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não sei se você tem ou já teve ou conhece alguém que tem um nextel. nextel, para quem não sabe é um celular que está sempre no viva-voz. as pessoas que estão ao redor escutam tudo o que o dono ou a dona do nextel fala. como eu já disse, a pourra do telefone é uma espécie de walkie-talkie fantasiado de celular. puta negocinho escroto. entendo que dá pra economizar. ligação infinitas com o apertar de um botão. ok, beleza, faz sentido. mas só se você usa essa maravilha da tecnologia para algum tipo de trabalho. você é mestre de obras? beleza, tem que falar com o carinho no segundo andar do prédio que está chovendo sacos de cimento. com um apertar de botão você pode salvar a vida do fêla. mas tem gente que usa a pourra do nextel para conversar coisas íntimas, do dia a dia. "amor, eu vou pegar as crianças... mas depois tenho que dar uma parada na farmácia porque o meu furúnculo do joelho está vomitando pus." puta papozinho que não dá para falar num nextel para todos que estão ao redor escutem. o foda de um dono de nextel é que ele ou ela, com o tempo simplesmente esquecem do fato de estarem falando em voz alta. na primeira conversa talvez sussurrem. na segunda conversa já falam um tantinho mais alto. afinal, a pessoa do outro lado da linha está gritando. é o marido que vai falar baixinho para mulher no nextel que ele está louco para chegar em casa e tirar o atraso, depois de uma semana trabalhando na ponte aérea. mas que um mês depois, pede pra ela descrever graficamente a cor da calcinha dela, em voz alta dentro de um carro do metrô. ou é a esposa que fala para o marido baixinho que pegou a cueca dele escondida entre as almofadas do banco de trás do carro da família. e pede explicações. mas, aí, passam se os meses, e ela liga pelo nextel e esperneia que encontrou uma gola de camisa de terno lambuzada de batom. e fala isso na escada rolante de um shopping, por exemplo. é a síndrome do nextel. com um, dois, três meses de nextel, as pessoas esquecem que existe um mundo de pessoas ao redor. e falam alto, coisas íntimas que não necessariamente merecem ver a luz do dia no viva voz do nextel. "maria, as crianças comeram? ah, o claudinho não comer brocólis? então empurra goela abaixo e diz que se ele não comer eu vou cortar a língua dele fora..." escutei isso na sala de espera de um aeroporto. não fodi. compra um celular e fala direito, baixo. a síndrome do nextel. um bando de fêla que fica falando alto pra cacete porque perdeu a noção que a caráia do nextel é um walkie talkie e não um telefone celular.
dia desses, preso no trânsito vi um caminhão cegonha na faixa ao lado. dos grandes. tinha uns 18 carros. mais um, menos um. o cara estava com o vidro abaixado, com um calor do cão, aquela testa que brilhava de longe e o sol tostando o bigode do fêla. achei que o cara ia pegar fogo. e, como o trânsito não andava, o fêla derretia. bom, você entendeu, o cara estava sofrendo. mas, bastou olhar só um pouquinho para a carga do caminhão cegonha pra ver como a vida dele ainda poderia ficar pior. os 18 carros que estavam bem atrás da sauna, da cabine em que ele estava, eram carros de luxo. jaguar, alfa romeo, bmw, mercedes. um mais bem equipado do que o outro. numa outra vida esse cara devia roubar o lanche do colega mais fraco na hora do recreio. devia ser bem filhodaputa. puta trabalho sofrido du caralho. 18 carros cheio de ar condicionado e um zilhão de itens de série e o cara a dois palmos deles cozinhando na cabine de um scania. o sinal abriu, o trânsito começou a se mover e e lá se foi o coitado. quer ver outro emprego desses: vendedor de cerveja estupidamente gelada de praia no verão. complicadíssimo. o cara tem que ser bem zen. tem que ter um poder de auto-controle fora do comum. quarenta e dois graus. aquecimento global. areia quente pra cacete. mar, mulheres com pouca roupa e um isopor socado com gelo seco e cerveja a 0,1 graus de congelar. outro emprego foda: policial de estádio de futebol. se entrar numas de virar pra assistir o jogo, leva esporro. e o fêla tem que passar o jogo inteiro olhando com cara feia para uns marmanjos, de costas para o jogo. e ainda periga levar na quina da cabeça uma lasca de asfalto. taí outro que em outra vida devia ser bem escroto. o carinha da cegonha, outros dois empregos bem mais ou menos e o karma.
a melhor maneira de testar o nível da amizade de alguém em relação a você, é com uma lasca de alface. uma lasca de alface do tamanho da unha do seu dedo mindinho. nem menor. nem maior. a idéia é simples. ah, só mais uma coisa, a lasquinha de alface tem que ser nova, nada de usar alface murcho, véio. bom, mas vamos a lasquinha de alface. pegue a lasquinha como quem segura um fio dental. com o indicador e o polegar, agarre a pontinha do alface. mas com cuidado para não rasgar. faça o mesmo com a outra mão. você tem agora, esticado, entre as mãos uma lasca de alface. agora vamos testar o nível de amizade das pessoas. encaixe a lasca de alface entre o canino e aquel primeiro pré-molar, o vizinho do canino. mas encaixe, deixando para fora, exposta para o lado visível da boca, a maior face da lasca do alface. agora, munido desta lasca verde, saia por aí, vá ao trabalho, frequente festas, jantares de família, entre numa loja do shopping e fale com uma vendedora que você quer experimentar o tênis zambers da vitrine. a idéia é circular com a lasca de alface no dente. portanto sorria bastante, fale bastante, puxe assunto. a partir daí meu amigo, preste atenção na reação das pessoas. conte quantas vão te avisar da lasquinha do alface. leve um bloquinho no bolso da calça. conte os segundos que demora para um fêla da pulta levantar uma sobrancelha ou apontar com o indicador freneticamente para a sua boca. a lasca de alface é um dos melhores testes que existem. a lasca de alface é capaz de separar amigos de quase-amigos. você vai saber por exemplo se a sua mulher realmente quer o seu bem, ou se está buscando algum tipo de vingança deixando a lasca de alface alí sambando contra o vento na quina da sua boca. faça o teste e comprove. uma lasca de alface e um sorriso daqueles meio falsos que mostram uma caráiada de dentes. é tudo que você precisa.
o salaminho é honesto. não, o salaminho é o alimento, em qualquer forma, mais honesto que existe no mundo. em qualquer país. se você olhar para um doritos desses laranja escuro, de queijo, você não enxerga a gordura. ela está lá, e você, de alguma maneira sabe disso, pois já notou que depois de consumir toneladas do mesmo, acaba desenvolvendo bolsas de gordura localizada que saltam pela calça. mas o doritos não te avisa, não fala, não coloca um neon sobre ele com letras garrafais que dizem: "gordura saturada. banha. 500 calorias." não, você tem que pesquisar você mesmo. se não estiver escrito nas letrinhas miúdas do verso, você talvez encontre um 0800 minúsculo escondido ou uma caixa postal para escrever perguntando a quantidade de banha que você está adicionando ao seu querido corpo. agora, voltemos ao salaminho. aquela rodela reluzente empapada em gordura que brilha à distância. aquele petisco, que faz parte da família dos frios no supermercado. o salaminho não tem vergonha de se expor. de falar com todas as palavras, "meu amigo, aqui contém duas colheres de sopa cheias de banha." ou "tá vendo estes pequenos círculos brancos? é banha." e você vai lá e compra. eu compro. todo mundo compra. pinga limão, junta com provolone e come. é uma relação honesta. você sabe o que está comendo e o fêla da pulta do salaminho não te engana. diz na lata coisas que sorvetes, biscoitos e manteigas se recusam. e não adianta entrar numas de retirar os pequenos círculos de gordura como se faz quando se retira uma azeitona de uma empada. é, porque se você entrar numas de tirar as piscininhas de gordura saturada do salaminho, ele deixa de existir. simples assim. é gordura pra caráio. e mesmo assim você compra. é uma forma de retribuir pela honestidade do fêla. salaminho é foda. é o alimento mais honesto que existe.
dia desses fui ao cinema assistir babel. aquele filme indicado a uma caráiada de oscars. babel é daqueles filmes que contam 3 histórias simultâneas, um terço em japonês, o segundo terço em árabe, e a outra parte em espanhol. no meio desse esquema todo também tem inglês, outra coisa do filme, a porra da história não segue nenhuma ordem cronológica. resumindo, é bom prestar atenção na porra do filme ou você periga voltar pra casa sem entender picas do enredo. segure o mijo, a sede, a vontade involuntária de piscar. foco na tela. bom, aí você senta atrás de um tiozinho filhodaputa de voz grave e carente. que gosta de fazer piadas entre cenas em que a maioria das pessoas está soluçando ou com a respiração fora dos eixos. esse tiozinho estava bem na minha frente com uma filha ao lado que parecia idolatrar cada piadinha daquele bosta. vinte minutos de filme, uma mulher leva um tiro no peito. o cinema suga o ar inteiro da sala. o tiozinho aproveita o silêncio e diz: "bala perdida. perdeu playboy!" e solta uma risada tipo mutley do dick vigarista. meia hora depois, no núcleo japonês da história, uma menina surda-muda e em profunda depressão entra em cena nua. o veado imita umas quatro frases em japonês macarrônico e fecha com "peito bon, nô?" dez minutos depois, uma das personagens a beira da morte pede ajuda para urinar para o marido. uma tiazinha no corredor ao lado chorava. ele, o tiozinho, limpou a garganta e gritou: "ahhh, o xixi da morte!" eu não sei se era o fato de 200 pessoas estarem com os olhos pregados na tela pra entender a pouura do roteiro, mas ninguém matou o filhodaputa. dei mole. ele tem mais ou menos 1,70m. pesa uns 90kg. tem uma pança saliente. uma barbichinha no queixo. é careca atrás e tem o cabelo bem branco a lá steve martin. usava uma camisa laranja gritante e um par de chinelos de couro. ah, e tinha uma voz meio cid moreira, meio william bonner quando aparece no plantão da globo. se você pegar uma sessão com ele, dê uma cotovelada na nuca do fera por mim.
sua caipiroska vem guarda-chuvinha? fodeu. vai pagar caro. mais caro do que você está acostumado com certeza. o guarda-chuvinha é sinal de que você vai ser enrabado quando a conta chegar. a garrafa da vodka fala russo? xi, melhor pedir uma salada então. transforma uma entrada em prato principal. a garrafa da vodka é muderna, colorida? ah, antes de fazer o pedido é recomendável ligar para aquele amigo seu que deve uns trocados desde os tempos de moleque. cruzeiro virou cruzado que virou cruzado novo que virou cruzeiro de novo que hoje é real. ou seja, aquele trocadinho que o teu amigo de infância te deve vai dar pra pagar a tal caipiroska. dia desses fui num bar muderno. novo. e caro. a caipiroska tinha guarda-chuva, a vodka falava um russo fino sem sotaque e custava 22 mangos. 22 mangos. e, como você acaba sempre pedindo a segunda, só de caipiroska, lá se foram 44 mangos. dez porcento, quase bateu 50. e como eu fui trouxa e pedi sem ver o preço, não podia levantar e mandar o gerente do lugar à merda. outra coisa que eu notei que criaram para te foder. o nome "robata". robata para quem não sabe é o seu típico espetinho de carne ou de queijo ou de frango. mas, num restaurante muderno, chique trips, eles chamam qualquer espetinho de "robata". aí o negócio é o seguinte, se é espetinho custa X, se é uma robata, custa 3X. simples assim. a carne é a mesma. o queijo coalho também. a lasca de abacaxi então. mas como resolveram chamar a porra do espetinho de robata, prepare-se para escancarar a carteira. vodkas que falam russo sem sotaque com guarda-chuvinhas e robatas. duas maneiras que algum dono de restaurante esperto inventou para aproximar você do cheque especial. antes de pedir qualquer coisa num restautarante da moda, novo, observe as mesas vizinhas. fique atento. notou qualquer comentário do tipo: "a senhora quer a sua caipiroska com vodka st petersburg ou vladvostock?" ou "robata de carne seca com pepino ou de lascas de gengibre com frango?-- fuja, corra e mande o gerente tomar no cu enquanto você arranca a sua carteira da mão do garçom. boa sorte.
taxistas são filósofos que conhecem bem a cidade em que vivem. taxistas sabem de futebol, absolutamente tudo sobre futebol, política, religião e economia. mais ou menos nessa ordem. dia desses peguei o maior filósofo de todos os tempos. uma mistura de filósofo com che guevara com dor nas bolas do saco. mas uma dor daquelas agudas e crônicas. e para ficar ainda mais caricato, o fêla tinha uma voz a lá cid moreira. bom, ao entrar no taxi ele já foi saudando: "bom dia senhor..." até ai, nada demais, tranquilo. foi a gente passar por um coitado, um sem teto, que dormia no chão para ele comentar: "esse aí vai liderar uma revolução. a revolução. e vai levar um tiro no peito e morrer sem saber o que o atingiu." coitado do sem teto, pensei. não sabia que estava prestes a liderar uma revolução que resultaria na sua iminente morte. segundos depois eu vi um prédio com a lateral toda grafitada. ele olhou para mim, pelo retrovisor e comentou: "tá vendo, você consegue ler o que está escrito lá?" e eu, balancei a cabeça negativamente. ele emendou: "ainda bem que você não consegue entender o que está escrito. se conseguisse, as massas também conseguiriam. e aí a revolução iria começar. mensagens seriam transmitidas. o povo sentiria colar na retina palavras de guerra, de ódio, de asco." levantei ambas sobrancelhas como quem diz, "pois é..." e ele, notando o meu desinteresse disse: "você conhece algum político que não é filhodaputa (assim junto mesmo)?" e eu: "hmmm, acho que não..." e ele: " se entrar no meu taxi um politicofilhodaputa, caga nas calças..." acho que ele quis dar a entender que ia foder com a cabeça do cara. pelo pára brisa já era possível ver o meu destino final, duas esquinas. ele colocou a seta e eu já fui catando duas notas de dez. pedi um recibo. nota fiscal. e foi aí que o che guevara olhou pra mim com babinha acumulada nos cantos da boca e disse: "você por acaso quer o recibo para me entregar? denunciar? avisar sobre a revolução, porque ela está por vir....!" e eu: "não, não, é só para receber o reembolso, eu estou indo para esse endereço a trabalho." ele limpou o suor da testa, me entregou o recibo e disse: "a trabalho? você trabalha para quem? os homens? pra algum políticofilhodaputa?" e eu, enquanto colocava o pé na calçada falei: "não, não. mas na boa, guarda o meu rosto, decora a minha cara. quando a revolução começar, alivia pá nói. nada de porrete nos meus córnios... na boa." e dei um gorda gorjeta pro che.
a quarta cerveja é o ponto que abre a porteira para a décima-quarta. a quarta cerveja é aquele ponto em que você decide que vai em frente. que não vai parar. até a terceira, você segura a onda. mas, quando você olha para o garçom e pede a quarta, com aquele gesto do dedo indicador apontando repetidamente para o céu, aí meu amigo, é melhor respirar fundo, se esparramar na cadeira, porque a noite vai ser longa. é, porque a quarta cerveja pega os seus neurônios nas canelas. a quarta cerveja escorre pela garganta como quem avisa: "olha galera, eu, se fosse vocês ia me preparando para aguentar mais umas três horinhas... o cara ligou o foda-se, chegou a conclusão que não precisa entregar nenhum trabalho amanhã e vai tomar mais algumas." a quarta cerveja também é mundialmente conhecida como a terceira caipirinha, a segunda tequila, a terceira dose de whisky. o ponto em que a parede da represa cede e não tem muito mais o que fazer sobre isso. pode notar, as pessoas não vai ficar apontando para você. mas, se você estiver numa mesa cercado de amigos, amigas, casais etc e tal... preste atenção nesse momento. quando você decide partir para a quarta cerveja. (é importante notar que não é o quarto chopp, o que é bem diferente. uma garrafa de cerveja enche quase dois copos de chopp.) bom, mas voltando ao momento em que o garçom rabiscou no bloquinho o seu pedido da quarta cerveja. é nesse instante que as pessoas da mesa vão olharpara o relógio, prender, mesmo que levemente a respiração, olhar para a mesa a sua frente e contar o número de long necks. esse momento é importante. o seu pedido pode gerar uma reação em cadeia. pode gerar uma onda de pedidos como num efeito dominó. maridos que até então bebericavam a terceira cerveja como se fosse água potável no deserto do sahara, vão seguir o seu exemplo. se libertar do racionamento. a quarta cerveja é um marco. um instante na história de toda mesa de bar que prolonga qualquer noite em mais ou menos umas três horas extras. da próxima vez que você for beber com amigos, preste atençaõ. conte as garrafas. mantenha uma boa relação como garçom que vai servi-la, porque, quando chegar o momento da quarta cerveja, você vai sentir no ar essa sensação, que, de alguma maneira, o botão do foda-se acaba de ser ligado. mesmo que temporariamente.
a melhor maneira de ver se a porra do aquecimento global existe mesmo, é passar uns dias no rio. não um dia qualquer, tem que ser durante a semana. e tem que ser a trabalho. não vale passar uns dias de bermuda bundando na praia. tem que meter uma calça jeans, uma camisa de botão e sapato. aí meu amigo, eu tenho a absoluta certeza que você vai entender o que as pessoas, os cientistas querem dizer com aquecimento global. duvido que um fela da pulta vai deixar de acreditar que existe o o aquecimento global depois de alguns dias aqui no rio. com as subácas jorrando suor e o desodorante vencendo, o babaca que ainda não acredita que a terra está derretendo vai mudar de idéia rapidinho. uns três dias, com um ar condicionado gago, daqueles que cospe esbaforadas de ar-frio em pequenas etapas. com a testa suada, as meias arriadas pela canela pois não agüentam mais o próprio peso. com a sensação escrota de que o sol está atrás de você lendo o que você digita no computador. acho, só acho que da próxima vez que entrarem numas de propor um tratado mundial desses para acabar com a emissão de gases, deveriam fazer a tal reunião aqui no rio. no verão. meados de janeiro. tipo um dia de hoje. ninguem, nenhum chefe de estado iria ter culhão para discutir mais do que dois minutos. todo mundo iria assinar no primeiro dia. unanimidade. alguns dias no rio. mas tem que ser a trabalho. não vale ficar bundando na praia.
existem taxistas bons e taxistas ruins. e não estou falando da habilidade no volante. mas de caráter mesmo. se você entrar num taxi de um fêla da pulta e não souber direito como ir da vila mariana para a sua casa se fodeu bonitchu. meu amigo, o cara pode ir até o aeroporto internacional de guarulhos, fazer o retorno e voltar. e você não vai ter a menor idéia de que ele acabou de meter a mão no seu bolso. eu me considero um coitado no trânsito. quase me perco para chegar em casa do trabalho as vezes. na minha cabeça tenho uns quatro caminhos decorados. se eu tiver que aprender um caminho novo, para o dentista por exemplo, minha memória apaga um antigo e substitui por esse novo. por isso, e por volta e meia me encontrar no banco de trás de taxis, tive que desenvolver uma habilidade: fingir que eu sei o caminho quando eu não sei. é simples. quase ingênua. mas se você um dia pegar um taxista fêla da pulta pode ajudar. bom, vamos lá. você está na casa do caralho. foi cair lá por causa de uma reunião. foi de taxi do trabalho porque não tinha a menor idéia de como chegar e agora, obviamente tem que voltar. depois de alguns segundos acenando o braço, um taxista pára. você entra e ele pergunta: "pra onde, chefia?" e é aí que está o segredo. o "chefia". aproveite o gancho e chame o taxista de chefia: "ô chefia, eu tô indo para o brooklin.." o cara já vai se sentir o fodalhão, respeitado. aí ele vai perguntar que caminho você quer fazer. aí, como se você conhecesse são paulo como ele, responde: "olha, quem sou eu para ensinar você um caminho. eu até poderia, mas vou deixar para o especialista... que tal ir pela... não, não, você é quem manda." o importante aí e a pausa no momento em que você ameaça dizer o nome de uma avenida. a pausa é fundamental. ele não pode sentir que é um blefe. aí, bom, aí é fechar os olhos e partir com a cara e com a coragem. e esperar que o fêla ache que você conhece são paulo como ele. "chefia!", "quem sou eu..." e a pausa. nessa ordem. funciona sempre. ou pelo menos parece que sim.
hoje, a caminho da firma enquanto pescava cds no chão no banco do carona, flagrei um sujeito limpando o salão. catando catota. libertando a verdinha. explorando os canais da narina. lustrando a escuridão do canal da mancha. com uma calma e uma delicadeza de quem achava que estava em casa. e não cercado de centenas de carros. se o fêla tivesse um carro com insulfim 100% preto, beleza. 90% preto, ok. 80% preto, veja bem. 70% preto, é, acho que aquele sujeito ali está tirando uma meleca. agora, o vidro do cara estava aberto. aberto. e ele não estava tirando uma lasquinha de meleca da ponta do nariz. estava escavando serra pelada na busca de uma pepita. uma pedra preciosa. e, como o trânsito não andava, o fêla continuava. meleca teimosa. trinta, quarenta, cinquenta segundos com o dedo indicador enterrado até a primeira falange. gira para a direita. gira para a esquerda e nada de liberar a catota. o sinal abre, e o sujeito finalmente tira o dedo lá de dentro. não, ele não come. mas dá uns petelecos como se jogasse a teimosinha para a vida. como se libertasse ela de vez: "vai, vai viver, explorar esse mundo, sua meleca. você está livre..." depois raspou a ponta do dedo na camisa. como quem limpa uma pá de cocô de cachorro depois de usada. os carros começaram a se mover com uma certa rapidez até. ele abraçou o volante com as duas mãos, abriu e fechou as narinas e partiu. o sujeito que tira catota no trânsito. num belo dia, preso entre um caminhão de lixo e um taxi, com um motoboy metralhando a buzina para passar, você vai encontrar o fêla. com o dedo nervoso. sem nenhuma vergonha. e sem insulfilm. ele caga para as convenções da sociedade. o que importa é o salão limpo, lustrado, brilhando. só fique esperto para ele não petelecar uma na sua direção.
- todo avião que eu pego tem sempre o mesmo cardápio de duas linhas: "chicken or pasta?" ou "pasta or chicken?"
- quem é o filho da puta que não consegue acertar o vaso sanitário do avião ao mijar?
- ninguém mais olha para os comissários de bordo quando eles fazem os sinais de emergência antes do avião decolar. todo mundo caga para o colete, o oxigênio, as saídas de emergência. caga. baldes. deveriam usar aquelas cheerleaders peitudas de futebol americano para fazer a mesma apresentação.
- pegar uma viagem de 9 horas sem fone de ouvido para escutar o filme é pior do que sentar na poltrona do meio entre os dois caras mais gordos do mundo.
- uma taça de vinho mais ou menos custa 5 dólares na united. 5 doletas. sobrevoando o acre, com o sinal de apertar os cintos piscando, não dá para levantar, mandar a aeromoça à merda e comprar um vinho mais em conta na lojinha da esquina.
- quando o avião estava no ponto mais perto do sol, lá pelas 5 da manhã, uma mulher sentada na janela, abriu a caráia da janela. cegou uns sete passageiros. dependendo do ângulo que eu olho, não enxergo picas.
- o piloto do meu avião descrevia em tempo real as manobras que ele fazia: "agora eu estou levando o avião para 17.000 pés. 17.500, 17.490, 17.328... estamos sobrevoando o oceano atlântico e logo logo, estaremos passando sobre a ilha da casa do cacete..." real time. detalhe: toda hora que ele falava, um dispositivo interrompia o filme do monitor.
- a mulher do meu lado roncava.
- o tiozinho do outro lado tinha um puta chulé.
- acho, que deveria existir uma lei para essas ocasiões. "no caso do passageiro sentar ao lado de uma pessoa que ronca, bufa feio ou tem chulé, o passageiro em questão terá suas milhas creditadas em dobro no programa de milhagem." simples assim.
"em caso de reincidência, o passageiro pode exigir duas passagens de primeira classse para qualquer lugar."
- o filho da puta que se fizer de sonso e levar uma mala gigante para dentro avião e passar meia hora atrasando 200 passageiros tentando socar a mala no compartimento superior, deveria ser preso. uma semaninha só pra ficar esperto.
- o que leva um sujeito ficar em pé atrás do carrinho de comida durante os 45 minutos que está sendo servido o jantar? depois de uns 3 minutos acho que já dá para sacar que é impossível chegar ao toillete sem empurrar o carrinho junto.
- quem é que compra um conjunto de tacos de golf às 3 da manhã no carrinho de free shop que passa pelos corredores apagados do avião?
- como é que se cozinha 200 ovos mexidos numa cozinha menor do que o fogão que você tem em casa?
- "17.208... 17.100... 17078..."
- "chicken or pasta?"
nada contra a previsao do tempo. as vezes, quando os caras acertam, ate ajuda. mas aquela putaria de "chances de chuva no final da tarde", "maxima de 29, minina de 19"... nao fodi. vai tirar o cu da reta assim na casa do caraio. raramente esses caras arriscam algo mais especifico. a mocinha do tempo sempre aponta para uma parte gigante do mapa dizendo que ali, naquele espaco talvez, apenas talvez, dependendo da frente fria, pode ter chuvas esparsas. tai outra palavra bem fela da puta... "esparsas". chuvas esparsas e uma maneira que inventaram para tambem tirar o cu da reta. nao e nem aqui, nem ali. ou pode ser aqui e ali ao mesmo tempo. no brasil, a mocinha do tempo geralmente arrisca uns tres dias. o que, ca entre nos, ja e um chute memoravel. se ela nao consegue prever direito um dia, imagine tres de uma so vez. bom, dia desses assistindo o jornal das dez aqui nos estados unidos vi um negocio incrivel e de uma coragem impressionante. o carinha do tempo deu a previsao de sete dias. isso mesmo. o fela da pulta nao arriscou um dia. nao. nao chutou tres dias. nao. tambem nao se contentou em dar a previsao de cinco dias. o cara simplesmente, munido de mapas, graficos e uma senhora cara de pau, deu a previsao de uma semana inteira. imagine voce numa segunda feira, sabendo que caraio de tempo vai dar na outra segunda feira. impressionante. e o mais interessante e que o ancora sentado ao lado dele, assim como o comentarista esportivo franziam os olhos como se aquilo tudo fizesse o maior sentido. como se aquele nostradamus do tempo estivesse realmente prevendo cada gota ou floco de neve que cairia dos ceus nos proximos sete dias. se o cara acertou? acertou. mas tambe e claro que acertou, o fela tambem usa o mesmo linguajar cafajeste da mocinha do jornal nacional: "chances de neve entre 5 e 11 da noite.", "nuvens esparsas entre essa area do mapa e essa outra aqui.", "minima de 32 farenheit, maxima de 59..." ou seja, parece corajoso, mas tambem tira o dele da reta. qualquer coisa que acontecer esta de alguma maneira coberta pelas palavras vagas dele. bom, no dia que a farsa for descoberta, mandam ele para o olho da rua. ai, ele arruma um emprego escrevendo o horoscopo.
existem duas maneiras de se sentir magro: estando magro e estando cercado de nao-magros. a segunda e mais facil. muito mais facil. a primeira requer atividade fisica, dieta balanceada. a segunda, apenas um senso de localizacao. basta voce procurar o lugar com uma concentracao maior de pessoas acima do peso. no interior dos estados unidos eu encontrei uma porcao. muitos. pessoas gigantes, vertical e horizontalmente falando. andando num shopping num sabado a tarde, e como se voce tivesse emagrecido uns trinta quilos enquanto dormia na noite anterior. ninguem fica apontando para voce "olha que sujeito magro!". nao, mas fica claro que suas arterias estao menos entupidas que a da maioria das pessoas. nao me entenda errado, o pessoal e simpatico, receptivo, so e maior, gigante. o tamanho "p" equivale ao "g" do brasil, por exemplo. se voce for com muita sede a uma promocao de uma loja de roupas e comprar uma camiseta "p" sem experimentar, por exemplo, vai se foder. a camisa vai bater no seu joelho. como eu disse, o pessoal e gigante. cafe com leite pequeno e, qual e a palavra mesmo... gigante. o hamburguer testa os limites dos cantos da sua boca. "um spaghetti pomoddoro, por favor!" e, minutos depois, voce olha para o prato com a estranha sensacao que voce nao vai conseguir ver o fundo dele. tudo e gigante, grande, enorme. sorvete pequeno? nao. a batata frita que vem com o prato, nao vem no canto do prato. vem num prato separado. a mulher que serve a comida faz sombra na mesa. a colher do sorvete "pequeno" e do tamanho da mao de uma crianca. fatias de bolos, sao bolos inteiros. calcas de moletom quase uniformes. o que, se voce pensar, quando se esta de ferias, e muito interessante. afinal, por alguns dias, voce pode comer para cacete, olhar ao seu redor e se sentir o sujeito mais magro do mundo. existem duas maneiras de se sentir magro: estando magro e estando cercado de nao magros.
esse blógui vai entrar de férias junto com o sujeito que escreve ele até janeiro.
sabe quando você sai pela rua meio assim com pressa e, encontra no seu caminho uma outra pessoa, igualmente com pressa? bom, e é aí que fodi. para não colidir com a pessoa, você tem que escolher um lado. desvio para a direita? desvio para a esquerda? e, enquanto você pensa isso, o sujeito que vem na sua direção está pensando a mesma coisa: "desvio para a direita? desvio para a esquerda?" as chances de colisão são grandes. enormes. eu sempre me fodo. bato de frente, trinco uma lasca do dente. pessoas que você não tem assim tanta certeza se vão virar para a direita ou para esquerda são uma ameaça ao bem-estar da nação. eu não sei porque, mas por algum motivo eu sempre ameaço ir para a direita, o fêla da pulta também, aí eu faço um desvio brusco para a esquerda, e o cara, bom, o cara também. as vezes existe a chance de mais uma desviada. uma só. mas essa terceira chance é rara. muito rara. a colisão é certa e dolorida. hoje, por exemplo a caminho do elevador, estava lá eu com uma certa pressa. um olho no chão, outro na minha reta atento para essas quase colisões. de longe vi um tiozinho marchando na minha direção. o filho da pulta me olhou no olho como que diz, "não vou desviar nem a caráio." também mantive a mesma direção. ele não titubeou. em cima da hora, desviei para a direita e o cagão também. esquerda. direita. esquerda. colisão. pessoas que você não tem assim tanta certeza se vão virar para a direita ou para a esquerda. fique esperto. tome cuidado. uma hora, um desses pode aparecer no seu caminho.
se você acredita nessas coisas de céu e inferno e quiser ter uma idéia do que te espera se você não se comportar e for uma mau menino, pegue o seu carro e vá ao shopping. qualquer um. qualquer dia da semana. entre hoje e o domingo dia 24. é impressionante. o inferno está localizado entre o andar das violetas e o das margaridas. é, só de putaria, estacionamentos de shopping têm esses nomes alegres para identificar os andares da garagem. mas o que acontece lá é o contrário. não tem nada de margarida ou violeta. você fica puto, bem puto. demora em média uns 37 minutos para achar uma vaga. e, quando acha, tem que disputar ela com um sujeito que aparenta estar armado. bom, aí você conseguiu a vaga, então acabou o inferno? pourra nenhuma. você se fodeu. meu amigo, olhe ao redor, você parou longe, bem longe de tudo. o elevador é na casa do cacete, a escada rolante então. você já entra no shopping puto. se tiver acompanhado da mulher ou dos filhos, as chances de brigar com eles são grandes. bem grandes. e, se você não brigar, não vai trocar uma só palavra na tarde de compras de natal. pode notar, em época de natal, todo mundo está puto no shopping. maridos chutando o chão. crianças chorando, mulheres tensas. tudo culpa do estacionamento. não sei se existem essas estatísticas, mas o índice de divórcio durante o natal deve aumentar consideravelmente. fico imaginando o juiz recebendo a papelada. "motivo do divórcio: estacionamento de shopping durante o natal." o juiz não vem nem titubear. vai lembrar da última vez que ele arriscou fazer compras num shopping nessa época e vai passar a caneta concedendo a pourra do divóricio. casais deveriam pedir indenizações para os shoppings. os shoppings deveriam ter um fundo reservado especialmente para banca a terapia das pessoas que se fodem procurando uma vaga. é foda meu amigo. evite, a todo custo. a não ser é claro, que você é curioso e quer porque quer saber como é o tal do inferno. aí você vai lá.
cavalos (1)
dois cavalos conversam antes do páreo começar no jockey. eles estão lado a lado.
- e aí, tudo bem?
- mais ou menos.
- o que aconteceu?
- dor... tô com uma dor nas costas...
- é o jockey que está aí em cima de você.
- caramba, como eu sou burro. é verdade, eu tinha esquecido.
cavalos (2)
dois cavalos conversam antes do páreo começar no jockey. eles estão lado a lado.
- você deixa eu ganhar essa?
- beleza.
cavalos (3)
um cavalo mais velho fala com o filho, um potrinho.
- meu filho, o que você quer ser quando crescer?
- reprodutor.
cavalos (4)
duas éguas conversam:
- ai a-mi-ga
- fala sua égua lin-da!
- você tem que ver as ferraduras que o fazendeiro colocou em mim.
- ma-ra-vi-lho-sas.
cavalos (5)
cavalo mais velho conversa com um potrinho:
- meu filho, ou você se comporta, ou quando morrer, você vai para um lugar lá cheio de jockeys e cowboys com botas com esporas.
cavalo (6)
um casal de cavalos sai para namorar.
- (cavalo garçom) e o que a senhora égua vai querer de entrada?
- hmmm, alfafa.
- (garçom) e você, senhor cavalo?
- alfafa.
- (graçom) e de prato principal?
- acho que a gente vai...deixa eu ver... acho que a gente vai experimentar essa alfafa.
- (garçom) excelente pedida.
minutos depois. o garçom volta.
- e de sobremesa, para a madame?
- é, vou querer um pouco de alfafa. mas só um pouquinho.
- (garçom) e o senhor?
- acho que eu vou acompanhar ela, alfafa.
dia desses vi na tv o miss universo. ganhou a da república dominicana. quase bonita. cheia de dentes. a brasileira ficou entre as dez. o que eu achei estranho foram os jurados que os caras escolheram pra votar. um casal bem esquisitinho de uma novela mexicana. uma modelo daquelas que se te falassem que é modelo, você não saberia dizer que era. uma ex-miss que se tocasse o interfone e o porteiro perguntasse se a fêla podia subir, você mandaria ele a merda. um maquiador com um jeitão suspeitíssimo. e um apresentador de programa de auditório colombiano. caráio. não dá pra sair resultado justo daí. como é que esses caras são capazes de escolher uma gostosa. uma mulher cujo rosto ira adornar as fantasias da molecada. não fódi. na minha sincera opinião, o jurí tinha que ser outro. tinha que ter pelo menos cinco adolescentes. espinhentos e com os hormônios em ebulição. um deles com a mão peluda. três véios safados, aqueles bem sacanas de banco de praça. e uns dois pedreiros de obra. vestidos a carater. com a cara suja de cal e com aquele assobio de arrancar sangue dos tímpanos das secretárias que passam na frente das obras. gente que ganha a vida observando, babando e secando a mulherada. no dia que eles fizerem um concurso com jurados assim, a miss universo não precisará usar coroa pra ser reconhecida na rua. vai ter que estar em forma pra correr com aquela coroa socada debaixo do braço. aí sim meu amigo, essa miss vai ser gostosa.
gin tem cheiro de porre. vodka tem fama de cabeça na calçada. uísque tem jeitão de quem vai acordar com dois dedos de olheiras e os olhos com aquele emaranhado de veias. cerveja, por natureza, gera repetição, repetição, repetição, o que indiretamente, só pela quantidade de garrafas alinhadas na mesa, pode-se prever um porre. ou uma leve dor de cabeça. cachaça, bem, cachaça é feito da mesma matéria-prima que movimenta os carros flex fuel. agora, o saquê, o saquê é traiçoeiro. aparentemente inofensivo. pra começar, o bicho é feito de arroz. é associado com sushi, peixe cru. saquê vem naquelas garrafas gorduchas e é servido em copos quadrados decorados com sal. e alí, no meio daquele ritual, você se engana, acha que o bicho é inofensivo. toma um, toma dois, toma três. toma quatro. mais uma garrafa, por favor. e quando você vê, sua língua está enrolada, num nó quase cego. você jura que está ok. mas não está. vai ceder gentilmente as chaves do carro para a sua mulher e procurar falar menos ou quase nada. o saquê é traiçoeiro. ainda mais traiçoeiro é o saquê combinado com frutas. ah, quando você combina o saquê com frutas o efeito é potencializado. você acaba bebendo mais. três, quatro, "tem certeza que eu bebi sete?" e aí, chega a conta e você acha que deixou cair uma lente de contato no chão. ou, em muitos casos, chega em casa, e, pilhado, coloca um dvd (desses de seriados) para assistir. quatro horas depois, com a tv chiando e as lentes de contato grudando, você levanta no susto do sofá e pensa: "caráio, saquê é traiçoeiro."