas dá para entender. é uma mãe. cada um tem a sua, então celebre com a sua e deixe a dos outros, com os outros. deixe a dos outros, em paz.

quinta-feira, maio 03, 2007

sportv em lisboa e a escalação do celtic rangers.

aqui em portugal também são dois canais sportv. assim, com a mesma grafia que a nossa. não são da globo. mas também têm monópolio sobre todo e qualquer programa de esporte interessante.do campeonato ibérico de bocha a final dos campeonatos locais. mas os caras são bem mais espertos que a globosat, a net, a globo. aí no brasil, você assina o pacote cocô, e vem a sportv. os dois. aqui você assina o pacote diamante eterno e nada. quer assistir os jogos da liga dos campeões? tem que pagar mais 30 euros por mês para ter sportv. isso, quando o pacote diamante eterno custa 32. ou seja, você paga 32 euros para ter 50 canais. e 62 euros para ter 52. algo por aí. sugestão: se você estiver planejando morar nessas bandas, decore a escalação completa de uns três times europeus. do goleiro ao atacante reserva. aí, quando você chegar na lojinha para fazer a assinatura e o fêla da pulta do outro lado do balcão revelar o esqueminha da sportv, você olha para a sua mulher e diz, com a maior naturalidade que você não consegue viver sem os jogos do celtic rangers da liga escocesa. é, tem que ser uma liga dessas bem sinistras para ela sentir o tamanho da sua paixão pelo futebol europeu. um time daqueles que até o carinha do outro lado do balcão vai se levantar e bater palmas em câmera lenta pra você. e aí, só para não ter dúvida que vale a pena pagar o dobro por mais dois canais que a sua mulher nunca vai assistir, você fala a escalação do dínamo de moscou. sua mulher vai respirar fundo e pensar como tem um marido/namorado que não consegue mesmo viver sem esses canais. se der mole vai até sentir uma pontinha de inveja por não ter uma paixão, um hobby como você. vai por mim. nenhum “ah, porque eu gosto de futebol...” convence uma mulher a pagar o dobro por mais dois canais. decora a pourra da escalação do celtic rangers caráio, não me venha com real madrid que até ela sabe.

quarta-feira, maio 02, 2007

a dança das cadeiras no ônibus 58.

de cada 10 lisboetas, uns 7.4 são idosos. um dado carregado no exagero mas que não deixa de ser quase verdade. e que caráio isso tem a ver com o título desse textinho? bom, hoje foi a primeira vez que eu peguei o buzum, o ônibus, o auto-carro—como eles chamam-- para o trabalho. e, como todo ônibus, os daqui também tem uns lugares reservados para idosos. nada mais justo. mas o que é engraçado aqui, é que, como tem um grande número de idosos, não existe lugares para todos nos ônibus. (é, o fêla da pulta que desenhou o ônibus daqui, não reservou o número certo. o número necessário de cadeiras para os idosos. elas são mais baixas e azuis, eu acho.) então, o que é engraçado aqui é a dança das cadeiras. uma dança sem a música que pára. a dança das cadeiras acontece toda vez que o ônibus pára. é um tal de “pode sentar-se senhora!”, “o senhor, não quer o meu lugar?!” e levanta uma mãe e cede o lugar para uma senhora que antes estava em pé, mas que já na próxima parada oferece o lugar para um senhor um tiquinho mais idoso que ela. e este senhor, já cheio de segundas intenções, recusa o lugar, que vai para um outro senhor que acaba de entrar. e a cada parada, a cena se repete. é uma senhora que vem correndo do final do ônibus para pegar uma cadeira especial que se abriu. é um senhor que se recusa a ser considerado idoso e recusa a cadeira com uma cara como quem grita: “vai dar meia hora de bunda, eu sou mais velho que você mas não exagera.” e tudo isso acontence com uma harmonia impressionante. como um relógio. gente se misturando num zig-zag, trocando lugares, oferecendo, gesticulando, as vezes apenas com um olhar. tudo isso enquanto o auto-carro de número 58 faz uma curva fechada e chega na praça de camões. e eu, bem, eu quase perco o meu ponto observando a tiazinha que fulmina com os olhos uma adolescente que se recusava a se levantar e ceder a cadeira para ela. a dança das cadeiras no ônibus 58.

sexta-feira, abril 27, 2007

açorda de gambas. o melhor prato de todos os tempos até hoje.

se você tiver um dia, meio dia, duas horas, meia hora, quinze minutos. bom, se você tiver tempo para uma só refeição aqui em lisboa, peça açorda de gambas. nada de bacalhau. bacalhau é o caráio. peça açorda de gambas. gambas é camarão. e açorda? açorda é uma massaroca de pão com azeite, manjericão, ervas, e mais azeite e acho que um pouco de água (não tenho certeza). imagine o pão mais gostoso que você já comeu na sua vida. agora imagine esse pão socado até a morte com azeite, colheres generosas. agora imagine ervas, daquelas que a gente não sabe o nome mas que fazem a comida ficar digna de virar assunto de blog. visualizou? agora coloque camarões geneticamente modificados. dos grandes. gigantes. barrigudos. e dê uma boa mexida na massaroca. esconda alguns camarões lá no meio. parta alguns pela metade. outros, você corta em três. quatro, talvez. deixe respirar um tiquinho. só um tiquinho. esfriar o suficiente para não queimar o céu da boca. meu amigo, te prepara que o negócio é de foder. mergulhe o garfo como não quer nada dentro da açorda. ah, use um prato fundo daqueles de sopa. mas voltemos ao garfo. o bom da açorda é que ela é meio pegajosa, o garfo acaba atraindo uma meleca de açorda. uma crema de açorda é içada do fundo do prato, com um camarão já sem a cabeça agarrado na ponta do mesmo garfo. respira fundo e lance a açorda para dentro. com jeito. não engula com pressa como quem come batata frita do mcdonalds. deixe ele alguns segundos na boca antes de engolir. três segundos. é o tempo das suas papilas gustativas fazerem uma ola. se emocionarem com a explosão de sabor. sabores, no plural. agritarem lá do fundo da sua língua: "obrigado, mas obrigado pelo prazer, obrigado pela açorda. obrigado por ter um dia lido o blog do erick. e ter pedido uma açorda de gambas no lugar do bacalhau!"

quinta-feira, abril 26, 2007

"e o cristiano ronaldo hein, caro taxista?"

descobri outro truque aqui em portugal. esse é para fazer com os taxistas. bom, mas antes de revelar o truque, vale contar um pouco sobre eles. ou melhor, sobre o humor deles. os taxistas daqui são ranzinzas. têm uma certa dificuldade para abrir um sorriso. e, se você entrar numas de gaguejar com o endereço ou não decorar com todas as palavras o destino, o fêla da pulta vão te fulminar com olhos que lançam labaredas de fogo na sua direção. agora vamos ao truque para reverter essa situação. o truque do cristiano ronaldo, vamos definir assim. é muito simples. e funciona sempre. nunca falha. pelos menos até agora não me deixou na mão. você entra no taxi, erra o endereço, a pronúncia ou os dois. o taxista olha pra você pelo retrovisor, puto. com a cara fechada. nenhum dente se revela por debaixo do bigode. aí, bem, aí você abre um sorriso e, de um jeito bem humilde fala, mas fala no formato de pergunta: "e o cristinao ronaldo hein, caro taxista?!" aí meu amigo, você conquista o cara. ele começa a falar com orgulho. mostra dentes, mostra pontos turísticos pela janela. e fala do cristiano ronaldo quando ele ainda jogava aqui no sporting de lisboa. quando ainda era moleque e despontava na seleção. fala como eles está conquistando o mundo. você é tratado como um rei. vai por mim. é um truque simples que vai funcionar sempre. mas é claro que você tem que praticar um tiquinho. é, você tem que perguntar com um tom que indique que você quer ao mesmo tempo a opinião do taxista sobre o futebol do cristiano ronaldo-- e também que você está completamente ciente que se trata de um gênio do futebol. tem que massagear o ego dele. do taxista. isso deveria ser a primeira coisa que você aprende no aeroporto antes mesmo de sair do brasil. "vocês vão para portugal? bom, pegue aqui esse guia de lisboa." e no guia é claro, teria apenas uma frase, uma pergunta: "e o cristiano ronaldo hein, caro taxista?"

terça-feira, abril 24, 2007

o plano do metrô em lisboa.

descobri um plano maquiavélico aqui do metrô aqui em lisboa. na verdade é uma estratégia que eu já vi usada em prédios de firmas. é mais ou menos assim que funciona: o metrô está chegando na próxima estação, o condutor acaba de avisar. bom, é aí que entra o plano. todas as pessoas, silenciosamente vale ressaltar (depois de tantos anos executando o tal plano, tudo que basta é uma trocada de olhares para decidir, combinar quando colocar as engenhocas para funcionar)... mas voltando ao começo da frase... todas as pessoas, silenciosamente vale ressaltar, dão um passo para frente. não dois, não três. apenas um passo. o suficiente para disfarçar que o metrô está mais cheio do que parece. tudo isso para que você não embarque. para que você se cague e espere pelo próximo. um bando de fêla. não me entenda errado, os lisboetas são gente finíssima, é o pessoal do metrô que são um bando de fêla. esse esqueminha do metrô já me deixou esperando pelo próximo trem umas duas vezes. pensando bem, umas três vezes. ok, quatro. foi o tempo que levou para eu descobir, sacar, pegar os carinhas no contraopé. na verdade, quem fodeu o esqueminha, quem entregou tudo, foi um carinha. um estudante aparentemente com sono que demorou um pouco mais do que os outros para dar o fatídico passo a frente. o passo que iria mais uma vez me enganar. aquele passso que iria me deixar mais uma vez lendo o verso do mapinha do próprio metrô. azar o dele, e dos outros. no dia seguinte já não caí no esquema, no plano. entrei no carrinho como se ele estivesse completamente vazio. espaçozo, cotovelando, com um certo ar de "se foderam, descobri tudo!" a partir daquele dia nunca mais perdi um metrô. para ser sincero, até entendo a razão pelo plano. o porque inventaram todo o esquema. de manhã, cansados, as pessoas naturalmente não querem dividir aquele meio metro quadrado com qualquer estranho. dia desses eu mesmo entrei no esquema. segui o plano. dei o meu pequeno passo para frente. junto com os lisboetas. não porque também queria foder quem esperava pelo metrô do outro lado da plataforma. é que, num vagão com uma centena de pessoas, eu não queria ser linchado. o brasileiro filho daputa que entregou o plano para os outros turistas. o plano do metrô. já tinha testemunhado coisa parecida em prédios de firma. mas aqui no metrô de lisboa acontece todos os dias. em todas as estações.

sexta-feira, abril 20, 2007

pastilhas elásticas e o telemóvel.

duas palavras que são completamente dieferentes do português do brasil. a primeira que quer dizer chiclete e a segunda, celular. agora, sem querer defender os portugueses, faz muito mais sentido como eles falam por aqui. pastilhas elásticas já descreve o produto. são pastilhas, e são elásticas. mais simples, impossível. o telemóvel, é um telefone que é móvel. uma criança que nasce aqui, ao escutar a palavra telemóvel pela primeira vez, já entende que caráio ela significa. no brasil, não. vai se tornar um moleque pentelho que vai ficar perguntando: "mãe, porque é celular? mãe, porque é celular!"

a mãe na cozinha.

o perni e o renatão fizeram uma campanha publicitária que conta uma história que quem come o produto tal jura que a comida foi feita pela própria mãe. comeu o tal produto, você vai ligar pra fábrica pra ver se a sua mãe trabalha lá de tão gostoso que é. bom, essa é a impressão que se tem aqui em portugal. que a minha mãe está me seguindo pelos restaurantes. que ela está sempre um quarteirão atrás, esperando eu entrar no restaurante. entrei no restaurante, pedi o prato, pimba, ela corre para cozinha e gerencia as panelas, as bocas do fogão. "o erick gosta de carne mal passada!", "carrega no azeite!", "menos creme no molho...!!" e depois, bem, depois ela fica espiando pela janela eu comer. só pode ser. o negócio é engraçado. todo restaurante que eu entro é a mesma coisa. as batatas, o arroz, o feijão, os fêla da puta acertam sempre. e sempre com aquele estilinho, aquele jeitinho que indica que a dona dadá, minha mãe está na cozinha coordenando os cozinheiros. não sei. mas parece que é o que está acontencendo. minha mãe na cozinha.

terça-feira, abril 17, 2007

a ladeira em lisboa.

a firma nova aqui em lisboa-- fica numa ladeira. uma senhora ladeira. na verdade, a chegada é uma descida. a partida para casa é uma ladeira. o que deveria ser ao contrário, se você pensar. pela manhã, o corpo ainda não está cansado. está inteiro, por isso, subir uma ladeira seria tranquilo. mais tarde, depois de um dia de trabalho, o corpo já está meio baleado. ou seja, descer uma ladeira, seria o ideal. mas não. não. é o contrário. acho que tudo faz parte de um grande esquema. os portugueses são excelentes na cozinha, portanto fazem escritórios nesse esquema. você enche a pança de comida no almoço e se exercita no caminho de casa. simples assim. pensando bem, é das melhores idéias que eu já vi. come-se muito. exercita-se mais. no primeiro dia da ladeira, parei três vezes para respirar. no segundo dia, trouxe uma garrafa de gatorade. amanhã, vou trazer mais uma. o lado bom, é que você acaba economizando na academia. não tem jeito. o exercício é obrigatório, se não você não vai para casa. fico imaginando em uma semana, eu, caido no chão da ladeira, com uma contusão na panturrilha-- igual a do romário com um tubo de gelol em uma das mãos tentando curar a dor. e os portugueses, já acostumados com a ladeira, passando por mim e perguntando: "o que foi? o que foi?" e eu, ali embaixo, com o pouco ar que me resta nos pulmões vou tentar explicar: "a ladeira, a laddeira em lisboa!" a tal ladeira em lisboa é uma das grandes surpresas desta viagem. depois do pastel de belém. dos peixes. das alheiras e dos imperiais (chopps). a ladeira em lisboa é o que me permite continuar nessa exploração gastrônomica sem precedentes em qualquer guia turístico. agora, quando alguém chegar para me visitar em lisboa. eu vou levar para comer todas essas guloseimas. regadas a litros de azeite e aquela manteiga amarela escura gorda que brilha de longe. e depois, bom, depois eu vou convidar gentilmente para me encontrar na saída do trabalho e subir a ladeira comigo. a ladeira a caminho de mais um restaurante. a ladeira em lisboa.

domingo, abril 15, 2007

dois filmes pela metade.

007 e happy feet. estava lá eu encaixado na cadeira do avião. viagem longa. bexiga vazia e pança cheia. a idéia era simples. viagem longa, preso na cadeira da janela com um fêla da pulta sentado no corredor que já dormia desde o primeiro minuto. com a bexiga zerada e a pança cheia, não seria necessário levantar durante o vôo inteiro. mas o assunto não é esse, mas os dois filmes que eu assisti pela metade. comecei a noite assistindo 007, o novo. peguei no sono no meio. não sei que caráio aconteceu. é claro que o james bond continua vivo e tal. mas acordei já com as letrinhas subindo. beleza. sem dramas. virei pro lado e dormi. afinal, como você já sabe, tinha um segurança na cadeira do corredor dormindo. pernas esticadas, máscara e braços cruzados. ou seja, não podia sair dali. então, como já disse...zzzzz. algumas horas depois, a aeromoça, simpática-- me dá um cutucão no ombro: "e aí, o fêla vai querer comer esses ovos requentados?" e eu, ali, com quinhentas gramas de remela em cada olho, acordei. e, enquanto comia os ovos quase mexidos. quase frescos, quase bons, liguei o monitor novamente. happy feet. o desenho do pinguin alegre estava começando. concentração. foco. headphone. o vizinho do corredor ainda não liberou a saída. tenho que assistir a pourra do filme para não pensar no xixi que eu não posso sair para fazer. e é aí que o piloto me fode. depois de uma hora e meia de filme, ele pausa a porra do vídeo para falar do pouso, da temperatura, das chances de chuva e do programa de milhagem. o monitor apaga. não termino de ver um segundo filme. o carinha, o vizinho acorda, tira a máscara. mas aí, bom aí já é tarde demais. os avisos de apertar os cintos já estão acesos. ninguém levanta. dois filmes pela metade.

dia desses

- dia desses eu pedi uma coca cola light com gelo e sem limão. o garçom trouxe um chopp.

- dia desses uma tiazinha lá do prédio fingiu que não me viu e não segurou a porta do elevador para mim. na semana seguinte eu retribuí o "favor". duas vezes.

- dia desses a mulher da tim me deixou 32 minutos cronometrado no próprio celular esperando. dia desses eu vou assinar um contrato com a claro, a concorrente.

- dia desses eu vi um carinha comendo um prato de estrogonofe no trânsito parado de são paulo. tupperware, garfo de ferro, porção farta de arroz. daqueles com o molho bem laranja.

- dia desses eu assisti um capítulo inteiro de uma novela porque estava com preguiça de pegar o controle sobre a tv.

- dia desses eu vi um pombo soltar uns duzentos gramas de bosta sobre um porsche cayenne.

- dia desses eu achei que um textinho que começasse com "dia desses" poderia ficar interessante.

- dia desses eu vou acessar aqui para ler e ver que o tal textinho ficou bem "mais ou menos."

terça-feira, abril 10, 2007

pensamentos de terça.

- aqui em são paulo os taxis são brancos. todo branco. sem faixas quadriculadas. no rio é amarelo ovo. sacanagem. enquanto em são paulo, o sr. taxista pode simplesmente tirar aquele quadradinho que diz "taxi" do teto para passear com a namorada no fim de semana. o taxista do rio vai ter que passar o fim de semana gesticulando com o braço pra fora da janela para dizer que não está trabalhando.

- quer ganhar dinheiro fácil? é só abrir um centro para recuperar viciados em "24 horas". aquele seriado da tv. e, se você tiver alguma dúvida se vale o investimento, compre a caixa com uma das temporadas e coloque no dvd. você será o membro fundador do seu centro de recuperação.

- arroz que é para ser solto quando chega grudado na mesa é uma bosta. arroz quando é para chegar junto (risoto) e chega separado na mesa, é uma bosta.

- a laranja é uma fruta com dois empregos. as vezes é uma fruta. outras vezes, quando conveniente, é uma cor.

- a fruta do conde é da minha mãe e não do conde. foi ela quem comprou. não ele.

- entrei no supermercado hoje e os ovos de páscoa estavam com 40% de desconto. me senti enganado. ludibriado. ultrajado. sacaneado. ano que vem eu vou celebrar a páscoa na terça feira e não no domigo como o resto do mundo. fica mais original e mais barato.

- as músicas mais escrotas do mundo tocam entre sete da manhã e oito-- quando você coloca o alarme para tocar. é um esqueminha que as rádios encontraram para fazer você passar o resto do dia cantarolando essas bostas por aí. pode notar. toda e qualquer música que você escuta quando o alarme toca, vai cantar até o dia seguinte. e se não cantar, pelo menos vai assobiar.

- dia desses fui na padaria da esquina e perguntei se o pão era fresco. se tinha acabado de sair. o carinha disse que sim. eu peguei o pão e não estava quente. olhei para ele e o fêla comentou: "saiu tem uns 17 minutos." acho que ele fez uma conta na cabeça para não passar por mentiroso e ao mesmo tempo ter uma resposta para o pão estar frio quase gelado. fêla da pulta.

- eu queria sofrer de calvície dos cabelos do nariz. só do nariz.

- pedi uma "entrada" que chegou depois do prato principal. chamei educadamente o maître e perguntei se aquela porção de aperitivo era na verdade uma "saída".

sexta-feira, abril 06, 2007

existe uma grande diferença entre

- existe uma grande diferença entre uma cerveja mais ou menos gelada e uma gelada.

- existe uma grande diferença entre um filme ok e um filme bom.

- existe uma grande diferença entre cinco minutos atrasado e dez.

- existe uma grande diferença entre uma cadeira no centro e uma outra no corredor do avião. elas parecem ser iguais. não são.

- existe uma grande diferença entre "esse pão de queijo acabou de sair" e "frescos? acho que sim."

- existe uma grande diferença entre "não sei" e "veja bem".

- existe uma grande diferença quando o bebê chorando no avião é da sua família e quando ele não é.

- existe uma grande diferença quando o bebê chorando no restaurante, bom, você entendeu.

- existe uma grande diferença entre uma pitada de pimenta malagueta e duas.

- existe uma grande diferença entre morar na cobertura e no penúltimo andar.

- existe uma grande diferença entre pedir o couvert e pedir a sobremesa. o primeiro, como o nome diz, vem primeiro. a sobremesa vem depois quando a pança já está ameaçando pular pra fora da calça.

- existe uma grande diferença entre acordar numa sexta de feriado e numa sexta sem.

- existe uma grande diferença entre 200 gramas e 250 gramas quando o item sobre a balança é o filé que você vai jantar.

- existe uma grande diferença entre perder 1 kg quando você tem 1,60 de altura e 1,80.

- existe uma grande diferença entre um bolinho de bacalhau que custa 26 mangos a porção e um do mesmo tamanho que custa 12 reais.

- existe uma grande diferença entre comer um big mac no almoço e comer o mesmo antes de fechar os olhos na cama.

- existe uma grande diferença entre citar um autor uma vez e citar o mesmo duas vezes. eu sei, por exemplo, que foi nietzsche que falou aquela putaria de "o que não te mata, fortalece..." mas tente citar ele pela segunda, vez. uma segunda frase. é caplicado.

- existe uma grande diferença entre torcer para o flamengo na década de 80 e agora.

- existe uma grande diferença entre molho de tomate e ketchup.

- existe uma grande diferença entre uma carne gordurosa e uma com gordura. a com gordura você acha e consegue remover. a gordurosa está com gordura por toda parte misturada com a carne. pode cruzar os talheres e desistir porque fodeu.

quarta-feira, abril 04, 2007

pensamentos do dia depois de um casamento.

- casamento é o único momento do mundo e do ano que você come de tudo sem nenhum peso na consciência por um motivo muito simples: todos ao seu redor também estão comendo.

- num casamento tem sempre um garçom cujo declarado objetivo é derrubar você. explico, sempre que eu estou num casamento, tenho a sensação que o mesmo garçom ou garçonete me seguem pela festa trocando a minha taça vazia por uma completamente cheia. não sei se eles fazem apostas ou um bolão na cozinha antes da recepção começar... mas pode notar. a razão pela existência dele ali na parada é derrubar você ou pelo menos testemunhar você dobrando as pernas e as palavras.

- nos outros dias do ano, aonde é que vão parar os docinhos da mesa de doces do casamento? você já parou para pensar nisso? os melhores doces que existem estão sempre nas mesas de doces de casamento, e não adianta fuçar por aí que você não vai encontrar algo parecido. a não ser é claro, que você entre na doceria do seu bairro vestido de terno, segurando um taça de champgne e com a sua mulher vestida com um vestido longo. quem sabe essa não é a senha para a tiazinha de trás do balcão puxar uma bandeija especial com docinhos de casamento. não sei, mas não existe nada parecido em nenhum outro lugar.

- o bem-casado desperta comportamentos jamais vistos nas pessoas. mas principalmente nas mulheres. como no casamento elas, as mulheres carregam bolsas miniaturas, cabe a você, o namorado ou marido utilizar todos os bolsos do seu terno para levar bem-casados para casa. e aí de você se não levar. já testemunhei uma briga de proporções divorciais porque o marido se recusava a levar mais do que cinco bem-casados para mulher. se a sua mulher pedir, ou melhor exigir, não titubeie, soque o paleto com os docinhos. eu não sei o que tem dentro deles, mas alguma coisa tem.

- se num casamento, ao entrar no banheiro, logo no início da festa, você encontrar cartelas de "engov" de brinde-- pegue. engov para quem não sabe são aqueles comprimidos que prometem prevenir a ressaca. bom, então se o noivo e a noiva se preocuparam em disponibilizar o preventivo para você, tome. só eles sabem a quantidade de bebidas e garçons foram comprados e contratados para servir você e os outros convidados da festa.

- se você foi a um casamento sem relógio é fácil ver as horas pelo terno de um convidado. o último botão do colarinho já está aberto? já se passaram duas horas de festa. tirou o paletó e ficou apenas com a camisa social? já se passaram três horas e meia de festa. tirou a gravata? quatro horas de festa. dobrou as mangas da camisa? quase cinco horas de festa.

- fazer o nó da gravata demora mais do que colocar o resto do terno inteiro. por isso dá uma puta dó de tirar depois quando a festa já está nos finalmentes.

- o que é a lavagem a seco de um terno? no meu caiu champagne... como é que o fêla vai tirar a mancha assoprando?

- mas o mais bacana de um casamento é ver pessoas de diferentes épocas da sua vida. uma vez convidado para um casamento, existe uma grande chance de você conhecer amigos em comum do noivo e da noiva. amigos que você conheceu em diferentes épocas da sua vida. casamento é uma espécie de máquina do tempo-- que trás você de volta para os dias de hoje ao final-- com a máquina do cafezinho ao lado das mesas dos doces.

sexta-feira, março 30, 2007

a teoria do contrapé 2.

a teoria do contrapé é simples. o título desse textinho vem com um 2 no fim porque eu não me lembro se já escrevi sobre isso antes. bom, mas vamos a teoria. e o contrapé. um exemplo de como ela se aplica: você sai para beber com os amigos numa segunda-feira ao invés de uma quinta ou sexta, ou até mesmo um sábado. sem saber já ee mestre na teoria. como? bom, o seu corpo está acostumado a sair para beber com os amigos naqueles útimos dias da semana, não é? os enzimas do seu aparelho digestivo. o seu fígado. os seus rins. até mesmo aquele cantinho do seu cérebro que controla o sono e o cansaço. a patota toda, achando que aqueles copos a mais de cerveja vão vir pontualmente numa sexta depois do trabalho. mas, você resolve pregar uma peça. pegar todo mundo no contrapé. quando os seus enzimas esperavam um copo de leite. "um copo de coca light com bastante gelo e sem limão, por favor."-- você fode todo mundo. é o contrapé. e a teoria se aplica em diversas facetas do seu dia. da sua vida. seus neurônios achavam que você ia assistir mais uma vez uma filme de aventura cheio de explosões? comédia romântica neles. domingo é dia de pizza em são paulo? pede feijoada. quarta é dia de feijoada? "opa, o senhor pode trazer o cardápio de pizzas, por favor!" mas tem uma coisa, uma regra, que deve ser sempre seguida na teoria do contrapé. a única regra da teoria. a regra universal. quebrou a porra da regra. fodeu a teoria. acabou o contrapé. a regra é a seguinte: você não pode aplicar a teoria do contrapé com freqüência. tem que ser raramente. de vez em quando. quase nunca. por um motivo muito simples: se você entrar numa putaria de querer pegar o seu fígado, seus neurônios, no contrapé sempre, aí, meu amigo, deixa de ser contrapé. eles vão ficar atentos. vão ficar mais espertos. já vão saber antes, que segunda é o dia do chopp com a galera e não mais sexta. que você agora é apreciador de comédias românticas e não mais torcedor do charles bronson. segure a onda. marque o chopp de segunda uma vez a cada dois meses. aí, é contrapé. peça um x-filé bacon com ovo e três dedos de maionese, as sete da manhã na padaria. peça. mas uma vez em janeiro, outra em maio. coloque aquele tênis quadriculado dos anos 80 que está no fundo do armário para ir ao cinema. ok, mas uma vez para assistir um filme, a outra, a continuação do mesmo. a teoria do contrapé. pode parecer uma baboseira. e é. mas experimente marcar um chopp com a galera do trabalho numa segunda feira chuvosa. ou marque um jantar com a patroa ao lado de uma van de cachorro quente. cachorro quente dos bão. mas tem que ser o de van. aí você vai entender o contrapé.

terça-feira, março 27, 2007

alguns pensamentos do dia e tres "quando o personagem principal de um filme..."

o tempo passa mais rápido quando você está atrasado. mais devagar quando você está com pressa. e nem devagar, nem rápido quando você está olhando para o relógio.


minha mãe ainda pergunta se eu almocei quando liga de noite. e se eu tomei café da manhã quando liga de tarde.


acho que o cachorro da minha vizinha comeu a vizinha e o marido dela. agora ele está com fome e não tem ninguém para dar comida pra ele. o fêla tem latido um tantinho mais do que o comum.


quando o personagem principal de um filme anda em câmera lenta depois de um carro explodir em um trilhão de pedaços, você pode ter uma certeza, o filme é uma bosta.


quando o personagem principal de um filme fala: "eles vão ver, matarei todos. sem pena. afinal, eles mataram o meu cachorro." bom, esse filme vai ser uma bosta.


quando o personagem de principal de um filme leva dois tiros, cai do terceiro andar de um prédio, levanta mancando, corre quatro quarteirões, rouba um carro, foge do fbi, entra de ré num rio e escapa nadando de trinta e seis helicóptero... você pode ter certeza, o filme tem grandes chances de ser uma bosta.


se você é sedentário e vai ao cinema assistir rocky 6, sai de lá se sentindo um bosta. o cara tem uns 96 anos e passa metade do filme correndo e socando gente.

o meu alarme de vez em quando não toca. Isso é que dá não trocar de alarme depois de tanto tempo. o fêla da pulta começa a ter pena de você.


se eu fosse dono de um boteco, colocaria no cardápio uma porção de pastel de “pastel de vento”. aí, quando um cliente puto chamasse o garçom perguntando se aquilo ali era uma porção de pastel de queijo ou de vento (cheio de ironia), o garçom poderia simplesmente responder (sério e sem qualquer dose de ironia): “é ‘de queijo’ meu senhor, se você quiser ‘de vento’, a gente faz.”

quanto menor o espaço, mais você é obrigado a socializar com estranhos. exemplo: você vê o vizinho do oitavo andar no shopping, lá na casa do caralho. ele te vê, você vê ele, e os dois concordam em se ignorar. agora, você entra num elevador com o fêla da pulta e já vaia falando: “oi, bom dia.” E “tchau, até mais” ao sair. puta negócio estranho.


quinta-feira, março 22, 2007

pensamentos do dia.

- existe uma coisa pior do que ficar preso no trânsito. ficar preso no elevador a caminho do estacionamento onde está o seu carro que você vai pegar para ficar preso no trânsito.

- a conta de gás de um restaurante de sushi é quase zero.

- dia desses fui reconhecer a minha assinatura e a mulher do cartório disse que não era a minha assinatura. eu olhei para ela e disse que eu, era eu. e ela respondeu, mas a assinatura não é. voltei para casa e fiquei treinando a minha própria assinatura.

- quando você é moleque, morre de medo do escuro. quando vira adulto e tem que pagar a conta de luz, morre de medo da luz.

- tem uma tiazinha de uns oitenta e nove anos no meu prédio que entra no elevador e fica se arrumando no espelho como se eu não estivesse lá.

- eu fiz um teste cego entre um miolo de alcatra e um miolo de picanha e não acertei.

- os filhos da fátima bernardes e do william bonner são muito bem informados.

- não deve faltar assunto na mesa da família bonner.

- entrei numa loja para tirar uma foto 3 x 4 e a mulher perguntou se eu não queria comprar óculos escuros. mais tarde ela perguntou se iria pagar as fotos em dinheiro e eu perguntei se poderia pagar com jujubas.

terça-feira, março 20, 2007

o skype e relacionamentos.

O skype está fudendo com os relacionamentos. eu sei, você deve estar pensando, “mas como assim? o skype tem dado uma puta mão no meu namoro… ligações mais baratas… posso falar por mais tempo…” mas é exatamente por isso que o skype tem estragado uma caráiada de namoros. antigamente, sua namorada viajava, você tinha que marcar hora para ligar pra ela: “amor, vou te ligar na quarta-feira, entre nove e nove e dezoito, porque nesse horário a ligação é metade do preço.” e, na quarta-feira, lá estaria o casal, pendurado no telefone, fazendo juras de amor. com a voz embargada, prometendo escrever uma carta assim que desligasse o telefone. hoje, não. com o skype, é aquela coisa. a namorada fica de um lado da câmera, em nova iorque, por exemplo. E o namorado, no rio, do outro lado da camera. Uma, duas, três horas falando. “oiê…”, “oiê…”, “eu já disse que eu te amo?”, “já, e eu, já disse?”, “já…” é foda. não existe assunto que renda mais do que meia hora no telefone. não existe namoro à distância que aguente um skype. com aquela imagem quase perfeita, trânsmissão da guerra do golfo, um tantinho granulada. “amor, você está fazendo o que?”, “assistindo a novela…”, “ah, tá…conta pra mim o que está acontecendo na novela…real time….” depois de seis meses, de duas horas diárias de skype, quando um casal se reencontra no aeroporto, deve ser tão emocionante quanto espremer um cravo do queixo. o casal sabe tudo o que aconteceu, em cada segundo, cada minuto, do tempo que eles ficaram separados. o email já tinha fodido o esqueminha das cartas. aquelas cartas borradas de lágrimas, borrifadas com perfume e com garranchos do autor. que a menina guardava numa caixa para reler quando estivesse com saudades. beleza, o email é prático. mas o skype, bom, esse é roubada. da próxima vez que você ligar para a sua namorada ou para o seu namorado, veja como está cada vez mais difícil gerar assunto. a ligação não vai passar de cinco minutos. se passar de dez, é porque vocês brigaram ou um dos dois está preso no trânsito. já o skype, acabou com a desculpa da ligação que é cara. se eu pudesse escolher entre pagar 10 reais o minuto e falar pelo skype de graça para manter um relacionamento à distância entre tókio e são paulo, ficaria com a ligação de 10 reais o minuto. vai por mim, daqui a pouco sai uma pesquisa relacionando o skype com o aumento de índice de divórcios e fins de namoro. vai por mim, se você estiver num esqueminha de namoro à distância, fuja do skype, não faça o dowload nem sob ameaça da muié acabar o namoro.

quinta-feira, março 15, 2007

4 pensamentos do dia e 3 "qualquer conversa que começa com..."

- o trânsito sempre pode piorar o seu dia. ex.: você sai do dentista com meia boca anestesiada e uma dor do caralho no molar superior direito. aí, quando você acha que o dia já não está lá essas coisas, você coloca a seta para sair da garagem do dentista e entra num trânsito filhodaputa. outro exemplo: você acaba de sair de uma reunião com um cliente. todos estão com sorrisos estampados no rosto. você entra no carro, olha para o relógio que marca, 19:08. meia hora depois, você ainda está no mesmo quarteirão. você está puto, o cliente está puto. todo mundo está puto. amanhã ele, o cliente, nem vai lembrar que teve uma boa reunião com você. terá memórias. sim. mas do trânsito filhodaputa. "e então mathias, como é que foi a reunião ontem, lá na agência?" e o mathias, "a reunião, cara... aproveitando que você mencionou... nunca mais vamos marcar uma reunião na agência. a gente paga esses caras, manda eles virem até aqui. não fódi. que trânsito du cacete. a reunião? não lembro. mas o trânsito estava uma bosta.

- manobrista é um sujeito que chegou antes que você naquele ponto da calçada e por isso se acha no direito de cobrar por isso.

- batom é um produto que quanto mais bonita for a dona dele, menos ele dura.

- os 'spams' do email estão me devendo umas 198 horas de vida.

- qualquer conversa que começa com: "vamos por etapas..." dura mais do que meia hora. no mínimo.

- qualquer conversa que começa com: "a gente precisa conversar..." termina com alguém puto ou chorando.

- qualquer conversa que começa com: "não sei se você sabe, mas a empresa está passando por uma fase de ajustes..." termina com a pessoa que está escutando com as subácas molhadas e fazendo contas na cabeça.

terça-feira, março 13, 2007

pensamentos do dia.


- h20h! vende que nem água. tenta achar essa pourra em algum supermercado.

- a revista istoé dinheiro deveria se chamar istoéuma revista.

- se eu jogasse xadrez profissionalmente, só jogaria vestindo camisas xadrez para confundir o fêla da pulta do outro lado da mesa.

- ninguém vai acreditar que você foi a praia se usar um filtro solar 50.

- o canal do meu prédio que filma os elevadores tem uma audiência de dois porteiros. mas com 100% de share.

- uma lata de leite condensado está para um pé de alface como uma quilo de chumbo está para um quilo de algodão.

- o filho da puta do cachorro da minha vizinha engoliu duas caixas de som daquelas bang olufsen makers plus soundworks.

- entregador de flores é um entregador de pizza que tem segundas intenções com a sua mulher.

- massas são todas iguais. só muda o formato, o recheio e o molho.

- havaianas. todo mundo usa? então porque anuncia, caráio.

- quando o flamengo joga, "o globo" do dia seguinte demora pra chegar lá em casa. e quando chega, já está todo moído. o fêla é flamenguista doente.

quinta-feira, março 08, 2007

regras do buffet.

lá no prédio em que eu trabalho só tem kilão e buffet. buffet ou kilão. sério, ou é isso ou um esqueminha daqueles sanduíches suspeitos embalados em plástico com uma data de validade. bom, você entendeu, o negócio é sempre apelar para o bandeijão, pra balança do kilão, para a fila do buffet. e, de tanto observar o buffet, de tanto frequentar o kilão comecei a pensar em algumas regras que poderiam ser interessantes para criar um ambiente mais traquilo e com um certo clima de "é, tâmo na merda, mas tá tudo bem..." regra número 1: se você pegar comida comida demais e colocar no seu prato, não pode devolver para a bandeija. regra número 2: se você não quer socar tomate, cenoura ou beterraba no seu prato, pode furar a pourra da fila e ir direto para os pratos quentes. não fode. regra número 3: se você espirrar sobre o alface será convidado a se retirar do restaurante. regra número 4: se a hostess falar que sua mesa fica pronta em dez minutos, ela tem 5 minutos de desconto, passou de 15 minutos de espera, ela será obrigada a pegar um violão e cantarolar músicas da mpb para fazer a sua espera ficar mais confortável. regra número 5: couvert não pode custar mais do que a sobremesa quando ele consiste apenas de pão e bloquinho de manteiga quase congelados. regra número 6: bloquinho de manteiga do couvert quase congelados são proíbidos a partir de hoje. vai dar meia hora de bunda, quando você consegue colocar a manteiga na lasca de pão, sua comida já chegou. regra número 7: na hora de pagar, nenhum mané poderá furar a fila porque conhece um outro mané que está na sua frente. essa regra só poderá ser quebrada se for marido e mulher. e os dois terão que dar um beijo na boca cinematográfico para provar que são casados. caso contrário, fim da fila rapaz. regra número 8: alface murcho? 10% de desconto. naco de carne tostada no rechaud? 20% de desconto. regra número 9: o fêla que lambuzar o alface usando o pegador do fetuccine alfredo, vai educadamente se oferecer para pagar o seu prato cheio de alface melecado de molho alfredo. regra número 10: guardar o lugar na mesa com um óculos escuros, um crachá ou levantando a cadeira é crime inafiançável. o sujeito será transportado para a prisão de presidente bernardes para dividir uma cela com o beira-mar. quer arrumar um lugar para sentar e ao mesmo tempo ficar na fila para pegar comida? deixe de ser mala e convide um amigo para almoçar e reveza com ele. simples assim. regras do buffet. se elas fossem seguidas por todos, o almoço no prédio da firma seria sensacional. tá bem, exagerei, mas seria pelo menos melhor.

terça-feira, março 06, 2007

dentistas e os sopranos.

meu dentista é bacana, gente boa. oferece aplicar anestesia antes de partir meu molar ao meio. beleza. sem dores. mas fico imaginando porque até hoje não apareceu uma gangue de dentistas saqueadores. uma gangue de dentistas que aproveita aquela broca, aquele motorzinho no seu dente enfermo e não pede nada em troca. vou dar um exemplo: imagine que você está lá, deitado no dentista, ele, por algum motivo disse que não seria necessário aplicar anestesia e soca a broca no meio daqueles dois dentões lá de trás. sabe, aquels grandões, do tamanho do dedão do seu pé? então, ele está com a broca lá. e, naquele momento, ele aperta aquele aceleradorzinho e raspa a primeira camada dos seus dentes. só para arrancar uns 50 ml de lágrimas dos seus olhos. aí, quando você ameaçar mandar ele tomar no cu, quando você ameaçar matar ele, ele te ameaça. ele encosta a broca no mesmo dente dolorido e fala: passa as senhas do seu cartão de crédito ou eu ligo a pourra do motorzinho. e você, bem, você que não é masoquista, grita, em pânico: "sete, sete, nove, um." e ele recua um pouco a broca e manda a secretária dele/assistente ir até o banco vinte e quatro horas da esquina para fazer o saque. mas isso seria só o começo. dor de dente é a pior dor que existe. dor de dente causada pela broca da maquininha de um dentista mal intencionado é pior ainda. em outras palavras, dentistas poderiam formar uma gangue de mafiosos. "entregue todo o seu dinheiro ou eu vou deixar um canal aberto para infeccionar e te causar uma dor eterna." ou "deixe as chaves da sua mercedes benz com a dona lucinda na recepção ou eu vou raspar lentamente o esmalte dos seus caninos." não consigo imaginar quem resistiria a tal assalto. uma gangue. uma gangue de dentistas. só tem um lado bom dessa história. com esse esqueminha, eles não precisariam cobrar tanto a cada consulta.

quinta-feira, março 01, 2007

"é aquela coisa..."

é aquela coisa é um começo de frase meio suspeito. não sei se você escutou alguma frase que começa assim, mas é meio aterrorizante. aterrorizante não é a palavra. é no mínimo suspeito. você entra num restaurante, num boteco daqueles com ladrilhos na parede e um garçom que se chama paiva ou zé ou palhares. aí, você acena para o palhares e pede para ele tirar uma dúvida que você tem com o cardápio. "ô garçom, o bolinho de bacalhau é bolinho de bacalhau mesmo ou é muito carregado com batata?" e o palhares, bem, o filho da puta do palhares olha pra você, e na maior cara de pau fala: "é aquela coisa... depende do que você quer dizer com 'carregado com batata..." e você alí com cara de mané fala: "cuma?" e o palhares: "é aquela coisa, tem gente que prefere com mais batata, tem gente que prefere com menos batata... é aquela coisa..." e você, sem saber o que dizer, pede a porra do bolinho de batata. mas essa frase não é exclusiva de botecos. você entra numa loja de calçados esportivos. aponta para um nike air max plus e pergunta: "esse é aquele que o pessoal da propaganda salta cinco metros de altura, né?" e o vendedor, vestido com aquele uniforme de auxiliar técnico da seleção de basquete do chipre, vai responder: "é aquela coisa, se você já joga basquete, pode saltar relativamente alto. agora se você não costuma se exercitar com frequência, periga não saltar como o pessoal da propoganda. é aquela coisa." e você ali, fica com aquela vontade de dizer: "é aquela coisa, eu poderia dar um chute de trivela no seu joelho esquerdo ou uma cotovelada na base do seu pescoço." é aquela coisa, ou você encontra um sujeito que vai falar assim com você hoje. ou esbarra nesse "fêla" amanhã. um comecinho de frase que diz muito do que está por vir. um comecinho de frase que significa que você está na merda. uma mulher pode acabar um namoro assim: "é aquela coisa, eu te amo, mas não o suficiente para ficar com você." ou "é aquela coisa, o problema não é com você, é comigo..." e por aí vai.