terça-feira, setembro 15, 2009

a máquina

casal. após o primeiro encontro, na casa dela.
ela inicia a conversa:

- café com ou sem açucar?
- com.

ela sai, vai até a cozinha e volta com dois cafés. um para ela. outro para ele.

- pronto, aqui está.
ele olha para ela, em seguida para o café, dá um gole, fecha os olhos e diz:
- que delícia esse café. o sabor encorpado... é um café como nunca tomei em toda minha vida.
- que bom que você...
- (interrompe) mas é mesmo delicioso. que café gostoso.
- mas, é... ok, que bom você gostou...
- (interrompe ela novamente) ... é um negócio inexplicável. que café especial. o aroma. a textura. o sabor. nossa!!! é demais! é, uma coisa... pelo amor de deus... que café é esse... meu deus... que café... que lindo... a natureza é mesmo sábia...

ela coloca o café sobre a mesa, olha para o chão e em seguida para ele-- e diz:
- quando você disse que aceitava subir para tomar um café aqui no meu apartamento, achava que eu estava convidando você para a minha cama-- não é?
- mas é claro. então quer dizer que você me convidou para tomar um café, estava mesmo me convidando para tomar um café?
-sim, café. claro.
- mas... mas... mas desde quando "café" deixou de ser um código, um convite para ir para a cama das pessoas após um encontro?
- desde que eu paguei quase três mil reais numa máquina da nespresso.

quinta-feira, setembro 10, 2009

as primeiras colunas do destak. 3

O primeiro pastel de nata, a primeira coluna, uma sugestão e um pedido.

(essa só saiu no porto, pois era feriado em lisboa. por isso, diz ser a "primeira" também no título.)

Na vida, todas as pessoas costumam lembrar três coisas. Três momentos. Nesta ordem de importância: o primeiro beijo, o primeiro grande amor e o primeiro episódio da Guerra das Estrelas. Mas isso, é claro, até você aterrar em Lisboa e comer o seu primeiro pastel de nata. Se você é natural de Portugal, cresceu a comer pastéis de nata. Ou seja, pode até apreciar com carinho o pastel, mas provavelmente desconhece o impacto devastador que ele tem nas papilas gustativas dos turistas. O paladar estrangeiro não foi criado à base deste doce. Desta explosão de sabores feita de creme e ovos. Não. Já ouviu falar. Já leu sobre o tal pastel num guia. Mas é colocá-lo na boca para entrar num transe quase permanente. E não adianta levar a receita para tentar fazer igual no país de origem. No Brasil, por exemplo, pastéis de nata são bons, ok, mas nunca iguais. Os portugueses não revelaram a receita inteira. Escondem. Guardam. Juram segredo eterno. Eu faria o mesmo. Todo o português ao completar dezoito anos de idade, comparece ao tribunal de justiça mais próximo da sua casa e jura perante as bandeiras de Portugal e de Belém: "Eu, _______, prometo não revelar a receita dos pastéis de nata, sob a pena de ser preso por não mais de 25 anos." Resolvi aproveitar esta primeira coluna para deixar uma sugestão e fazer um pedido. Nesta ordem. A sugestão: você acaba de chegar a Lisboa? Deixe para comer o pastel na véspera de ir embora ou você não vai comer outra coisa. O pedido: Você é de Lisboa? Qual é a receita?

as primeiras colunas do destak. 2

A chegada, o taxista , o Cristiano Ronaldo e a primeira coluna.

O avião aterra. Mala. Mala. Passaporte. Carimbo. Um, dois, três minutos na fila do táxi e chega a minha vez. E, é só chegar o táxi para descobrir uma coisa, que você só entende quando gagueja para o taxista um endereço que não existe. Os taxistas em Lisboa não sorriem com facilidade. Não são mal humorados. Não me entenda errado. Eles são sérios. E foi já nesse meu primeiro taxi ao chegar a Lisboa que aprendi um truque. Um truque que deveria ser ensinado em escolas de turismo e repetido pelas caixas de som do avião pela hospedeira antes do avião pousar. Um truque simples. Repita comigo: "E o Cristiano Ronaldo, hein, caro taxista!?" Assim com a exclamação e a interrogação. Você entra no taxi, erra o endereço, a pronúncia ou os dois. O taxista fulmina-o pelo retrovisor. Aí, bem, aí você abre um sorriso e, de um jeito humilde fala, no formato de pergunta: "E o Cristiano Ronaldo, hein, caro taxista!?" Você conquista o cara. Ele responde com orgulho. Mostra dentes, mostra pontos turísticos pela janela. E fala do Ronaldo quando ainda jogava no Sporting. Fala como ele está a conquistar o mundo. Você é tratado como um rei. Vá por mim. É um truque simples e que funciona sempre. Mas não custa praticar um bocadinho. Você deve perguntar com um tom que indique que você quer a opinião do taxista sobre o Cristiano Ronaldo, e ao mesmo tempo deve deixar claro que está ciente que se trata de um génio ímpar do futebol. Bom, esse foi meu primeiro dia em Lisboa. O primeiro taxi. A primeira coluna no Destak

as primeiras colunas do destak. 1

O Eléctrico 28 e o Michael J. Fox.

Viajar para o espaço: 20 milhões de Euros. Viajar no tempo: 1,30 Euros. Explico. Um dia destes, com um guia na mão e um mapa mal dobrado no bolso lá estava eu a planear os pontos turísticos que iria visitar. Era um Domingo. Melhor, era um Domingo de sol. Melhor ainda, era um Domingo de sol sem nuvens no céu. Bom, e enquanto os meus dedos vagueavam pelas páginas do guia, vi crescer no horizonte o eléctrico 28. O que no Brasil chamamos de bondinho. Sem saber, estava a dois passos do ponto de partida do 28E. Em Campo de Ourique. Sentei à janela. com o dedo indicador nervoso agarrado no botão de disparo da câmara. Uma viagem no tempo. Cada curva. Cada subida. Cada descida. Tudo cheira a mil oitocentos e tra lá lá. Senti-me na pele do Michael J. Fox. O eléctrico 28 é uma espécie de Delorean, aquele carro que carregava o actor pelo tempo nos filmes. O motorista acelera e quando o eléctrico consegue vencer a lombada da subida, pimba, você está numa parte mais moderna da cidade. Ele faz uma curva e você se vê de frente para uma ruela que não se encontra em nenhum guia. Chega um ponto e turistas entram. Quase nenhum sai. E todos partem juntos para o final apoteótico. Como nos filmes protagonizados pelo Michael J. Fox. O motorista pisa fundo. Acelera até atingir o ponto que permite a derradeira e emocionante viagem no tempo. Num piscar de olhos você deixa a cidade e chega a Alfama. Chega à porta do Castelo. E assim como no cinema, você sai a coçar a cabeça e pensar: "tenho que ver esse negócio mais uma vez."

terça-feira, setembro 08, 2009

os erros dele.


ele chegou tarde em casa.
chegou cheirando a cigarro.
chegou com bafo de cerveja e vodca.
duas bebidas, que quando misturadas por ele-- causavam estragos.

ela então colou as narinas na nuca dele. ou melhor naquele espaço atrás do ouvido.
entre o cabelo e as costas do ouvido e respirou fundo.
sim, ele ainda tinha cheiro de sabonete palmolive.
o palmolive era a prova que ela precisava.
ele não precisava dizer que amava ela. ou inventar desculpas.
cheiro de palmolive verde provava que não havia acontecido qualquer transferência de aroma.

ela sabia, que qualquer contato com uma outra mulher. qualquer rala e rola e aqueles traços de palmolive já não estariam lá.

até porque-- foi assim que eles se conheceram.

a imaginação deles.

lá fora-- o condomínio inteiro a espera dela para ver ela de biquini.
todos os meninos que a idolatravam com a roupa da aula de educação física.
e todas as meninas que a invejavam com a roupa da aula de educação física.
(mais cedo, quando ainda era dia-- ela entrou correndo, quando todos prestavam atenção no salto acrobático do filipe-- e por lá ficou.)

enquanto você lê isto aqui-- ela continua lá. dentro d'água.
ela, a reputação dela e muito mais importante: a imaginação de uns oito moleques do prédio dela.

a crise e as fotos.

"sorria!'-- disse ela.
"nem fudendo, acabei de perder mais 120.000 reais na bolsa!"-- disse ele.

segunda-feira, setembro 07, 2009

a camiseta... esgotada

* eram 12 no total.
4 foram dadas para quem ajudou a fazer.
vendemos 8.

valeu!

agora é esperar o véio, também conhecido como renato, desenhar outras.

sexta-feira, setembro 04, 2009

a camiseta.

o véio, também conhecido como renato lopes, além de meu dupla aqui na leo-- é um ilustrador fucking fuckers. esse novo header aí em cima é autoria dele.
bom, e o véio além de ter sido bem gente fina para criar o cabeçalho novo-- fez-- junto com o jr e o franca aqui da agência, umas camisetas do bigode molhado.

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100% algodão. disponível nos tamanhos P/M/G.

modelo masculino e feminino.

o preço: 15 Euros + postagem.

para encomendar a sua, escreva para o email: erickdois@yahoo.com.br




quinta-feira, setembro 03, 2009

inga & arthur


eles se conheceram num chat num site de encontros na internet.

na primeira vez que se falaram online-- ele entrou e disse que tinha um metro e oitenta, um físico em forma, falava três línguas, trabalhava em um banco de investimentos e era artista plástico nas horas vagas. johan, disse ele ser o seu nome. descentende de alemães por parte de pai. e canadense por parte de mãe.

ela disse que tinha um metro e cinquenta e dois, estava acima do peso, trabalhava num call center, ainda não tinha tirado o diploma do curso intensivo de inglês mas que estava a caminho. acrescentou ainda que apreciava ir ao cinema, principalmente comédias românticas com a sandra bullock. disse que seu nome era maria.

depois de meses online, marcaram um encontro.

ele, descobriu que ela era uma mulher de quase um metro e oitenta, com cabelos castanhos lisos e longos.com o corpo perfeito e com seios quase fartos, enfim, linda. falava com um leve sotaque dinamarquês-- pois a dinamarca era a sua terra natal. e que o nome dela era inga.

ela, descobriu que ele tinha um metro e sessenta exatos. estava um pouco acima do peso. era um pouco calvo e no momento trabalhava numa oficina mecânica especializada em tunning de carros. e que o nome dele era arthur, como na história do rei.

ele descobriu que ela havia mentido para afastar pessoas interessadas apenas na aparência física dela. problema que sempre atrapalhou sua vida amorosa. e ela descobriu que ele havia mentido porque era inseguro sobre a sua aparência física. problema que sempre atrapalhou a sua vida amorosa.

ela descobriu que estava apaixonada pelo homem que achava que estava apaixonado pela gordinha baixinha do call center fã da sandra bullock-- e viveram felizes para sempre.

terça-feira, setembro 01, 2009

coisas de casais.

casal mais velho conversa. ela tem 62 e ele 69. ela larga o corpo sobre o sofá e puxa uma conversa:
- plínio?
- diz.
- você sabe que eu tenho um amante, não sabe?
- sim. sei.
- e porque não faz nada sobre isso?
- ana, você sabe, não sabe-- que eu também tenho uma amante?

- sei.
- [silêncio]
- você não tem curiosidade para saber porque eu nunca deixei você sabendo que você tem uma amante, e por eu também ter um amante?
- o meu penne all 'arrabbiata.
- e porque você nunca me deixou, já que você tem uma amante e eu...
- ninguém sabe aparar os cabelos da minha orelha como você.
-[silêncio]
-[silêncio]
-[silêncio]
- tá com fome?

o filtro solar.


ele contou para a mulher que estava numa reunião de negócios.
o filtro solar fator 60 que ele comprou no free-shop, também.

o identificador de chamadas.

ela não tirava o olho do identificador de chamadas do telefone da sala de casa.
foi pela sala que ela chegou e pela sala ela ficou as próximas vinte e sete horas. ela e o telefone.
ao seu lado uma sacola de compras da c&a ainda com todas as roupas dentro.
a sua frente, além do telefone, uma garrafa de martini bianco e um copo desses que vem de brinde ao comprar a garrafa-- cheio.
o sexto cigarro queimava na direção do indicador e do dedo médio dela quando o telefone tocou. pelo identificador ela viu que era o seu pai. não era ele. a pessoa que ela havia conhecido no bar, no happy hour do dia anterior. o identificador de chamadas não mente. disso ela tinha certeza. e foi ali, ao lado do telefone que ela acordou na manhã seguinte. com a mesma roupa do dia anterior, um maço vazio e um gosto de nada na boca. quando o relógio marcou oito, ela levantou-se e foi para o trabalho.

ela não contava para ninguém, mas estava viciada no identificador de chamadas. é, não era a voz do outro lado que ela aguardava ansiosa. mas a luz azul piscante com o número de alguém que ela havia conhecido recentemente. a luz piscante com número do pai, do irmão, essa não tinha graça. mas a luz piscante com número de um sujeito que ela conheceu em algum lugar e ela-- mesmo se fazendo de difícil, conseguiu que o cara ligasse-- isso deixava ela completamente louca. ela também nunca contou para ninguém que a razão pela qual seus relacionamentos eram breves, era exatamente essa. o identificador de chamadas. quando um sujeito se transformava em namorado, o número estava decorado, e ansiedade e emoção do indentificador de chamadas se diluia.

hoje um pessoal do trabalho convidou ela para sair. ela disse que tinha um compromisso. passou no mercado, comprou milho para pipoca. fez a pipoca, vestiu algo confortável e passou a noite assistindo a luz do identificador de chamada piscando. as vezes com emoção. as vezes não. o seu programa favorito.

quinta-feira, agosto 27, 2009

a madeleine peyroux


- pequena? o que é que você sente por mim?
- carinho.
- amor?
- não, carinho.
- mas você não me ama?
- carinho, sinto carinho por você.
- mas amor, daqueles de filme, tórrido, de último capítulo de novela, paixão... não?
- isso não.
- mas...
- carinho é melhor.
- como assim?
- paixão é inflamável, finito, poderia ser medida em mililitros, centímetros cúbicos.
- e carinho?
- carinho é atemporal. sobrevive calendários, distância, a falta de dinheiro, idade, sobrevive tudo. carinho é ingenuo e sincero.
- paixão não?
- paixão é sexo no elevador, mordida desmedida e briga escandalosa de ciúmes de algo que não faz sentido. carinho é sexo numa quarta-feira chuvosa de férias com meia garrafa de vinho ainda por tomar na cabeceira da cama e-- madeleine peyroux tocando no som do quarto-- baixinho.
- madeleine peyroux?
- madeleine peyroux.
- cantando a versão dela de "river" da joni mitchell?
- pode ser.

de pai para filho.


o pai se aproxima do filho de 16 anos, coloca a mão no ombro dele e inicia uma conversa.
- filho?
- oi pai.
- eu queria dividir uma coisa com você...
- claro.
- um segredo. uma lição. o segredo da felicidade.
- o segredo da felicidade?
- algo que o meu pai contou para mim quando eu tinha a sua idade. e o seu bisavó contou para ele quando ele...
- ...tinha a minha idade.
- isso.
- é algo que você deverá guardar para sempre e contar para o seu filho quando ele tiver a sua idade. e fazer ele prometer que terá a mesma conversa com o filho dele... quando chegar a hora.
- por favor pai. me conte.
- essa sabedoria pode mudar muita coisa na sua vida. é a chave da felicidade. a chave.
- por favor...
- ok...
- (ele respira fundo, aperta o ombro do filho enquanto começa a falar, solta o ar e começa) nunca fale para uma mulher que ela está gorda quando ela perguntar para você. seja forte. resista a tentação de ser sincero, se este for o caso, se a mulher que perguntar-- estiver 5, 10, 15 kilos acima do peso, não dê um pio. sorria e diga que não. se ela estiver 500 gramas acima do peso, resista comentários. qualquer um. mas treine isso na frente do espelho. treine a partir de hoje. você precisa parecer sincero. precisa parecer humano. se você não treinar, ela nota.
- quem?
- todas elas. treine. treine. treine. nunca, nunca fale para uma mulher que ela está gorda.
- mas... mas... esse é o segredo?
- esse é o segredo. pode parecer pouco. pode parecer uma bosta. mas vá por mim. essa pergunta será repetida milhares de vezes na sua vida adulta. e um dia, o cérebro cede e finalmente diz o que pensa.
- e...
- e aí meu filho, a sua vida nunca mais será a mesma.
- [silêncio]
- [silêncio]
- obrigado pai.
- de nada.

ferris.

ela tirou a bateria do laptop.
cancelou a conta no twitter, no blogger e no facebook.
colocou um daqueles avisos automáticos no email "estou de férias..."
desligou o celular.
disse para a família que iria para a neve. foi para a praia.
comprou um filtro solar 45.
todos os 37 livros que sempre quis ler na vida mas nunca teve tempo.
tatuou uma frase em latim no braço esquerdo que não sabia o significado, mas esteticamente, achava linda.

e pensar que ela devia tudo ao matthew broderick.

sim, porque um dia-- na sessão da tarde, enquanto almoçava-- ela, acidentalmente assistiu pela primeira vez o filme "ferris bueller's day off".

naquele dia, ela não voltou para o trabalho, como costumava fazer sempre após o almoço-- tirou a bateria do laptop, cancelou a conta no twitter, no blogger e no facebook...

19:28

ele entra no taxi correndo-- com uma valise preta em uma das mãos e grita para o taxista:
- senhor! siga aquele trânsito!!

quarta-feira, agosto 26, 2009

rsvp

ela atende o celular depois do quinto toque. do outro lado da linha, uma voz nervosa:
- patrícia?
- pedro? oi. diz...
- você não deveria estar na igreja agora? ao meu lado?!
- como?
- é hoje! agora!! o seu casamento!!! o nosso casamento!!!!
- [silêncio]
- a igreja está lotada!! e a recepção?! os meus avós, vieram da polônia, cacete!!!
- [silêncio]
- patrícia!!!?
- eu não r.s.v.p.
- como?!
- paixão, não tinha um número de telemóvel para ligar-- no verso do convite-- e confirmar a presença?!!
- oi?!
- aquele número daquela mulher que ajudou a organizar o casamento, que as pessoas tinham que ligar para confirmar que estariam presente. sabe? e que ajudaria a contabilizar a comida, a bebida...
- e?
- não liguei. não r.s.v.p.

terça-feira, agosto 25, 2009

ana & astolfo



terceira série. 1990 e tal. a professora, com um caderno pautado em uma das mãos, grita enquanto dá mordidas pequenas em um bolo ana maria.

- ana?
- presente!!
- antônio?
- presente!!
- astolfo?
- presente!!!

e, para o resto da vida, astolfo sofreria uma dor indescritível. e para sempre-- culparia-- a ordem alfabética-- por colocar entre ele a sua amada ana, o filho da puta do antônio.

e mesmo anos depois, décadas-- sempre que alguém perguntava se ele estava namorando, ou pelo menos interessado em alguém-- ele sempre gritava bem baixinho, aquele grito contido que acompanha sempre uma batida na mesa com o punho fechado: "ordem alfabética filha da puta!"

2.


e no segundo aniversário de casamento deles-- a crise transformou a promessa de um anel de brilhantes em um bolo cravejado com m&m's.

quinta-feira, agosto 20, 2009

escovas.

eles nunca se casaram na igreja.
eles nunca se casaram no cartório.
ele nunca comprou uma aliança.
ela nunca pediu uma.

um dia, ele comprou duas escovas de dente e um copo quase translúcido.
colocou sobre a pia, acrescentou um tubo de pasta de dente.

e viveram felizes para sempre.

o pé direito alto.

ela casou com ele porque ele era mais alto do que a média.
um dia a luz da sala queimou. ela pediu para ele trocar.
ele não alcançou sem a ajuda de um banco.
a partir daquele dia, ela passou a olhar para ele com menos paixão, menos admiração até.

tudo culpa do pé direito alto.

termina essa porra.


- mas quando você diz que ela é gostosa, você não está exagerando?
- não, ela tem o corpo perfeito.
- muito gostosa?
- eu acho que vou terminar o namoro.
- mas vocês começaram semana passada.
- mas ela é muito gostosa.
- [silêncio]
- tem as pernas mais longas e a barriga mais linda que eu já vi na minha vida.
- mas porque então você vai acabar com ela?
- [silêncio]
- [silêncio]
- não sei se serei capaz de lidar com a sensação--
- que sensação?
- a pior de todas.
- qual?
- a do dia que eu ligar para o telefone dela, ela não atender e entrar na caixa postal.

- mas ela é tão gostosa assim?
- muito.
- termina essa porra.

o contrato e a cláusula 7.

quando ela era pequena, sempre passava na sessão da tarde o filme "a noviça rebelde".
e quando ela já não era pequena, sempre lembrava da cena clássica da julie andrews a correr pelo campo.

mas o que é que isso tem a ver com um contrato e uma cláusula? a cláusula 7. tudo.
certa vez, ao negociar um dos maiores (o maior) contratos de sua carreira profissional, ela negociou tudo. bônus, férias, motorista. um valor que até então nunca havia sido pago para uma pessoa com a idade dela. cada ponto do contrato, uma cláusula rubricada por ela, o diretor da empresa e dois advogados. ao final da negociação e do acerto, ela resolveu, através do seu advogado, incluir uma cláusula. a de número 7.


7.
"quero, uma vez por ano, na primavera, uma tarde livre para correr num espaço descampado. espaço que obrigatoriamente lembre o que foi utilizado como locação no filme 'a noviça rebelde'. todas as reuniões e eventos corporativos deverão ser marcados ao redor deste evento, neste dia de primavera. obrigada."

as canelas dela

ele não conseguia parar de pensar nas canelas dela.
lisas, longas, lindas. as canelas dela mudavam o humor dele.
sempre para melhor, é claro.
um dia ela perguntou para ele: "que parte do meu corpo você gosta mais?"
e ele, educadamente respondeu: "as canelas. amo suas canelas."
ele fez a mesma pergunta e a resposta dela foi igualmente pitoresca:
"o peito do seu pé. o peito do seu pé."

nada de respostas como "bunda, barriga, sorriso, seios..." mas, canelas e peito do pé.

e foi ali que ela descobriu que ele era o homem da vida dela. não porque ele achava as canelas dela-- a parte mais importante do corpo dela.

mas porque ele não achou estranho-- ela gostar-- do peito do pé dele.

terça-feira, agosto 18, 2009

tudo

ela inicia a conversa na cama.

- tudo o que é meu é seu.
- tudo?
- tudo.
- você me ama mesmo assim?
- amo. muito.
- tudo? tudo?
- tudo.
- [silêncio]
- [silêncio]
ele apalpa com a mão o lado direito da barriga, na altura dos rins. ao tocar a ponta do dedo sobre o ponto certo, ele faz uma cara de dor aguda-- olha para ela e diz, na maior calma:
- um rim?

você consegue?

- antônia?
- o que foi meu amor?
- se você pudesse ler pensamentos, você usaria este poder?
- acho que sim.
- mesmo sabendo o quanto eu não gosto da sua mãe?
- acho que sim.
- e mesmo sabendo que acaba de mudar para o apartamento ao lado uma vizinha maravilhosa?
- acho que sim.
- mas que existe a chance de pegarmos o mesmo elevador, os três?
- acho que sim.
- e considerando a frequência que você me pergunta se está magra ou gorda, mesmo sabendo que está fora de forma?
- pensando bem. não preciso. você é muito sincero.
- e isso é bom?
- acho que não.

quantas.


- quantas vezes mais eu terei que dizer que te amo?
- até eu perder a vontade de ir até a geladeira abrir aquela caixa de mini-toblerones.

agente secreto e a diva.

ela dizia que ele dizia que era um agente secreto.
ele dizia que ela dizia que era uma atriz de teatro.
ela dizia que ele dizia que ela dizia que ela era uma atriz de teatro.
ele dizia que ela dizia que ele dizia que ele era um agente secreto.
ela dizia que ele dizia 'eu te amo'
ele dizia que ela dizia 'eu também.'

um dia ele confundiu o endereço do restaurante e não apareceu. e ela, depois, sem graça, não ligou.

ela dizia que ele dizia que o dia que não aparecesse é porque estaria numa missão secreta no leste europeu.
ele dizia que ela dizia que o dia que ela não ligasse é porque estaria numa longa temporada de teatro em buenos aires.

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nunca se soube qual dos dois acreditou mais na mentira que o outro dizia.
se ele no que ela dizia sobre o teatro. ou ela no que ele dizia sobre a espionagem.
agora era esperar acabar a missão secreta que ela dizia que ele dizia fazer parte.
ou a temporada de teatro que ele dizia que ela dizia ser a estrela.

eles nunca mais se viram.

bozano.

- e então, gostou do corte filipe?
- é, é, sim. mas você pode colocar aquele líquido azul debaixo das minhas costeletas? aquele do meu pai.
- bozano, você quer dizer?
- eu não sei ler. mas é aquele pote azul que o senhor sempre mergulha um pedacinho de algodão e coloca debaixo das costeletas -- quando termina de cortar o cabelo do meu pai.
- bozano.
- o senhor pode botar?
- claro.
- [silêncio]
- [silêncio]
- [siliencio]
- pronto.
- obrigado.
- esse cheirinho, de bozano? lembra o seu pai?
- não. lembra o comentário que a minha babá sempre sussurra no ouvido da cozinheira-- quando o meu pai volta para casa-- após cortar o cabelo com o senhor.

quinta-feira, agosto 13, 2009

50% de desconto!


- mãe?
- o que foi meu filho?
- essa roupa...
- o que tem ela?
- quem foi que escolheu? o papai?
- não.
- a senhora?
- não.
- a vovó?
- não.
- quem foi então?
- a promoção.

não estou.

ela inicia uma conversa breve para tentar entender como funcionava a cabeça dele.

- porque você não grava uma mensagem na sua caixa postal?
ele responde:
- porque, se eu não estou, eu não estou. simples assim

o preço.

depois de ver o apartamento, ele pergunta para o corretor de imóveis:

- mas porque este apartamento é tão mas tão mais caro que os outros nesta região?

o corretor abre as persianas, afrouxa a gravata, limpa os óculos com o bafo e diz:

- porque a vizinha de seios fartos, do prédio da frente-- anda completamente nua pela casa entre 17:00 e 22:00. todos os dias.

retribuição.

- paixão, tá vendo aquela mulher ali?
- qual?
- aquela segurando uma bolsa da c&a.
- tô.
- você acha ela bonita?
- sim.
- mais bonita do que eu?
- claro que não.
- mas olha o corpo dela.
- patrícia! mas que conversa é essa?
- não, só estava querendo ter uma conversa franca com você.
- mas...
- eu sei que você acha ela bonita. com um corpo legal... não é porque está comigo que precisa fingir que não acha... nós estamos casados desde... de...de.... bom, não tem problema olhar...
- posso te perguntar uma coisa?
- claro.
- mas você responde com sinceridade?
- sempre.
- você quer olhar para aquele sujeito que está passando-- que acaba de sair da academia, sem culpa?
- sim.

chato.


- o woody allen é inteligente.
- mas você está afirmando alguma coisa ou está dizendo?
- não entendi?
- amor, você está dando uma opinião sua, formada, ou está simplesmente repetindo o óbvio?
- marcelo, é uma constatação. acabei de ver uma foto dele numa revista... estava apenas puxando assunto.
- então você estava repetindo, falando algo que já ouviu. o óbvio.
- quando?
- quando o que?
- você ficou assim, chato para caralho?
- mas você está afirmando ou perguntando, como se tivesse dúvida sobre isso e precisa da minha opinião para tirar conclusões?

sexta-feira, agosto 07, 2009

um sujeito carente e sem sono.


- linda?
- o que foi?
- você ainda está acordada?
- não estou falando com você?
- [silêncio]
- sim, estou acordada.
- você está pensando em que?
- nada.
- em mim?
- em nada.
- eu estava pensando em você.
- que bom.
- mas você...
- não, não estava.
- mas...
- amor... deixa eu tentar dormir...
- mas você pode tentar?
- pensar em você?
- não é assim que funciona, você sabe.
- mas...
- ok, eu tento. eu tento.
- amor?
- oi?
- quer que eu coloque a nossa música de fundo para ajudar?
- pelo amor de deus, deixa eu dormir...
- mas você vai tentar né? pensar em mim, enquanto estiver dormindo...
- eu ia.
- não vai mais?
- não.
- brad pitt né?
- sim.

paris.



- amor?

- oi?
- o que você quer de presente de casamento?
- um clichê.

- um clichê?
- sim, o maior deles.

quinta-feira, agosto 06, 2009

mini-pequena-curtíssima idéia para um curta.


baseado numa piada.


abre com um casal no momento em que eles, o marido e a mulher-- se sentam numa mesa de um restaurante bem fino. francês. Mas um restaurante fino, fino mesmo. duas estrelas no guia michelin. não três, mas duas. o suficiente para o prato sair bem mais caro do que se imagina.

e o cardápio é apresentado. o casal passa o olho de relance sobre os pratos e pede para o garçom recomendar.


- o chef recomeda o pato. sim, o pato.

o casal então fica com o pato. pato com molho de laranja para os dois.

minutos depois. não cinco, mas quase trinta... o pato chega a mesa. num prato daqueles decorados. com uma cenoura raspada num canto e abobrinhas em fatias quase transparentes no outro. lascas de gengibre. batatas em espuma e um bocadinho de purê de mandioca. e um molho de laranja fino, quase um caramelo desenhado sobre o pato.

mas antes de comer, o garçom pergunta se o casal gostaria de um pouco de suor sobre o pato.

e, como se fosse a coisa mais natural do mundo, sem achar nada nojento-- a resposta é positiva para ambos. o garçom então começa a correr no mesmo lugar, até que gotículas de suor formam na sua testa-- e então lança gotas fartas de suor sobre o prato. a mulher pede um pouco mais-- que ele acaba por capturar da base da nuca.

minutos depois, ele pergunta se o casal gostaria de uma pitada de catarro. novamente a resposta é positiva. ele então, fecha a entrada de uma das narinas com o auxílio do polegar e assopra uma rajada breve de catarro sobre cada um dos pratos. o casal agradece e segue comendo.

durante a refeição, ele ainda oferece uma pitada de cuspe sobre a salada e pêlos do suvaco sobre a sobremesa. e em ambas ocasiões o pedido foi aceito. e todas as vezes, o casal mandava elogios rasgados para a cozinha. sempre com um sorriso grande no rosto.

para finalizar, uma bufa, um peido do chef sobre a dose de conhaque digestivo dos dois. a taça de conhaque foi levada até a cozinha e-- com a porta ainda aberta-- eles viram o chef encher o copo de gases. nada muito barulhento. sutil.

e finalmente chegou a conta. o marido colocou os óculos de leitura e pediu para a mulher conferir. essa cena se repetiu duas vezes. até que ele, o marido, inconformado com algum dado da conta, chamou o gerente.

- o que foi meu senhor? em que posso ajudar?

- a conta.

- mas o que tem de errado com a conta?

- 68 euros por uma dose de conhaque?

- [silêncio]

- 68 euros!?

- meu senhor, deixe eu conferir este preço...

minutos depois ele volta da cozinha com um sorriso amarelo e diz:

- você me desculpe. mas o preço está certo. o chef disse que antes de bufar sobre o seu conhaque-- havia consumido uma porção de caviar.

- caviar?! ah, tá. você aceita visa?

terça-feira, agosto 04, 2009

O TIQUE - uma idéia para um pequeno-mini-curta



Homem com seus trinta e mais anos senta-se para comer numa mesa de uma praça de restauração de um centro comercial. A camâra percorre o prato dele (Caldo Verde com um pedaço grande de chouriço agarrado na borda do prato.) e corre pelo braço dele até chegar ao seu rosto. Vemos então que ele tem um tique nervoso no olho direito. Ele pisca uma vez forte e duas vezes mole.


Corta para este mesmo homem a esperar o sinal abrir para atravessar a rua. Camara desvia de várias pessoas que estão ao seu lado e fecha no seu rosto. O tique está ainda mais evidente. Ele pisca duas vezes forte e uma vez bem mole.


Corta para ele no elevador do trabalho. Ele acena para alguém que trabalha com ele e pelo ponto de vista do colega de trabalho, vemos que o tique agora desencadeou algo ainda mais forte. Ele pisca umas três vezes bem forte.


Corta para ele sentado de frente para o seu computador. (O escritório ainda está cheio.) A câmara passeia pela sua mesa e sobe em alta velocidade até frear sobre o seu rosto. Vemos que o tique está mais intenso. Uma gota gorda de suor desce pelo lado esquerdo da testa.


Passagem de tempo. Ele está agora sozinho a frente do computador. O escritório está vazio. Uma senhora encarregada da limpeza olha para ele de canto de olho. Pelo ponto de vista dela identificamos o tique ainda mais intenso.


Corta para ele no seu carro a caminho de casa. Ele liga o rádio. Escutamos o locutor do rádio dizer algo.


LOCUTOR

Previsão de chuva para Lisboa.

Ele fecha a janela do carro. Pelo retrovisor, vemos o tique com uma intensidade quase inexplicável. O carro sai brevemente da trajectória devido a um piscar mais forte.

Corta para ele a entrar em casa. Vemos sobre o chão da sala uma pilha de cartas, uma revista e um jornal do domingo anterior. Ele apanha as cartas e vemos ele jogar sobre a mesa, todas as contas, a revista e após uma breve olhada na manchete velha do jornal, joga também o jornal. Resta em suas mãos uma carta. Uma só. Não endereçada. Ele abre a carta e encontra dentro a típica carta usada por sequestradores. Com cada frase composta por letras recortadas de revistas e jornais.

Enquanto a camara revela o que está escrito, escutamos ele ler em off.:


HOMEM EM OFF:

- Deposite seis bilhões de Euros na conta corrente número

000977 98765 9877 ou eu não liberto você nunca mais.

Assinado: O SEU TIQUE.


teorias dela.

- mas minha filha porque você está sofrendo tanto por esse menino?
- não consigo explicar.
- mas minha filha, ele é o seu primeiro namorado. você ainda terá outros.
- mas é difícil.
- passa.
- não passa.
- confia em mim.
- confia você em mim.
- é que...
- é que o que?
- ele acabou comigo.
- mas é assim minha filha. as vezes é você que acaba. as vezes é o namorado.
- você não está me entendendo. eu não gostava mais dele.
- então...
- mas ele acabou comigo.
- mas se você não gostava mais dele... foi bom, não?
- não, porque eu queria acabar com ele. mas ele acabou comigo antes. filho da puta.
- mas que bobeira. deixa para lá. ele fez um favor.
- acho que eu vou ligar para ele chorando. como é que está a minha cara. se ele chegar aqui parece que eu estava chorando muito?
- mais ou menos.
- me empresta aquela sua maquiagem que borra.
- mas...
- eu vou implorar para ele voltar quando ele chegar aqui.
- para que? mas para que?
- para terminar com ele depois.