quinta-feira, setembro 06, 2007

existe um quadrinho do gary larson genial

nele, um cachorro na frente de uma casa, segura uma máquina que mede a quantidade de medo que uma pessoa sente. no quadrinho, a tal máquina ganhou o nome de fear-o-matic ou a geringonça do medo. algo por aí. e no quadrinho, a piada toda é um carteiro que está passando pela casa e praticamente caga nas calças de medo. e, por mais que ele difarce, o cachorro sabe que ele está com medo. e você, sabe, quando o cachorro sabe que você está com medo, fudeu. late, corre atrás, ameaça tirar um naco da sua canela. sou fã do gary larson. já contibui bastante para a poupança dele. e hoje me senti parte deste quadrinho clássico. o cachorro que consegue medir o medo das pessoas. bom, onde eu moro aqui em lisboa, é um daqueles bairros meio fechados, com praça, velhinhos, crianças nas ruas. é um anda para lá, anda para cá. todo mundo circula para todos os lados. não tem muito esse esquema de pegar o carro para fazer tudo. quem mora em campo de ourique gasta a sola do sapato. o que nos leva aos cachorros. são dois, as vezes três. não sei ainda se o terceiro era um primo que estava visitando. na grande maioria das vezes são dois. dois vira-latas. um médio e o outro pequeno. e eles ficam numa esquina ao lado da minha casa. um quarteirão antes. uns cinquenta metros da porta da minha casa. não tem como driblar os feras. bom, e eu sempre tentei controlar o medo. nos dois primeiros meses que eles tomaram a esquina para eles, procurei passar com o peito estufado e uma cara de fêla da pulta que come cachorrinhos no jantar. o tempo passou, e, hoje, os fêlas me pegaram desprevenidos. estava lá teclando um sms, quando virei a esquina e me deparei com os dois. meio no susto, olhei para um que babava raiva e, foi neste instante que o outro ligou o fear-o-matic e detectou o medo. o cagaço. os dois começaram a latir para cacete. pensei nas minhas opções. correr? não, os dois me alcançariam. chutar? não, eles têm um primo grande que de vez em quando visita. lembrei do gary larson na hora. do quadrinho dele. imaginei como ficariam os dois num espeto de churrasco. estufei o peito, franzi os olhos e em poucos segundos, com a força da mente, reverti o mostrador digital do fear-o-matic. os dois abaixaram a cabeça e eu segui em em frente. existe um quadrinho do gary larson genial.

terça-feira, setembro 04, 2007

cotidianos de um só linha. 4, 5 & 6.


• publicitário conversa com a mulher.

- amor, você precisa experimentar esta cerveja. gelada. saborosa. com uma espuma densa e ingredientes nobres. nunca bebi nada tão refrescante.


• mulher chef de restaurante premiado comenta com o marido.

- porra amor, cheetos sabor presunto não, né?! não fodi.


• viciado em apostas obseso, em casa durante o café da manhã.

- amor, quer apostar quanto, que eu consigo comer o meu sanduíche, e o seu, em menos de um minuto?

não entendo muito bem

a diferença entre 'fumantes' e 'não-fumantes' num restaurante hermeticamente fechado.

como é que o pessoal da ikea consegue convencer meio mundo que é possível montar os móveis deles sozinho.

como qualquer prato com bacalhau é mais famoso no brasil do que a açorda de gambas.

como é que nenhum português ao chegar em casa com cocô de cachorro agarrado na sola do tênis, ainda não chegou a conclusão de que seria sei lá, interessante pegar com um saco plástico descartável, o cocô do próprio cão.

quando os guias fodem o seu esqueminha, o jantar com a sua mãe que está visitando ou quando você quer marcar pontos com a sogra.

nada contra os guias. muito pelo contrário. eu tenho uns três, só de lisboa. graças ao guia eu aproveitei uma caráiada de lugares que eu nunca encontraria, nem dando 300 mangos na mão de um taxista bem humorado. mas existe um lado ruim dos guias. todo mundo descobre as mesmas coisas que você. ou seja, você se apaixonou por um prato que tem num restaurante tal do guia zambers que você comprou pela amazon? ah, que bom. que bom que você conseguiu lugar meu amigo. vai lá tentar comer o tal prato pela segunda, terceira vez. leve a sua mãe quando ela estiver visitando lisboa: "mãe, você precisa experimentar o arroz de tamboril desses caras... pensando bem, olha a pourra da fila, deixa para lá." e a mesma história vai se repetir com a sua sogra bem naquele dia que você quer marcar uns pontos com ela. não tem jeito. dia desses, estava lá eu, de pé, na frente do cantinho do bem estar, esperando uma mesa, ou como diriam os lisboetas, a esperar uma mesa, quando um casal francês se aproxima e pergunta com um sotaque carregado: "esse aqui é o cantinho do bem estar?" a minha primeira reação foi dizer que não, que eles estavam enganados e que o cantinho do bem estar ficava do outro lado da cidade. a minha segunda reação, que acabou sendo o que aconteceu, pois pensei duas vezes, foi dizer que sim, aquele ali era o cantinho do bem estar. o casal agradeceu e comentou que tinha lido sobre cantinho no lonely planet. na mesma noite uma brasileira comentou comigo na fila que recebeu um email falando deste lugar. "é maravilhoso não é?" e eu: "mais ou menos, é bem mais ou menos, melhor não recomendar para ninguém." brincadeira, se fosse possível mentir, eu mentiria. mas os pratos que ela comeria em instantes fariam um bom trabalho para afirmar ali no meio das mesas do restaurante que eu era um mentiroso. mas 'o cantinho do bem estar' é apenas um exemplo. já cheguei na porta de uns três lugares com turistas munidos de guias e máquinas fotográficas. e não estou falando do pastel de belém, do castelo de são jorge, não, esses são monumentos nacionais. tombados pela unesco ou algum orgão desses. estou falando é das tasquinhas, cafés, quase debaixo da terra. aqueles miniaturas. com quatro mesas. um garçom ranzinza. e o melhor bacalhau do mundo. aquele peixe que só o cara tem porque ele é sogro do pescador que pesca a pourra do peixe. os guias mais específicos. os guias modernosos. os guias a lá lonely planet estão revelando para todos, todos os segredos. é foda. se de um lado você também descobre uma porrada de lugares impressionantes. fucking fuckers. meio mundo também descobre. falando nisso, eu iria recomendar um restaurante sensacional que não vi em nenhum guia, foi um casal que recomendou. é o...

sexta-feira, agosto 31, 2007

anedotas de ginja. 3 -- a volta de zico.


imagine que na década de 80, o zico resolvesse tirar férias do flamengo. mas férias prolongadas. trinta dias sem o zico na reta final do campeonato brasileiro. imagine que o marlon brando faltasse as gravações de o poderoso chefão. o u2 sem o bono. bem, você entendeu. ia dar alguma merda de proporções inimagináveis. foi isso que aconteceu no bairro alto durante as três últimas semanas. seu jaime saiu de férias. o seu jaime, dono do bar que vende a melhor ginjinha das redondezas. lacrou as portas do seu bar. meteu uma folha de papel a4 lá deitada com uma só frase datilografada: "volto dia 29. motivo férias." e nessas três semanas, você passava pela porta e, assim, como não quer nada, espiava o papel para ter certeza que seu jaime só voltaria no dia 29. turistas passavam e apontavam para a porta cerrada. e os dias passaram. e, quando a câmara de lisboa estava prestes a fazer uma campanha na tv para que a população entendesse que o seu jaime estava gozando de férias merecidas--- seu jaime voltou.tirou aquela folha a4 que avisava sobre as férias e abriu as portas. mas sem muita ostentação. como se achasse que ninguém estava esperando o bar reabrir. na primeira que eu fui lá com o pessol da agência para tomar uma ginja, encontramos um papel que dizia "volto já." cinco minutos e nada. dez minutos. onze. doze. e nada. passei lá horas depois e comentei, "caráio seu jaime, nêgo veio celebrar a reabertura do bar e tinha uma papel ali escrito 'volto já!' e nada do senhor voltar." e ele: "ah, fui fazer a janta em casa." e eu:"caramba seu jaime, no dia que o bar reabre. no auge do verão. fazer a janta em casa? é como o zico sair no meio da final do campeonato brasileiro-- pra dar um pulo em casa para fazer a janta!" e ele: "zico?"

un pingado, pur favor.


depois de almoçar várias vezes com amigos argentinos do trabalho, descobri que todo e qualquer argentino toma café com uns 5 ml de leite. café pingado. sempre. não sei se é uma lei que rola lá, mas é o que rola. juro que ante de fazer aqui essa afirmação observei o esquema do pingado direito. não é uma generalização. os caras só tomam pingado e pronto. mas que caráio você vai fazer com esta informação? só consigo pensar em uma situação: se você estiver num bar, no brasil-- assistindo brasil e argentina e quiser descobrir se tem algum argentino infiltrado tentando se passar por brasileiro. é fácil descobrir quem é. peça gentilmente para a garçonete servir café para todos. o argentino, mesmo sob o risco de revelar ser conterrâneo do cannigia que fez aquele gol na copa de 90 que eliminou o brasil-- vai pedir o dele pingado. "un pingado, pur favor."

quinta-feira, agosto 30, 2007

o tal do sorvete da santini.


se você já veio a lisboa, provavelmente (com certeza) já escutou a seguinte frase da boca de alguém: "não deixe de comer os sorvetes da santini." ok e se não escutou esta frase, escutou algo como: "santini, sorvetes da santini, de morango, peça o de morango." bom, e se não escutou, acaba de ler aqui. sorvetes da santini é aquele negócio que todo e qualquer guia turístico tem. sem putaria, os guias falam mais do sorvete de morangos da santini do que do castelo, da torre de belem. o negócio é punk. foda mesmo. você chega lá com uma cara de quem pensa "ok, ok, deixa eu experimentar esta pourra." e sai de lá bobo. com as mãos sujas de sorvete e uma pequena dúvida: "peço outro? ou dou uma volta longa em cascais para ver se abre um espaço no meu sistema digestivo para comer mais sorvete de morango?" e apesar de tudo que já falaram do sorvete de morango da santini, não é exagero. ainda é pouco. você vai ver, ainda vão lançar um guia turístico de portugal em que todas as páginas são iguais: visite a santini. peça sorvete de morangos. não sei, não sei mesmo se existe alguma droga das brabas. dessas que viciam na receita. até porque, se tivesse, já teria dado alguma merda. mas alguma coisa tem. reza a lenda que só o pessoal da família sabe a receita. que eles já foram alvos de várias multinacionais. e nada. o tal sorvete da santini é aquele negócio que faz você pensar pela primeira vez na vida no sorvete das outras pessoas. acabou o seu? ôpa, olha ali na mesa ao lado aquela tiazinha dando mole com o dela. desde que cheguei, fui três vezes. numa delas, fui até lá, só para isso. é como sair do itaim bibi em são paulo e dirigir até o aeroporto de guaralhos para comer uma bola de sorvete. ou, se você mora na barra da tijuca, como sair de casa de carro e ir até o centro da cidade, comer uma bola e voltar. é foda. é meio escondido. numa galeria de lojas ainda mais escondida. mas você encontra fácil em cascais. é só procurar adultos lambendo os dedos. crianças chorando com catarro escorrendo de um uma narina pedindo "mais. eu juro que é só mais um!" e um brasileiro com uma pequena colher de plástico numa das mãos ameaçando atacar o sorvete de morango de uma tiazinha. o tal do sorvete da santini.quase que nessa ordem.

desde que...


desde que eu cheguei em portugal, já peguei duas chuvas daquelas de filme (e quando eu digo filme, estou falando de "twister", não de " dançando na chuva"). desde que eu peguei essas chuvas, comprei um guarda-chuva que contribui com uns 36% do peso da minha pequena mochila. desde que eu comprei o fêla, não choveu mais enquanto eu perambulava pelas ruas. desde que eu cheguei a esta conclusão comecei a pensar se não valeria a pena deixar a pourra do guarda-chuva em casa.

nove digitos e o john nash.


o brasil tem 180 milhões de pessoas. um pouco mais talvez. e tem uma caráiada de celulares. pré-pagos, pós-pagos. tem telefone para cacete. portugal também. celulares, telemóveis. agora, a população portuguesa é bem bem bem menor que a brasileira. uns 11 milhões, acho. um pouco mais talvez. bom, e onde quero chegar com isso? aos nove digitos. um, dois, três, quatro, cinco, seis, tá vendo como demora, sete, oito, caráio esse número não acaba, nove. qualquer número de telefone aqui tem nove digitos. ainda me lembro moleque no brasil, os telefones tinham sete. com o tempo ganharam oito. foi meio complicado adaptar as minhoquinhas do cérebro ao novo esquema. mas beleza, depois de um tempo passei a memorizar com uma certa facilidade os números mais importantes. não a mesma quantidade de quando eram apenas sete. mas um número considerável. sempre achei que acrescentaram o oitavo digito para comportar tanta gente. tantos telefones. o que nos leva de volta a primeira linha deste texto. o brasil tem 180 milhões de pessoas com um celular no bolso. são mais ou menos isso, 180 milhões de telefones tocando durante o filme que você esperou o ano inteiro para assistir no cinema. mas portugal não. portugal tem 11 milhões de pessoas. 11. e é aí que eu pergunto, porque caráio foram sugerir o nono digito? que tanta gente é essa que não dá para registrar com sete, oito, até mesmo seis. com nove, eu não consigo memorizar mais do que dois números. de cabeça sei o da minha mulher e as vezes o meu. não fódi. como é que isso foi acontecer? dia desses encontrei um primo aqui e quis passar o meu número para ele me ligar no dia seguinte. bom, eu não sabia o número de cor. pensei então: "mole, vou ligar para o celular que ele tem em mãos que o número vai ficar registrado." mas, como você adivinhou, ele também não conseguiu memorizar os nove digitos do dele. fiquei olhando para ele como quem diz: "o que te fudeu foi o esqueminha dos nove digitos, não foi?" e ele, sem saber como passar o telefone para mim, ficou me olhando com uma cara de quem diz: "o que te fudeu foi o esqueminha dos nove digitos, não foi?" fico imaginando você encontrar uma menina num bar e pedir o telefone dela. o drama que se passa pela sua cabeça. a menina não vai repetir duas vezes. até porque se o fizer, ou vai soar estranho ou vai parecer desesperada. então é aquele esquema, você pegou coragem. foi até lá falar com a menina mais gata do bar. respira fundo, pede o telefone dela. ela olha para você e diz os nove digitos. e você, para não parecer que não é mané, não leva uma caneta em mãos. pede como não quer nada para o garçom. o garçom demora. e você esquece a porra do número . não liga para a menina. que fica esperando a ligação. resumindo. os nove digitos é uma esqueminha bem mais ou menos. isso é claro se você não for o john nash. aquele do filme "mentes brilhantes."

terça-feira, agosto 28, 2007

cotidianos de uma só linha. 3


cuspidor de fogo do circo durante o jantar.

- amor, passa a pimenta malagueta, por favor.

cotidianos de uma só linha. 2


tiazinha do telemarketing atende o telefone em casa

- boa noite, a senhora é cliente de qual operadora de longa distância?

cotidianos de uma só linha



garçom chega em casa


- amor, você poderia pegar uma cerveja para mim?

a teoria do cc, o futum mortal.


cc para quem não sabe, é o futum emitido pela subáca. o cheiro forte que faz os olhos lacrimejarem. todo mundo, em algum momento da vida já teve. depois de uma prova do vestibular, durante uma partida de futebol. em algum momento. bom, mas eu acho, só acho que tem um fêla que es†á querendo sabotar os ônibus de lisboa. mais especificamente a linha 58. não sei se o fêla está querendo que abaixem a tarifa. não sei se o motorista não pára no ponto que ele quer. não sei se já pescaram a carteira dele. não sei, mas que o fêla está com intenções bem mais ou menos, isso está. e descobrir quem é, não é fácil. é complicadíssimo. descobrir quem é, implica se aproximar do odor, do cc. o que, naturalmente não acontece. quando eu sinto que este sabotador do ônibus está lá, corro para a direção oposta. é o plano perfeito, se você pensar. alguém fudeu com esse cara. alguém criou confusão com ele. e ele, bem, ele poderia grafitar as paredes do ônibus, mas levaria uma multa. ele poderia dar um sopapo no motorista e seria preso. ele poderia fazer uma caráiada de coisas. mas sempre seria penalizado. e o que ele fez? resolveu usar a arma mais mortal e invisível que existe. o cc. o futum para qual não existe nenhuma lei. nada que regularize ele. bom, é só uma teoria. e o fera só ataca de vez em quando. os mesmos dias em que eu aproveito para andar um pouco e se exercitar. fêla.

rodadas. ou porque quando você sai com mais que cinco amigos, irá com certeza voltar para casa manguaçado.


em portugal não tem muito esse esquema mesa de bar que tem em são paulo. ok, ok, tem. mas não é como são paulo com um bar com uma caráiada de mesas na calçada. ok, ok, tem. mas é diferente. o esquema é mais, pega chopp, anda. pega chopp, muda de bar. pega chopp, toma em pé na calçada. termina o chopp, muda de bar. e quando eu digo, muda de bar, é mudar de bar mesmo. como não rola muito o esquema de pegar o carro com o manobrista, pagar dez mangos para pegar o seu carro para seguir em frente para o outro bar, você literalmente pula de bar em bar. andando. o que nos leva ao título deste textinho. explico. no bairro alto, a vila madalena de lisboa, você geralmente (sempre) entra num bar que parece um corredor para gritar pela sua imperial. bom, e, como se trata de de muitas vezes um trabalho não muito glorioso, cada um vai uma vez. cada um paga uma rodada. de x em x minutos, cada um, vai se sacrificar pelo bem do grupo. uma espécie de saving private ryan. em que o ryan é a imperial gelada sobre o balcão de madeira de um bar. chegando a sua vez, você desce a escadaria de um bar e berra "cinco imperiais!" e a cena se repete. e repete de acordo com o número exato de pessoas que que está com você. você saiu da agência com 3 amigos? é, três imperiais no mínimo, seis se estiver muito quente, nove se estiver muito quente e for uma sexta feira. bom, a conta então é mole. o que nos leva novamente ao título do textinho. quando você sai da agência com cinco amigos, cinco imperiais, dez, quinze. ou seja, vai voltar manguaçado para casa. essa é a diferença de sentar em bares e andar de bar em bar. sentado, você depende da combinação do seu dedo indicador e da habilidade e disposição do garçom. andando, é você quem vai de encontro ao balcão. em portugal não tem muito esse esquema mesa de bar que tem em são paulo. ok, ok, tem. mas não é como são paulo.

quinta-feira, agosto 23, 2007

o homem que faz a voz do trailler dos cinemas em casa.


- marido, cansado, pede para a mulher uma cerveja gelada.
- mulher igualmente de saco cheio, manda ele à merda.
- toda emocão, drama e aventura de um marido atrás de uma lata de cerveja mas com preguiça de pegar. estrelando o marido. co-estrelando, a mulher.
- (mulher interrompe) co-estrelando é o caralho.
- agora, aqui em casa.

o esquema do presunto de parma fatiado.


presunto de parma aqui se chama presunto. presunto, fiambre. uma tosta mista contém queijo e fiambre. bom, mas voltemos ao presunto de parma que aqui se chama presunto. se você sentar numa mesa em portugal e um fera colocar na su frente um prato com presunto fatiado, segure a onda. respire fundo. dê uma mordida grande no pão que está ao lado. mas evite o presunto. e muitos casos, o presunto custa mais do que o prato que você vai comer. é claro que se você estiver com uma tara do caráio por presunto. se isto é a única coisa que você come. se você é conhecido no seu bairro por ser comedor de presunto, força, coma a pourra do presunto. mas, se não for o caso, recomendo socar o pão goela abaixo. o pão vai manter seus dentes ocupados e a sua barriga relativamente saciada enquanto não chega o seu prato. acho, só acho, não tenho certeza. suspeito que o pessoal do restaurante coloque o presunto na sua frente e depois 'startam' um timer antes de ir a mesa tirar o seu pedido. e mais, deixam o presunto fora da geladeira uns dois minutinho antes, para soltar o cheiro. deixam o presunto suar um tiquinho para que quando o prato é colocado debaixo do seu queixo, você jorre saliva com o primeiro contato do aroma do presunto gordo com o seu nariz. é difícil resistir? é. você vai resistir? provavelmente mesmo após ler este textinho vai morrer nos 8 mangos do presunto. mas tudo bem, uma hora você aprende. detalhe, o esquema do presunto fatiado é como o esquema do couvert que uma vez eu já escrevi aqui. fode com o seu jantar. é, porque, basta deitar uma fatia de presunto sobre as papilas gustativas da sua língua para comer todo o resto em goles grandes. goles de presunto. prato lambido. e uma sensação estranha de querer pedir para o garçom fatiar a porra do porco inteiro para você. e aí, bom, aí na terra do bacalhau, você enche a pança de presunto e deixa lascas grandes de bacalhau para trás. o que, cá entre nós, é uma senhora sacanagem com o querido e saboroso bacalhau que neste momento dá passos largos na fila dos peixes que estão desaparecendo. esse é o esquema do presunto. vai por mim. segura a onda. foco no prato e olhada feia no garçom que insistir em sambar um prato desses na sua frente.

terça-feira, agosto 21, 2007

pensamentos do dia.


- todo ônibus deveria ter um botão de eject no caso de passageiros com o desodorante vencido. não vencido "eu coloquei hoje pela manhã, e agora está vencendo." eu digo, vencido "caráio, meus olhos estão ardendo."

- é impossível comer caracóis se você olhar para o mini sorriso que eles têm estampados no mini-rosto. caracol só dá para comer de olhos fechados.

- queria descobrir o endereço do carinha que pilota o caminhão de lixo que passa pela minha casa todos os dias de madrugada. eu iria comprar uma bateria daquelas bem old-school com dois bumbos e sete pratos (meio def leppard). fazer um curso bem meia-boca. depois usarira todas as minhas economias para dar uma entrada no apartamento vizinho do fera. e depois eu iria passar a madrugada rasgando os tímpamos dele.

diálogos mãe & filho. 2


- mãe?
- oi meu filho?
- porque sempre que eu faço uma pergunta tipo "de onde viemos" "existe vida lá fora?", você sempre dá uma resposta elaborada? é paciente, mesmo que fale coisas que nem sempre fazem lá muito sentido...
- é o jeito da mamãe filho..
- e porque sempre que eu faço as mesmas perguntas para o papai, ele pede para eu procurar as respostas no google?
- é que o seu pai assinou o pacote do campeonato brasileiro de futebol.
- ah tá.

diálogos mãe & filho. 1


- mãe?
- oi meu filho?
- tudo bem?
- tudo. tem alguma coisa que você quer falar com a mamãe?
- não, não. é que....
- é que? pode falar, a mamãe está aqui para você.
- bom, o rapaz que escreve este blog estava sem assunto...
- sem assunto?
- é, ele não sabia o que escrever. e aí eu resolvi ajudar.
- ajudar?
- é, só este nosso papo aqui já rendeu um post.
- é verdade.
silêncio.
- mãe?
- porra filho, você quer perguntar alguma coisa ou ainda é para ajudar o erick a ter algum tipo de assunto?
- é, tava faltando um final pra este diálogo.

o vinho para quando não é hora de tinto ou branco ou do porto.


aqui em portugal definitivamente se bebe bastante. bastante cerveja. bastante vinho. na verdade, bebe-se mais cerveja. mas a industria do vinho não quer ficar para trás. não quer amargar uma distância grande para a cerveja. por isso inventa, anuncia, divulga, todo e qualquer tipo de vinho. vai comer uma carne? vinho tinto nela. um peixe leve? vinho branco nele? acabou a refeição? vinho do porto. mas aí, bom, agora, verão, quente para cacete, e o fêla não pediu um peixe, e não dá para oferecer um branco, um rose. verde. vinho verde no fera. isso, vinho verde no rapaz. na moça indecisa. cerveja é o caráio, experimente uma garrafa deste espetacular vinho verde geladinho. feito sob medida para ser tomando quando a tempertaura proibe qualquer tipo de vinho que não esteja gelado. e quando você quer ver tudo pela frente, menos uma taça de vinho branco. fico imaginando a associação das vinícolas reunida num passado não muito distante. uma porção de tiozinhos com as bocas cheias de uvas verdes falam: "tem uva verde para cacete lá perto da minha casa!" e um outro levanta a mão do fundo da sala e grita: "na minha também." e uma tiazinha completa: "caráio, minha casa está coberta de uvas verdes. está quente. muito quente. o pessoal da cerveja está vendendo muito e a gente..." e, quando todos davam tudo por perdido, um tiozinho gesticula de longe e fala duas palavras mágicas: "vinho verde. a gente faz vinho verde. anuncia pra caramba no verão. dia e noite. noite e dia. promoção. o vinho oficial do verão. manda colocar na geladeira até quase congelar e manda servir. vinho verde." fast forward para os dias de hoje. daí para as prateleiras, anúncios de ponto de ônibus. e, quando você achava que não existia vinho que você se atreveria colocar na boca com esses 42º do verão, surge o vinho verde com toda a força. e enquanto isso nas cervejarias: "esse vinho verde é foda... tá roubando o nosso market share no verão." e um tiozinho lá do fundo da sala levanta a mão e fala: "já sei..."

quinta-feira, agosto 16, 2007

"caráio, olha o tamanho do calçolão da tiazinha do prédio da frente!"

o varal aqui em lisboa é para fora. é exposto. não fica dentro de casa, na área. mas contornando as janelas da sua casa. quem passar na rua pode ver a marca da sua bermuda, o tipo de cueca. as meias. que camisa você usou. nada contra, cada país com as suas manias. se todo mundo mostra para todo mundo o que está usando, vam'bora fazer o mesmo. aqui na frente da agência, por exemplo, dá para saber que se trata de um casal mais conservador. roupas mais quadradas, um tiquinho anos 70. já fui uma vez num restaurante em que para chegar as mesas do lado de fora, tinha que, obrigatoriamente me esquivar das roupas intimas do varal de uma senhora. com este esqueminha dá para saber como é a personalidade do seu vizinho. o do prédio da frente da minha casa é do tipo que espera esvaziar todas as gavetas dos armários, para limpar quando não tem mais nada para vestir. ou tem roupa para caralho no varal do cara ou não tem nada durante uns dois meses. dá para saber se alguém está namorando. primeiro encontro: camisa bacana pendurada num sábado depois do jantar de sexta. segundo encontro: camisa bacana pendurada numa sexta depois dos drinks de quinta. terceiro encontro: camisa bacana do cara, vestido bacana da mulher que o cara finalmente convenceu a dormir lá. nas primeiras semanas você acha estranho: "caráio, colocar minhas cuecas assim para o pessoal que atravessa a rua ver?" "não fode, deve ter espaço na cozinha? deve ter máquina de secar?" não. te vira meu amigo. depois de dois meses: "olha lá, minha cueca!" o tiozinho do prédio da frente sabe que eu tenho um carinho especial por uma bermuda azul da osklen. e que a minha mulher adora uma camisa da adidas e uma outra da puma azul marinho. deve questionar se eu não devo ter outra calça jeans e se eu só uso as mesmas meias pretas. o esquema do varal aqui é assim. uma espécie de raio-x das pessoas. todo mundo acaba com a estranha sensação que conhece todo mundo. e se não conhece, pelo menos tem uma boa idéia de como as pessoas são. do que vestem. se são conservadoras. e se gastam a maior parte do salário em roupas. a muié que mora aqui no último andar no prédio da frente da agência, saiu de férias. não coloca uma roupa para secar ali fora desde julho.

3 todo & 2 toda.

- toda história que começa com "era um vez..." termina com um final feliz.

- todo filme que começa com "baseado em fatos reais", ou vai fazer você sair soluçando do cinema de emoção ou de tristeza.

- todo restaurante que tem mais do que um jogo de talheres ao redor do prato é um tiquinho mais caro do que você esperava.

- toda vez que você olhar para a sua fatura do banco, página por página, linha por linha, vai descobrir alguma tarifa do banco que está fodeindo a tua conta.

- todo anúncio de remédio tem pelo menos dois asteriscos.

terça-feira, agosto 14, 2007

frases que poderiam ter sido faladas pelo horatio caine, o chefe do c.s.i. miami, que inclina a cabeça na diagonal antes de falar qualquer frase.



- esse criminoso acha que é o fim. se depender deste laboratório criminal, será apenas o começo.


- uma bala na cabeça de um vítima, é uma arma na minha mão.



- siga as provas que você nunca estará perdido.



- as provas não mentem. quem mente é o criminoso.


- nossos destinos se cruzarão. seja aqui nas ruas de miami ou no banco de dados da miami dade police.


- ele está completamente enganado se acha que vai sair livre por aí.
o exame de dna felizmente não sente compaixão por criminosos.


- uma impressão digital é como a primeira impressão de um grande amor. fica para sempre.


- o teste de balística definitivamente a pior amiga que um ladrão pode ter.



- ele violentou essa menina. o destino será igualmente duro com ele.


- a vida dá voltas. uma bala perdida não.


- c.s.i. miami, todas as quartas, 21:30 no axn.


segunda-feira, agosto 13, 2007

as freiras, as roupas bem passadas no convento e "meu deus, o que faremos com as gemas?"


pastel de nata. travesseiro de sintra. queijada de sintra. ovos moles. baba de camelo. e se você fuçar um guia de culinária português, descobre mais uns vinte e seis tipos de doces em que o principal ingrediente é o ovo. um ovo não. uns cem. não vou ficar aqui explicando como é cada doce, porque é sacanagem. eu vou cagar na receita e você vai ficar com água na boca. mas vou contar uma curiosidade sobre eles. ou melhor a única razão pela qual esses fêlas das puta existem.é, pode agradecer aos santos por cada um desses doces. pode falar m voz alta após cada mordida: "ai meu deus! obrigado meu deus!" vai, o fera não vai ficar puto. ele realmente tem alguma coisa a ver com os doces a base de ovos que explodem balanças e artérias com a mesma facilidade. ELE tem muita responsabilidade pela existência desses doces. quatro quilos depois, fui descobrir a caralha da origem dos doces. nunca perguntei. nunca googlei, deveria. o negócio tava quicando aí. quicando em pratos de sobremesa. em pratos que brilham de longe. com aquele amarelo forte. aquele sabor gordo. os doces a base de ovos nasceram da necessidade das freiras de fazer alguma coisa com as gemas que sobravam. mas gemas que sobravam do que? bom, as freiras passavam o hábito, as roupas, com a clara dos ovos. para deixar as roupas durinhas, com aquele aspecto, bem, com aquele aspecto que ELE aprovaria. as freiras tacavam clara de ovos no tecido e passavam o ferro. e roupa vai, roupa vem, o problema foi se amontoando. aquele cheiro de ovo nas igrejas. aquelas centenas de milhares de gemas nos conventos. "o que fazer com as gemas?" "tem muita aqui no convento irmãs!" "um bilhão de gemas! o que faremos? rezamos?" e um das irmãs deve ter comentado: "mas isso, a gente já faz.... e se a gente fizer doces? isso, doces com as gemas?" bom, o resto é história e fila em belem para comer os pastel. e em sintra para comer o travesseiro. taí uma daquelas coisas que seja você católico fervoroso, um católico mais ou menos-- ou pode até não acreditar em nada... taí uma daquelas coisas que você tem que agradecer o fera. afinal, foi ali, na casa dele e do pessoal que trabalha para ele que as guloseimas nasceram. "meu deus! o que faremos com as gemas?" doces, você já pensaram em fazer doces?

sempre que...


- sempre que você entrar num restaurante português e o peixe no cardápio estiver com o preço do kilo, não do prato... fodeu. isso também vale para crustáceos como o camarão. é impossível não se foder com esse esqueminha. de uma refeição para a outra você tem que aprender a diferença de pedir por um preço fixo para pedir por kilo. camarão por exemplo, tem cabeça, rabo e casca. tira isso tudo e você tem o camarão que você vai comer. ou seja, você paga por um peso que você não vai comer. peixe por kilo? corre, meu amigo.

- sempre que você entrar num restaurante em que o garçom colocar rapidamente dois tipos de queijo na mesa com o couvert, queijo seco e fresco... fique esperto. o primeiro custa uns 4 mangos, o segundo, uns 2.50.

- sempre que você for comer pratos como açorda de gambas e alheira com esparregado, use uma calça de moletom.

quinta-feira, agosto 09, 2007

pequenos diálogos em lisboa. 5


- eu queria dois ingressos para o show do the police.
- dois ingressos. ok.
- não acredito, que sorte. começaram a vender hoje e eu consegui comprar. ufa.
- muita sorte sim senhor. você é um homem de sorte.

três meses depois na mesma agência bancária.

- eu queria um ingresso para o show do the police.
- um ingresso. ok.
- não acredito, que sorte. começaram a vender em maio e eu consegui comprar. ufa.
- muita sorte sim senhor. você é um homem de sorte.

pequenos diálogos em lisboa. 4

- este filé de pescado do cardápio, tem espinha?
- o que o senhor acha?.

o travesseiro de sintra. uma dica fucking fuckers para quem tem um colesterol num nivel aceitável.

bom, antes de qualquer coisa, se você caiu aqui por acidente pois achava que encontraria um site sobre o travesseiro de sintra, minhas sinceras desculpas. o google tem dessas coisas. bom, mas agora vamos falar do travesseiro, do doce, do entupidor de artérias. do doce com sete mil calorias. o nome, como já diz, afirma que doce é da cidade de sintra. lá você encontra o mai famoso de todos os tempos, mas, se fuçar em algumas outras lojas que não estão necessariamente em sintra, consegue encontrar o fêla. mas se o nome diz que a pourra do doce é de sintra, o melhor, obrigatoriamente, está lá. mais precisamente na "periquita". isso, periquita. se você for a sintra e não voltar com os dedos lambuzados da crema de ovos que escorre pelos cantos da boca após uma mordida, você não foi a sintra. é sério. chegando a sintra dê uma olhada rápida ao redor, guarde um punhado de imagens na cabeça e depois corra para a fila do periquita. a outra metade do nome, travesseiro, também diz muito sobre o doce. é um pequeno travesseiro. um pequeno travesseiro recheado de uma crema intensa de uns 32 ovos. ou mais. é uma explosão de sabores. uma explosão nuclear de sabores. é um armaggedon de sabores. bem, você entendeu. a bagáça e gostosa. para você ter uma idéia como é gostosa, muita gente não consegue se decidir o que é melhor, o travesseiro ou o pastel de nata de belem. alguns, alguns tem coragem de falar em voz alta que preferem os travesseiros no lugar dos pastéis. fica aqui a sugestão. você tem amigos que te chamam de magricelo(a)? você tem um colesterol dentro dos limites aceitáveis pela medicina moderna? se você respondeu sim para alguma dessas perguntas e principalmente para a última, soque um travesseiro de sintra goela abaixo quando visitar portugal. o fêla da pulta do doce vai te adicionar umas 600 gramas de banha logo que você acabar de comer. mas tudo bem. sem dramas. é uma vez só. até porque, basta comer uma vez para nunca mais esquecer. ahhh, o travesseiro de sintra. e se você, que caiu aqui, sem querer, porque digitou no google "travesseiro de sintra", continuou lendo até aqui. té o final. mesmo não sendo este o caráio de site que estava a procura, obrigado.

terça-feira, agosto 07, 2007

pequenos diálogos em lisboa. 3

- bom dia, eu estou ligando pois vi no jornal que você está alugando um apartamento....
- sim.
- então...
- você está interessado?
- na verdade quem está interessado é meu amigo, mas ele é argentino e não entende português. por isso estou aqui meio de interprete/representante.
- ah tá. argentino?
- ele é.
- e você?
- brasileiro. mas quem vai alugar o apartamento é ele.
- argentino?
- isso, mas ele está dizendo aqui do meu lado que ele também é italiano.
- como?
- argentino e italiano.
- mas você é brasileiro?
- isso. brasileiro.
- eu sou portuguesa.
- sim. a senhora é portuguesa.
- mas o seu amigo é duas coisas?
- acho que sim. argentino e italiano.
- desculpa, pede para ele decidir e me ligar de volta.
- não entendi? decidir?
- se é argentino ou italiano.
- [silêncio] ok, mas ele não fala português.
- então pede para ele decidir e você me liga de volta. ok.
- ok.

pensamentos do dia.

- quando a temperatura bate os 40º graus aqui em lisboa todas as pessoas tem a mesma idéia ao mesmo tempo: pegar o ônibus. é uma espécie de greve dos pedestres ao contrário. ninguém fica na rua. todos ficam dentros dos ônibus.

- quando a temperatura bate 42º aqui em lisboa todo mundo liga o foda-se e fica com as camisas e vestidos ensopados de suor, sem dramas. subáca molhada. costas molhadas. calças molhadas. chega uma hora que todos trocam olhares silenciosos como concordassem entre-si: "galera, o calor tá foda, vamo deixar de putaria e vamo ficar suado mesmo. não fode. e abrem-se as torneiras."

- quando a temperatura bate os 43º graus aqui em lisboa, o carinha da loja estilosinha aqui perto da agência, aumenta o preço dos ventiladores. paguei 38 euros num ventilador grande powermakers. uma outra pessoa aqui da agência foi comprar o mesmo ventilador um mês depois, agora, no verão, e o fela da pulta cobrou 60 mangos.

quinta-feira, agosto 02, 2007

pequenos dialógos em lisboa. 2

juan christmann, um redator argentino, sósia do mel gibson em máquina mortífera 1,num restaurante se vira para o garçom e inicia um quase diálogo.

- tienes pan?
- pan?
- isso, pan!
- pan?
- isso, pan!
- pan?
silêncio de uns 7 segundos...
- tienes PÃO?
- ahhh!!!! pão.
- isso, pan!

mais ou menos como aquele espisódio do seinfeld.

tem um episódio do seinfeld em que o carinha que servia do outro lado do balcão era, digamos, ranzinza. o soup nazi. e, mesmo assim, o fera tinha filas que escorriam pelas ruas e dobravam esquinas com a mesma facilidade que uma criança ainda sem coordenação motora dobra um canudo de plástico. a sopa era boa. muito boa. por isso, o pessoal no episódio segurava a onda e a vontade de mandar o soup nazi dar meia hora de bunda, e esperava por sua vez de pedir a tal sopa. bom, aqui em lisboa tem um lugar parecido. com o mesmo esqueminha. a comida é boa para cacete e quem atende não é assim o cara mais gente boa do mundo. mas a comida é muito boa. daquelas que você levar a sua mãe para comer assim que ela pousar em lisboa. para começar, nunca, nunca chegue na porta do restaurante sozinho e diga que é uma mesa para quatro. ele vai mandar você a merda. só peça a mesa quando todos estiverem alinhados lado a lado na porta do restaurante. bom, sua mesa está pronta? prepare-se para dividí-la com um casal ou outros 4 estranhos. o lugar é pequeno então não tem essa de mesa separada, privacidade e tal. não é o lugar para ir com uma mulher no segundo encontro. ou mesmo no último encontro, quando um dos dois quer falar algo mais sério. mas a comida é fucking fuckers. então você continua a frequentar a bagáça. não tem jeito. você sentou, decida o que vai comer rápido. não fique punhetando ou o carinha que serve, vai te acertar com raios laser que solta pelos olhos. foco meu amigo. muito foco e calma. não coloque casacos ou mochilas atrás das cadeiras ou o carinha vai ficar puto. "tá atrapalhando a circulação de pessoas caráio!" algo do genêro ele vai falar e vai pegar o seu casaco e pendurar num cabide bem improvisado. mas mesmo assim você vai continuar comendo lá e recomendando. peça uma cerveja. assim: "uma cerveja!" não peça uma cerveja gelada que ele pode te olhar com ódio como quem diz: "você acha que a gente tem como costume servir cerveja quente seu fêla da pulta?" as porções são fred flintstonianas. e o preço honesto. o lugar tem poucas janelas. é quente pra caráio. mas da entrada a sobremesa fode com a sua cabeça. o nome da bagáça? cantinho do bem estar. ficar perto da praça de camões numa subida ao lado da loja da diesel. num esqueminha mais escondido que a bat-caverna. cantinho do bem estar. pessoal mau humorado. comida boa. mais ou menos como aquele episódio do seinfeld.

pequenos diálogos em lisboa. 1

dia desses no ônibus uma mulher se vira para mim e inicia um diálogo:

- as horas, por favor?!
- sete e meia (da noite)
- putz tô atrasada!... e que dia da semana é hoje?
- terça-feira.
- terça?! caráio achei que era quarta!

ou seja: a muié tava atrasada e adiantada ao mesmo tempo.

terça-feira, julho 31, 2007

quente. quente pra cacete. pourra, quente pra caráio.

imagine acordar com o termômetro marcando 42º. e isso, vale ressaltar, é o termômetro do alarme digital fucking fuckers makers que está ao lado da cama. quarenta e dois graus. não estou falando daqueles relógios digitais que também marcam temperaturas nas esquinas mais movimentadas de são paulo. aqueles relógios variam uns oito graus de esquina para esquina. não fodi. bom, mas voltemos aos 42º dentro do meu quarto. para ser sincero, por alguns instantes, juro que achei que a pourra da casa estava pegando fogo. pensei nos incêndios florestais que se alastram por portugal durante o verão. pensei numa cerveja gelada. mas me lembrei que ainda eram nove da manhã. sai de casa em câmera lenta. o caminho que antes levava 15 minutos para fazer, esse fim de semana levou quase uma hora. anda, pára. anda, pára. anda, copo d'água. anda, respira, gatorade. anda, se apoia. anda, comenta como a camisa está ensopada de suor. anda começa a delirar. anda e pensa como você daria seis ziguilhões de dólares por um ar-condicionado. no dia seguinte, um domingo, a temperatura atingiu 43º. quase não me lembro do domingo. o domingo é uma grande sauna a vapor na minha memória. dizem, que agosto costuma ser assim. agosto inteiro. que os restaurantes fecham. que todos saem de férias. que as florestas pegam fogo. que algumas pessoas pegam fogo ao caminhar sem boné nas ruas. é só o começo. se eu pudesse dar duas dicas para um candidato a primeiro ministro português eu teria a solução para uma votação recorde. provavelmente o primeiro primeiro ministro eleito com 100% dos votos. uma plataforma de governo baseada em duas idéias. a primeira delas: havaianas. isso, havaianas. uma lei obrigaria todas as pessoas, todos os 11 milhões de habitantes de portugal a usar havaianas durante o verão . o fêla da pulta que quebrar o esquema e usar um sapato de couro durante o verão, é fuzilado em praça pública.a outra idéia: escadas rolantes. isso, escadas rolantes por lisboa inteira. simples."e a saúde candidato? a educação? a segurança? a divída pública? o que o senhor tem a dizer sobre isso para os seus eleitores?" e a resposta do candidato seria sempre a mesma:"havaianas e escadas rolantes!" recorde de votação. capa da the economist. busto de bronze folheado a ouro na avenida da liberdade. petição nacional para adicionar a cara do ministro naquela montanha americana--o mount rushmore-- que tem a cara dos outros presidentes americanos. imagine acordar com o termômetro marcando 42º. dentro de casa.

quinta-feira, julho 26, 2007

"dez da manhã? já?! não fódi! e a pourra do alarme? já sei, o lionel richie fodeu tudo outra vez!"

não sei como você acorda pela manhã. tem gente que acorda com o celular. o telemóvel. tem gente ainda que acorda com o nada. acorda sem nada. simplesmente abre os olhos na hora certa. trabalhei com um dupla assim. eu falava: "cara, vê então se coloca o alarme mais cedo amanhã para gente adiantar esse trabalho. eu também faço o mesmo." e ele ficava calado e logo depois dizia: "beleza." e eu perguntei uma vez: "que caráio, você tava fazendo? pensando se tinha algum compromisso amanhã seis e meia da manhã?" e ele: "não, armando o alarme." e eu: "cuma?" e ele:"é, é só eu pensar que tenho que acordar amanhã mais cedo que acontece." tá bem, o papo não foi assim. mas foi quase. o cara acordava sem nada. eu, bom, eu acordo com radio. com música. sintonizo numa rádio x e pimba. no dia seguinte uma música geralmente me solta um tapa nos olhos. ok, ok. soltava um tapa. é, porque aqui em portugal, quase todas as rádios que eu já tentei colocar no alarme, tocam músicas românticas. lentas. slow motion.clássica. já perdi a hora umas vinte vezes. ameaço abrir os olhos e o lionel richie me joga de volta para o travesseiro. o olho esquerdo abre e o rod stewart fecha o fêla da pulta. o olho direito treme e o richard clayderman massacra o piano até você entrar num leve estado de coma. não sei não. isso tá me parecendo um truque, um esquema da oposição. foder com a produtividade do país. quanto mais as pessoas demoram para acordar. menos se produz. quanto menos se produz, mais se pode culpar o governo que está no poder. sugestão. você é do governo ou conhece alguém que conhece alguém? lance hoje mesmo uma rádio heavy metal que só toca nas manhãs dos dias uteis. ou, você está procurando um plano b? um esqueminha para investir uma grana? monte esta rádio heavy metal você mesmo. é pá pum. é índice de popularidade do governo de volta na ascendente e dinheiro no bolso na certa.

os multi-homem e os restaurantes família.

aqui em lisboa o que eu mais vejo são tiozinhos donos de restaurantes que executam as mesmas quatro funções: recepcionista, garçom, cozinheiro e o carinha do caixa.bom, e quando não é assim. se trata de um restaurante extremamente família. o carinha da recepção e do caixa é o pai/marido. a chef da cozinha e assistente da cozinha é a mesma mulher, a mãe/esposa. e a garçonete é a filha. tem um lado bom e um lado ruim. o lado bom: o dinheiro todo fica com a família, não é preciso dividir com nenhum sócio. o lado ruim: você não leva trabalho para casa. você leva a casa para o trabalho. os multi-homem e os restaurantes família.

quarta-feira, julho 25, 2007

dez pratos do dia. não um, não dois. dez.

todo e qualquer restaurante no brasil e no mundo tem lá o seu prato do dia. dois no máximo. isso é comum. o que não é comum, é quantidade de pratos do dia aqui de portugal. são sempre, pelo menos uns dez. isso, dez pratos do dia. um cardápio inteiro por dia. mais é claro, as outras páginas fixas do cardápio. não entendo. acho que todos os donos de tascas e restaurantes daqui de lisboa deveriam marcar uma reunião e chegar a um acordo. "quem quer focar? optar por apenas 2 pratos por dia? levanta a mão! vâmo lá nuno, pedro, zé! caráio, levantem a mão peloamordedeus!" só assim, o trabalho dos caras vai ficar mais fácil. porque quando eu digo "prato do dia" não estou falando de strogonoff e spaguetti carbonara. não, é uma caráiada de pratos complicados: "bacalhau a brás com arroz de tomate", por exemplo. com esse esquema de mais de dez pratos por dia deve estar havendo um desperdício do caceta nas cozinhas portuguesas. e mais: garanto que os caras estão tendo que dormir um tanto mais tarde todos os dias para fazer um prato de terça que não seja igual ao de segunda ou de quinta passada. e, para ser sincero, apesar de lisonjeado com a quantidade de opções, sempre me fodo. sempre preciso de uns sete minutos para chegar a qualquer tipo de conclusão. são muitas opções, muitas opções gostosas para um sujeito que ainda está conhecendo a cozinha dos feras. e detalhe, se você entra numas de pedir um prato que não esteja na extensa lista de pratos do dia, fodeu geral. mas geral mesmo. o garçom enche os olhos de lágrimas grossas. o cozinheiro tem princípio de infarto. afinal, você está fudeindo com o esqueminha deles. são outros ingredientes. outro prato que vai disputar uma boca do fogão. é engraçado. é curioso. é saboroso. mas seu eu fosse um deles marcava uma reunião com os outros hoje mesmo.

terça-feira, julho 24, 2007

pensamentos do dia.

quando você esquece de pagar a conta do gás e a água quente do seu chuveiro é a gás, é o mesmo que se você tivesse esquecido de pagar a conta de água.

a cerveja sagres-mini realmente fica gelada por mais tempo já que você termina ela antes que esquente. o foda é que todo aquele timing que você demorou uma vida inteira para aperfeiçoar-- de quanto tempo demora para uma cerveja ficar tinindo de gelada no freezer-- vai pro caralho. já perdi umas 4 mini sagres congeladas no freezer.

o "bom dia portugal," um programa que passa pela manhã aqui, sempre me fódi o horário. no brasil, o bom dia brasil acabava oito da manhã em ponto. era começar a ana maria braga para correr pro trabalho. aqui a pourra do programa vai até quase 10 da manhã. e não tem a ana maria braga pra fazer você ficar sem ar e correr. foda.

dia desses entrei numa tasca e pedi um prego, um sanduba de carne. um x-filé. bom, eu perguntei pro fera do outro lado do balcão: "e aí? quanto custa?" ele ficou olhando para minha cara um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete segundos e quando ameaçou falar um número que começava com "dois euros e..." ele parou, abriu o sanduíche, colocou mais uma fatia de queijo e disse, desta vez rapidamente: "três. três euros."

quinta-feira, julho 19, 2007

o seu jaime e uma teoria sobre a diferença entre o "seu fulano" e "sir fulano"-- parte 2

mas voltemos ao que fez dele "seu". seu jaime. dia desses, encostado no balcão, pesquei uma conversa dele com o andré peixoto que trabalha comigo e tem um fígado de aço. seu jaime disse que ia tirar férias. apontou com as sobrancelhas uma foto presa na parede que fica de frente para o balcão em que ele passa quase 10 horas por dia servindo ginja. seu jaime ia tirar férias ali, naquela foto. um vilarejo daqueles que você conhece de histórias da branca de neve e tal. puta negócio bonito. umas vinte e duas casinhas fincadas num vale. o que me fez lembrar daquele filme "collateral" com o tom cruise e o jamie foxx. o tom cruise era um assassino que pegava um taxi com o jamie foxx dirigindo. aquele filme em que o jamie foxx tinha uma foto de uma ilha no quebra sol do taxi. sabe? então, aquela foto movia ele. era ela que incentivava o jamie foxx dirigir aquele taxi com o tom cruise grisalho com uma arma na mão. bom, o mesmo acontece aqui. com o esqueminha do seu jaime. aquela foto do outro lado do balcão é o que incentiva o seu jaime. ele serve dez ginjas e olha na foto. olha para o relógi, vê que já é madrugada, e olha para a foto. puxa papo, conversa, serve chopp também, e olha para a foto. aquela vila que eu não sabia que existia é o que faz do seu jaime merecedor do títulos de "seu", seu jaime. a vida do seu jaime que existe naquela foto é a história ,a bagagem que fez ele merecedor do título. na inglaterra os "sir", você pode notar, são quase que exclusivos de multi biliardários, artistas e tal. o 'seu' não, o 'seu' é muito mais foda ganhar. só ganha "seu" pessoas assim. que alimentam o início da noite de milhares de portugueses e turistas. e que tem uma foto como a do seu jaime, estratégicamente colada na altura da visão, do outro lado do balcão. gente bacana como seu jaime. os 'seu' e os 'sir'. o sir vira sir quando a rainha quer e bate com a espada no ombro do fera, sir richard branson. já o seu, não. "seu" só vira seu com o tempo. seu não tem essa putaria da rainha da inglaterra. "seu" é quando o povo quer. os 'seu' são foda. se você quiser conhecer um "seu", visite a ginjinha do seu jaime. no chiado. não abre segunda-feira e três semanas por ano. como você já sabe, ele planeja essas férias o ano inteiro. a noite inteira. a cada ginjinha servida. grande seu jaime.

o seu jaime e uma teoria sobre a diferença entre o "seu fulano" e "sir fulano"-- parte 1

como todo lugar do mundo, portugal também tem os "seus...", "seu miguel", "seu manoel", "seu zé." geralmente quando você conhece uma pessoa que tem o "seu..." antes do nome, essa pessoa, obrigatoriamente, tem algum tipo de história. tem alguma bagagem. alguma coisa que fez ele ganhar este "seu". é como os "sir" da grã bretanha. sir paul mccartney, por exemplo, era compositor da maior banda da história. então, virou sir paul. o "seu" é uma espécie de sir, dos mortais. de pessoas que frequentam o seu dia a dia. gente que você encontra no elevador. gente que serve você no restaurante. o seu antônio pode ser facilmente uma pessoa que trabalhava na sua escola e era o único que sabia onde ficava a chave do armário em que se guardavam as bolas de futebol. bom, aqui em lisboa encontrei um "seu", muito bacana. o seu jaime. seu jaime tem um bar que serve ginja no bairro alto. ele é responsável pelo consumo de grande parte das ginjas consumidas no bairro alto. na verdade, tecnicamente, o bar do seu jaime não fica no bairro alto, fica no chiado, mas é perto. é lá que começam muitas noites que vão acabar nas ruas mais acima, do bairro alto. o bar do seu jaime é um bar pequeno, bem localizado. mas bem pequeno. com um balcão que cabe duas pessoas atrás. o seu jaime e a sua mulher. ele serve dois tipos de ginja, meia e inteira. a meia custa 1 euro. a inteira 1 e 50. seu jaime importa ginja de óbidos, uma cidadezinha perto daqui. seu jaime faz sucesso. fala baixo, esboça pequenos sorrisos e respeita a ordem de chegada no balcão.

terça-feira, julho 17, 2007

o portunhol. ou porque e impossivel aprender a falar o espanhol.

passei 48 horas entre portugal e espanha esse fim de semana. me perdi pra cacete. se em são paulo, cidade que eu morava já há 8 anos eu me perdia, aqui eu só me fodo. bom, o que nos leva ao assunto deste textinho. o portunhol. perdido num vilarejo daqueles com um único café e uma só grande avenida cercada de terra batida, achei a única alma viva da cidade e pedi ajuda. mandei um português, devagar, lentamente, e nada. o senhor olhava para a minha cara como quem olhava para o jar jar binks no primeiro episódio da nova safra de guerra nas estrelas. tentei portunhol, nada. tentei carregar mais no portunhol e nada. foram três minutos que pareceram horas. apontei para o mapa. ele apontou no horizonte e lá fui eu. esta cena se repetiu umas trinta e duas vezes nesses últimos dois dias. o espanhol é simpático, gente boa, esboça sorrisos com facilidade. mas uma coisa que é comum em todos os espanhóis: eles não falam portunhol. o que, no início, não dá para entender. "caráio, eu estou falando espanhol, como é que esse fêla da pulta não está me entendendo? ele só pode estar de sacanagem." mas portunhol não é espanhol. bastou ligar a tv do hotel para entender isto 100%. não entendi picas do programa de entrevistas que passava na tv. nada. 0,2%. quando eu era mais moleque, fiz um curso de espanhol. eu achava que aprendia, o professor achava que ensinava. ele também falava portunhol. todo e qualquer brasileiro que acha que fala espanhol, ou que pelo menos arranha, está enganado. ninguém fala. fala o portunhol. é que, todo brasileiro entende o espanhol. por algum motivo, nosso cérebro consegue compensar uma ou outra palavra numa frase inteira de espanhol-- fazendo que a gente entenda. pelo menos uns 70% do que foi falado. e é por isso que não conseguimos aprender a língua. temos vícios do português. e o nosso cérebro, ele novamente, fica com uma puta preguiça quando descobre que as duas línguas são muito parecidas. fica com uma preguiça fudida quando descobre que dá para enrolar aperfeiçoando algumas entonações e movimentos de língua. quando descobre o portunhol. resultado, alguns poucos brasileiros, uns dois ou três, e só, de um universo de 180 milhões, conseguem falar espanhol. o resto não. bom, o resto é mestre de portunhol. o resto se perde 32 vezes numa viagem que era para durar 4 horas e meia e acaba durando 7 horas. e, quando encontra um espanhol, metralha perguntas em portunhol. o espanhol não entende picas. você não entende picas de como ele não está endendendo você. e os dois ficam alí, um olhando para o outro se perguntando: "mas que caráio de idioma este filhodaputa está falando?"

quinta-feira, julho 12, 2007

o otorrino.

dia desses fui num otorrino. gente boa o cara. investiga a garganta. dá uma espiada nos ouvidos. e foca no nariz. nas narinas. luz, mini binóculo olhando lá dentro da bagáça. um emprego, digamos, diferente. "amor, como é que foi o seu dia hoje?" e a única coisa que o cara consegue se lembrar são as narinas, ou melhor, o buraco das narinas e dos ouvidos das pessoas. e ele fica ali, cara fechada, sem saber ao certo o que falar. otorrino é um médico que não reconhece os pacientes na rua. exemplo: você está comendo com a sua mulher e entra o otorrino com a família. se você acenar para o fera, ele não vai entender picas. não vai saber do que se trata. agora, se você inclinar a cabeça para trás e puxar um fio de cabelo dos nariz, aí ele vai reconhecer. vai fazer a maior festa. vai apresentar a família e vai comentar com a mulher depois: "o erick é realmente um nariz muito simpático!" "os ouvidos dele também são bacanas e tal, mas as narinas dele conversam mais. são mais simpáticas. falando nisso, acho que conheço aquele par de orelhas daquela mesa ao lado. otorrino na praia também dever ser engraçado. dois amigos otorrinos: "você viu aquelas narinas que passaram?" "nosssssa, se vi, você notou a cartilagem da ponta?" e por aí vai. não sei, também fico imaginando o dia que esse cara decidiu: "eu vou dedicar a minha vida inteira ao nariz." dia desses fui num otorrino.um emprego curioso.

caramel apple vanila crumble.

não sei quem foi o filhodaputa que inventou. é um sabor novo de sorvete da haagen dazs. caramel apple vanila crumble. se você ler o nome dele em voz alta três vezes começa a babar. fico imaginando o carinha numa sala sentado de frente para um computador: "apple pie. hmmm, não, apple pie não. e se fosse "apple vanila sensation? também não, tá faltando sonoridade. sonoridade é isso que está faltando. caramel apple vanila crumble! aposto que logo logo vai ter um brasileiro babando por essa pourra."

terça-feira, julho 10, 2007

o aquecimento global e o ben& jerry's

acho, só acho. que os caras do ben & jerry's foram instruídos pela matriz americana a servir as bolas de sorvete com um certo ar de superioridade. a temperatura subiu? não fodi, sirva o sorvete como se fosse uma das últimas coisas geladas que restam no mundo. fica o cara ali, atrás do balcão com aqueles barris de sorvete entre você e ele. e ele é claro, o único com acesso a pourra do sorvete. e você, bom, você derretendo do outro lado. o aquecimento global te fudeindo. e ele com todo o poder do mundo. e é assim que o fêla te trata. não trata mal. trata com um certo ar de fodalhão da esquina. com um certo ar de "aquecimento global é foda né?" "o sorvete tá gelado, sabia? e só eu posso servir para você!" o aquecimento global e o ben& jerry's

o keanu reeves pilotando o ônibus 58.

lembra do speed- velocidade máxima? lembra como é que o keanu reeves pilotava o ônibus? sempre acima de 100 km por hora ou aquela pourra explodia? tem um motorista que pilota o ônibus 58 que assiste esse filme todos os dias. sabe todos os diálogos de cor. mas sabe principalmente cada curva mal feita pelo keanu reeves. sabe que o keanu reeves não parava no sinal vermelho e que ele gostava de fazer curvas bem fechadas para derrubar o pessoal do ônibus. ou pelos menos esta é a impressão que se tem. só pode ser. ou isso, ou o tal motorista é um tarado fêla da pulta. não são todos. acho que é um só. digamos de um universo de uns vinte e tal motoristas, tem um keanu reeves do speed. hoje cai em cima de uma velhinha. semana passada quase derrubei um tiozinho. fico esperando, torcendo, quase que diariamente para que o fêla alugue um outro filme do keanu reeves. alguma comédia romântica. dessas em que ele pilota um carro conversível em câmera lenta com uma mulher ao lado. se ele não alugar eu alugo pra ele. não fódi.

domingo, julho 08, 2007

o melhor bolo de chocolate do mundo.

e quando eu digo o melhor, não é uma opinião minha. é o nome do lugar. é, o cara, o chef, o cozinheiro que inventou o tal bolo chegou a conclusão que em nenhum outro lugar do planeta terra se faz um bolo similar ao dele. portanto, aquele que ele vende, é, obrigatoriamente, o melhor bolo de chocolate do mundo. dia desses, com uma pitada de curiosidade e duas pitadas de fome, fui experimentar. fui até lá. pedi uma fatia do melhor bolo de chocolate do mundo. assim mesmo: "eu gostaria de uma fatia do melhor bolo de chocolate do mundo, por favor." e o carinha do outro lado do balcão, com o cuidado de quem segura uma jóia preciosa feita com diamantes encontrados no centro da terra, partiu uma fatia para mim. ele entregou o prato para mim como se segurasse um dispositivo com nitroglicerina. com cuidado. com muita calma. prendendo a respiração. ele não queria que nenhuma lasca de chocolate se desprendesse do topo da fatia. peguei o prato ansioso. puxei uma cadeira, agarrei o garfo e pimba, tasquei uma dentada no bolo. eu não sei se é o melhor bolo do mundo. tecnicamente para fazer uma afirmação dessas eu teria que experimentar todos. mas, como não existe essa possibilidade-- vamos dizer que é bom pra cacete. muito bom. nota 11,5. daqueles que depois da primeira garfada você começa a comer lentamente com medo que acabe. e, ao mesmo tempo come rápido porque é muito gostoso. olhei para o fêla do outro lado do balcão e perguntei se aquela receita existia em algum lugar. ele riu da minha cara. ok, ok, ele não riu. apenas educamente disse: "é, hmmmm, não." o melhor bolo de chocolate do mundo fica numa esquina em campo de ourique na R. Coelho da Rocha, 99 | Tel.: 21 396 53 72
não é massudo. não economiza nos ingredientes. e não divulga a receita.

quinta-feira, julho 05, 2007

o brasserie. (2)

o restaurante do cardápio de uma só linha me deu uma idéia. os caras só vendem filé fritas? eu vou vender mousse de chocolate. vou fazer o restaurante de uma só sobremesa. mousse de chocolate. vou alugar o imóvel ao lado. porta com porta. e vou fisgar todo mundo que sair com a pança cheia de filé com fritas da porra do brasserie. deu certo pros caras. vai dar certo pra mim. um cardápio de uma só linha. uma só linha no verso. sobremesa. mousse de chocolate. não fódi.

o gerúndio morreu.

quando você chega em portugal, a primeira coisa que nota é que o gerúndio morreu. o taxista não fala: “estou te levando para o hotel pelo túnel.” ele fala “estou a levar você para o hotel pelo túnel.”não sei quando foi. não sei se é desde sempre. mas todo os dias o meu gerúndio vai morrendo. uma morte lenta. não falo mais “estou ligando para o _____!” falo “estou a ligar para o ______!” fico a imaginar, não imaginando, se um dia o governo baixou um decreto proibindo o gerúndio. ninguém toca no assunto. ninguém fala do gerúndio. só sei que o filho da puta morreu. taí, a primeira coisa que eu vou fazer quando terminar de escrever este textinho é ligar para o serviço de atendimento do meu banco. quero ver como a muié do s.a.c. fala. “

terça-feira, julho 03, 2007

o nintendo wii ou a academia. você escolhe.

academia? nintendo wii? academia? nintendo wii? bom, na hora da decisão, optei pelo wii. pensei: comprando o wii eu tenho uma academia de ginástica mais o wii. não sei se você já jogou o nintendo wii, mas a bagáça é impressionante. tênis, por exemplo. você faz um backhand com o controle sem fio e o carinha na tela faz um backhand. você rebate na paralela do lado de cá da tela e do lado de lá, o cara imita. dia desses por exemplo, joguei uns trinta e dois games seguidos. é difícil parar. é necessário tocar o telefone de alguém de bem longe como o seu pai ou sua mãe para forçar você a desligar a pourra do jogo. ou tem que faltar luz. ou a sua mulher tem que tacar fogo no sofá. ou despejar uma garrafa de cerveja sobre você. o wii tem esse problema. esse porem. não vem com um aviso que alerta você dos perigos. ou melhor do perigo de você nunca mais largar o controle. ele até avisa do perigo do controle soltar da sua mão por acidente. mas não fala nada do fato de que você vai abandonar tudo e qualquer coisa para jogar a caráia do jogo. o lado bom da história é que você acaba se exercitando. para jogar, você, obrigatoriamente precisa correr e gesticular com o controle. para cima e para baixo. para um lado e para o outro. fica com a subáca moiada. o braço doendo. uma leve taquicardia. e um pulmão vacilante. por isso é que faz todo o sentido optar em comprar o wii no lugar de pagar três meses de academia. faz todo o sentido. pelo menos foi o que eu fiz. depois de consumir quilos de bacalhau. arroz de camarão. arroz de peixe. pão com chouriço. pão afogado no azeite. falando em azeite, colheres cheias de azeite. bom, depois de passar quase dois meses numa experiência gastrônomica sem qualquer precedente em qualquer guia turístico, e isso inclui o guia michelin-- tive que pensar no peso e no colesterol. e foi aí, no momento em que a pourra da calça jeans ameaçou me deixar na mão que eu me encontrei na encruzilhada da primeira linha deste texto. academia? nintendo wii?

quinta-feira, junho 28, 2007

você apertou o botão do ponto, não fode.

o pessoal daqui leva a sério o esquema de transporte público. eu, que pego o auto-carro, o ônibus, todos os dias-- sinto que tem um negócio, uma lei silenciosa que se você quebrar, leva um cascudo. uma porrada na base da nuca dos tiozinhos que estão nos ônibus. a lei é a seguinte: "apertou o botãozinho para pular no ponto, tem que pular." não importa se você errou, e o seu ponto é na verdade o próximo. apertou, pulou. como não conheço lisboa direito, volta e meia erro o ponto. e volta e meia olho para dentro do ônibus com uma cara de coitados como quem diz: "gente, eu errei, esse não é o meu ponto, é o próximo. alivia aí. não me forcem a saltar..." mas todos olham com uma cara muito específica como se gritassem: "a lei é única e é para todos: "apertou, pulou". e lá vou eu caminhando até o meu ponto sob o olhar impiedoso dos passageiros do ônibus. o pessoal daqui leva a sério o esquema de transporte público.

anedotas de ginja (2)

dia desses, com uma ginja na mão subi as escadas que davam para a casa de banho, o banheiro, de um bar. as escadas deste banheiro em particular são as mais íngremes da história do universo mundial. quase noventa graus. não, é um esqueminha de noventa graus. bom, lá fui eu subir as escadas com um copo de ginja na mão. beleza. na boa. tranquilo. o problema foi a descida. a volta. com um copo de ginja na mão, eu tinha que escolher: segurar no corrimão da escada dos dois lados ou segurar de um só lado e levar o copo de ginja com todo o carinho e importância que ele merece. fui com o copo na mão, o que acabou me levando para baixo muito mais rápido do que eu planejava. a gravidade é foda. funciona. um degrau quase molhado me fez escorregar. não estava bêbado. não. era a primeira ginja. resumo da história: acordei com o cotovelo inchado quase quebrado. moral da história: ginja é bom, acordar com o cotovelo muito inchado não. ou: ginja é tão bom que você se sujeita a ser, por alguns segundos, a atração do bar. ou: quem foi o fêla da pulta que deixou o degrau molhado.

terça-feira, junho 26, 2007

você economiza com a passagem e se fode com as ligações.

tem um negócio que eu descobri aqui em portugal. a passagem de avião para aqui não é lá essas coisas. é cara mas não destrói o orçamento. não é porque vocie comprou duas passagens de avião para lisboa que vai deixar de comer. são tantos brasileiros comprando passagens com o dólar barato que o preço está bem ok. mas o governo português arrumou um jeito de compensar a economia. o pib do país. se de um lado as cia. aéreas estão lucrando menos, as empresas de telefone estão jogando dinheiro em câmera lenta para cima. depois de um mês ligando para o brasil. falando e falando e falando. me fodi. vou ter que pagar a conta de telefone em 26 vezes sem juros. é cara para cacete. fico imaginando alguém num palacete qualquer do governo puxando esta conversa: "ô ministro ... você já notou como os brasileiros estão pagando pouco pelas passagens aéreas? tá fodeindo com o produto interno bruto! você não acha que poderíamos fazer alguma coisa? sei lá, para aliviar o buraco? equilibrar as finanças?" e o ministro na maior calma responde: "você tem toda razão, fode eles na conta de telefone!" mas isso você só descobre quando chega a primeira conta. vai por mim. segura a onda na conversa.

o brasserie e o cardápio de uma só linha.

aqui em lisboa, pertinho do trabalho existe um restaurante curioso. o cardápio tem uma só linha. o dono é das pessoas mais inteligentes que existem. ele só serve um prato: carne tenra e macia com batatas fritas. é, o fêla da pulta arrumou um esquema fantástico em que ele serve apenas o prato com menor rejeição do universo: filé com fritas. e cobra uma grana. o brasserie não é daqueles lugares que você opta para comer ao invés do mcdonald's. não o brasserie tem o preço um tantinho salgado. mas vale a pena. vale muito a pena. vai ser bom assim na casa do caráio. tem que ser bom. não há hipotese alguma de ser mais ou menos. uma cozinha socada com cozinheiros sob o comando de um chefe fazendo filé com fritas tem que dar certo. o cardápio de uma só linha é uma das maiores invenções que eu já vi. terminei o meu prato lá no brasserie com uma pontinha de inveja. queria ter pensando nisso antes.

quinta-feira, junho 21, 2007

anedotas de ginja. (1)

dia desses entrei com um pessoal aqui da firma num bar e pedimos uma dose de ginja* para cada. a mulher educadamente disse: "dois e cinquenta por dose." somamos o número de pessoas com o preço que acabara de ser revelado e todos chegaram a conclusão que com aquele dinheiro poderíamos comprar um pacote turístico para a malásia. troca de olhares. troca de olhares. troca de olhares. ela finalmente cedeu e disse: "vocês já tentaram na esquina?" e lá para a esquina fomos todos. bom, e lá na esquina a dose custava 1/3 do preço. moral da história: "quando ela quer beber, a mocinha do bar só bebe no bar da esquina." ou "ela tinha acabado de levar um esporro do dono do bar e quis foder ele." ou "ela é a pessoa mais gentil e honesta do mundo." ou "ela é dona dos dois." ou "quando você entra num bar com nove pessoas e pede um licor, toda e qualquer mocinha de trás do balcão é instruida pelo dono a mandar os fêla da pulta para outro bar com receio de bagunça." ou "ela estava com preguiça de lavar os copos."

* ginja é um licor português feito com o fruto da ginja. que, pelo o que eu entendi, é prima bem próxima, quase irmã, da cereja.

o noobai. ah, o noobai.

o noobai café não tem nada fucking fuckers no cardápio. é uma comida honesta. sanduíches, um prato do dia que você não vai recordar no dia seguinte ao certo qual era , uma entrada bacana e uma cerveja estupidamente gelada. a comida não é o que separa o noobai café de todo e qualquer restaurante, bar e similares de lisboa. o que faz do noobai café merecedor de três estrelas no guia michelin é a vista. a impressão que se tem quando você está sentado bebericando um chopp é que o sujeito que fundou o noobai acordava muito cedo. e, como tinha esse costume, chegou antes que todo mundo-- para pegar aquele cantinho de lisboa. é difícil explicar como é vista. dependendo do horário, é difícil conseguir um lugar para ver a vista. o noobai fica alí, no adamastor. não faz reserva. se o pátio estiver cheio, valei sentar dentro e ficar espiando, olhando. no momento que alguém ameaçar levantar, você corre. mas corre mesmo. o estiramento muscular que você vai ter vale a pena. o mico de alguns segundos que você vai pagar, vale a pena. não fique pensando coisas como: "putz, eu, um marmanjo, vou ficar correndo pelo pátio do restaurante atrás de uma mesa." é claro que você também pode chegar cedo. e sair tarde. o noobai é um daqueles restaurantes/bares que você recomenda para meio mundo. e quando alguém pergunta o que é bom lá, você pensa, pensa, pensa e não se lembra. mas, por um motivo óbvio nunca esquece de recomendar.

terça-feira, junho 19, 2007

o cão cagão sagrado de lisboa.

a índia tem lá suas vacas sagradas. se você quiser levar um tapa na fuça é só entrar num restaurante e pedir um bife, um steak, uma carne suculenta. bom, as vacas são sagradas lá. aqui não. quem é sagrado aqui é o cão. o cachorro. o melhor amigo do homem. explico. os lisboetas não pegam o cocô dos seus queridos cães. neste aspecto lisboa se encontra em 1990 e poucos. acho que foi por aí que ainda se via a caca dos cachorros com liberdade total no brasil. chega a ser estranho. é preciso ter jogo de cintura, ginga. é, não é fácil driblar o cocô dos cachorros de lisboa. acho, só acho que seria possível se eleger prefeito da cidade com uma única plataforma. "vote no erick. ele vai acabar com o cocô dos cachorros!" votação recorde. quem sabe no futuro. é claro que isso não é uma regra. o serginho e a aline, casal nota 11 que reside aqui-- bem, os dois sempre carregam alguns sacos plásticos extras no bolso para não deixar na rua o que o igualmente sagrado "lolo" faz. o lolo, uma mistura genial de labrador com "salsicha" é gente fina, faz e fica ao lado esperando os donos limparem. mas acho, e tenho quase absoluta certeza que são os únicos. fico imaginando os cachorros conversando aí no brasil ou em qualquer outra parte do mundo: "e aí, o que você vai fazer nessas férias? acho que vou ficar aqui em são paulo, mas eu sonho mesmo é viajar para lisboa!" e o outro: "ah, lisboa, uma das poucas metrópoles do mundo em que ainda se pode fazer um cocô em plena luz do dia sem se preocupar! é meu sonho de consumo também!" se existisse uma agência de viagens para cachorros, lisboa seria paris e hawaii, juntos. um paraíso. não sei como é que vão resolver essa parada. ninguém comenta. ninguém reclama. as vezes acho que todos estão acostumados. eu não, olho feio para as tiazinhas na rua. tento inserir o assunto em conversas de bar, sempre que possível. e fico meio que esperando, ou como diriam os portugueses, a esperar alguém me contar uma história de um cão sagrado de lisboa que salvou alguém no grande terromoto de 1755. e que, desde então ganhou este status. de cão cagão. e que passou para seus semelhantes esta liberdade, de fazer as necessidades nas ruas lisboetas sem preocupação. deve ser. só pode ser.

sexta-feira, junho 15, 2007

duelos 2. a revanche e o golpe baixo.

ontem a caminho de casa, algumas horas após ter escrito sobre os duelos, me encontrei no meio de um. de um duelo. na hora lembrei que tinha escrito sobre os duelos e quase comentei com a tiazinha que estava na minha frente, mas ela ia achar um tiquinho estranho. por isso, mantive a calma, respirei fundo e não me mexi. queria uma revanche.queria ganhar um duelo pelo direito de seguir em frente sem ser escorraçado para a rua. pela manhã já tinha perdido um duelo. no almoço, outro. então, o sol estava se pondo (no verão a caráia do sol só desce depois de 8 e tra lá lá.)enio morricone conduzia a trilha sonora na minha cabeça. a tiazinha olhava nos meus olhos. e eu, nos olhos da fêla. e nada dela se mover. nada dela ameaçar qualquer movimento. um, dois, seis, quase oito segundos se passaram. oito segundos que quando você está olhando para uma tiazinha cara a cara num canto de calçada em portugal-- são como uns três meses. o tempo não passava. e foi aí que eu parti para a ignorância. não, não ameacei partir para cima da tiazinha. não. agachei para amarrar o tênis. tomei conta da calçada inteira. e ela, teve que me contornar pela rua. um golpe perfeito. a amarrada no tênis. se você estiver aqui em lisboa, use esta estratégia. mas não use bastante. use com moderação. se espalhar, ninguém mais acredita e vai teimar em esperar. ganhei um duelo. com golpe baixo, mas ganhei.

quinta-feira, junho 14, 2007

os duelos.

portugal é o país com as menores calçadas do mundo. não de extensão, de largura mesmo. cabe uma só pessoa por vez. são calçadas de mão única. o que significa que toda vez que você sai de casa tem que, obrigatoriamente disputar duelos. duelos com senhoras. duelos com senhores. duelos com crianças. duelos com cachorros. funciona mais ou menos assim: você está de um lado da calçada a caminho do trabalho e do outro lado vem uma tiazinha agarrada com as compras. é ela ou você. um dos dois tem que gentilmente dar um passo para fora da calçada e deixar o outro passar. é como aquela clássica cena do footloose em que o kevin bacon fica em cima do trator e duela com o namorado da muié que ele tá tentando pegar que também está em cima do trator. o primeiro que pulasse fora, perdia. no filme o kevin bacon ganha. mas aqui não tem isso. é meio no chute. não existe um código de conduta. não existe uma tabela que explique como você deve se portar. ninguém diz se os velhinhos têm preferência sobre os mais jovens. é sempre em cima da hora. sempre no último segundo. no último instante. é quase emocionante. e quase sempre rola colisões. já quase derrubei velhinhas. já quase levei esporro. já levei umas olhadas de cima para baixo e de baixo para cima. mas olhando assim o lado positivo da história, uma ida para o trabalho pode ser muito mais emocionante. você não vai simplesmente para o trabalho. vai participar de um duelo com uma senhora. vai desafiar um moleque e seu labrador. vai tentar ficar mais tempo sobre a calçada. vai tentar não ceder. e vai chegar no trabalho com a estranha sensação de que foi jogado por uma velhinha para fora da calçada e que convenceu um senhor com apenas a força de um olhar que era mais sensato ele parar, entrar na rua por um segundo e deixar você passar. portugal é o país com as menores calçadas do mundo. não de extensão, de largura mesmo. cabe uma só pessoa por vez.

terça-feira, junho 12, 2007

os dedinhos roxos de campo de ourique.

em campo de ourique, no bairro que eu moro aqui em lisboa, tem uns três médio mercados. uns quatro pequenos. um cem muito pequenos. mas quem mora lá acaba sempre fazendo as compras nesses médios. não são os supermercados 24 horas. mas quebram um galhão. eles têm de tudo. e são eles, os médio mercados que criaram um fenômeno em campo de ourique. os dedinhos roxos. os dedinhos roxos de campo de ourique. o que são eles? bom, campo de ourique passa a impressão de ser um bairro bem pequeno. mas não é lá assim tão pequeno. os prédios não passam de três andares. a maioria têm dois. as ruas são estreitas e nunca passa mais do que um carro de cada vez. e, como você cisma que as coisas em um bairro pequeno são próximas-- acaba se fodendo quando sai para fazer compras. é, você sai de casa com uma lista de quatro itens na cabeça: detergente, coca-cola, pão e fósforos. nada mais. nada menos. mas aí você chega no mercadinho e começa a namorar as guloseimas das prateleiras e pensa: “ah, campo de ourique é tão pequeno, é tudo tão perto, não tem nenhum problema levar mais coisas para casa. os sacos de compras vão estar pesados, mas é rapidinho.” mas nada é tão perto assim. é tudo impressão. o que seria um quarteirão na sua cabeça, são três. e você volta pra casa com sacos de plástico pesados agarrados nas pontas dos dedos. sacos que a cada passo dão voltas de 360º, apertando cada vez mais os seus dedos. que vão ficando, primeiro vermelhos, depois roxos. e foi depois de passar por essa experiência que eu comecei a notar o tal fenômeno. todo mundo. as tiazinhas. as senhoras. os mais velhos e os mais jovens. todos perambulam pelas ruas de campo de ourique com os dedinhos roxos. sacos de compras pesados. dedinhos frágeis. um bairro um tanto maior do que aparenta. os dedinhos roxos de campo de ourique.

sexta-feira, junho 08, 2007

seu domingos.

não conheço o “seu domingos” para tratar ele assim-- com essa intimidade. mas é assim que ele se apresenta. seu domingos. sem frescuras. sem formalidades. o “seu” que precede o “domingos” já permite você entrar no restaurante dele com a impressão que frequenta o lugar desde quando ele era apenas domingos. o restaurante fica perto da praia do meco. não tem um luminoso na frente. as letrinhas pintadas numa tímida placa de madeira parecem ter sido obra do próprio seu domingos entre uma porção e outra de mariscos. mariscos, pequenos, médios e grandes. salada de ovas, de polvo, de lula, e caracóis. chopp gelado. pão fresco. imagine um balcão de madeira com um sujeito com os cabelos grisalhos penteados bem rente—atrás deste mesmo balcão. com uma camisa social com as mangas dobradas, as costeletas aparadas e um poster do sporting sobre a cabeça. este é o seu domingos. que desliza de um lado para o outro atendendo pedidos. na verdade ele finge que atende os pedidos. o que o seu domingos faz é distribuir a comida que pula do mar para a panela e da panela para as prateleiras que estão atrás dele. “marisco! quem pediu!?” e um sujeito olha pra os mariscos, olha para o seu domingos. o sujeito finge que pediu mariscos e o seu domingos finge que sabe que ele pediu mariscos. e, numa operação que flui com uma impressionante improvisação, as pessoas voltam para as mesas abraçadas a algum prato. qualquer prato. isso pode acontecer num restaurante em que todos os pratos, todos, são bons. ninguém reclama. ninguém briga. você convence o seu domingos com os olhos que aquela salada de polvo que acaba de sair é sua e ele te dá. o sujeito que disputa um espaço no balcão com você-- olha com uma cara de coitado e você cede a salada de polvo pra ele. e volta pra mesa com uma porção de lulas. tudo isso no meio de gritos, pedidos, chopps e mesas apinhadas de gente com areia da praia entre os dedos dos pés a espera de qualquer prato. horas depois, você mesmo limpa a mesa. você mesmo se encarrega de anotar o que a mesa consumiu. comenta, de passagem, com o seu domingos o que comeu e ele aponta com o canto da cabeça pra você pagar para mulher dele. o seu domingos é daqueles lugares que textinhos, relatos como esse não fazem justiça. é preciso ir. e ir de novo. mas vale sempre lembrar que o seu domingos, apesar do nome e de estar pertinho, pertinho da praia, bem, o seu domingos, não abre nunca aos domingos.

quarta-feira, junho 06, 2007

secretos de porco preto. 2.

hoje estava lá eu comendo pela segunda vez o tal secretos de porco preto. o filé do filé dos suínos. a mestre master fucking fuckers worldwide intergaláctica dos porcos. a manteiga em forma de carne. o entupidor de artérias número 1. ah, os secretos de porco preto. bom, e, pela segunda vez, olhei para o lado, e com a boca cheia comentei com o andré peixinho peixoto, grande expert da gastronomia portuguesa: “não fódi, vai ser bom assim na casa do caráio!” e ele, também de boca cheia, respondeu: “se você acha tão bom mesmo, talvez deveria escrever novamente sobre ele no seu blógui."

terça-feira, junho 05, 2007

o fado. que caráio é o fado?

o fado é uma música típica portuguesa. metade turismo, metade tradição. você não escuta o fado em qualquer esquina. é triste pra cacete. bastam dois minutos escutando fado para você chorar copiosamente. sem saber porque. sem entender porque caráio uma tristeza indescritível faz você cuspir lágrimas grossas e pesadas pelos cantos dos olhos. fico imaginando como deve ser a vida de um sujeito ou de uma mulher que escreve letras e arranjos de fado. o cara deve ser no mínimo cafuzo da cabeça. aquela imagem que quase todo mundo tem que o fado faz parte do dia a dia em portugal não é lá assim verdadeira. o fado existe, mas você tem que fuçar um pouquinho. e, se você entrar numas de escutar fado-- freqüentar um restaurante que, entre o prato principal e a sobremesa, serve uma dança ao vivo com fado tocando no sistema de som do lugar, se prepare. não é que você vai chorar. não. você vai no mínimo remoer alguma memória bem mais ou menos. vai pensar na derrota da seleção para a frança na copa de 2006 e 98, para a argentina em 90. vai lembrar o dia que você descobriu que papai noel não existe. alguma coisa. fado é foda. dia desses coloquei o alarme sem querer numa estação que tocava fado, pulei da cama em três segundos. fiquei, de repente, triste de estar desperdiçando segundos da minha manhã de segunda. fica aqui uma sugestão. se você resolveu viajar para portugal para esquecer um namoro que não deu certo, fuja do fado. agora, se você quer acordar cedo, aproveitar cada segundo do dia. compre um alarme daqueles sony sound fucking makers e coloque numa estação tipo “fado hits 24 hours”. ah, e sabe aquela pessoa que pede sempre uma encomenda escrota? tipo, alguma coisa grande e pesada que vai foder com o seu retorno para o seu país de origem? compre um cd de fado de presente. diga que a tv de 56 polegadas que ele ou ela queria não ia caber na mala, mas você trouxe com todo o carinho do mundo, um cd duplo de fado.

sexta-feira, junho 01, 2007

secretos de porco preto. uma teoria.

secretos de porco preto. nome curioso. o porco tem que ser o tal porco preto e secretos, pelo o que eu entendi são partes nobres, bem escondidas do porco. e o nome é curioso porque até ontem a porra do prato era um segredo de estado. não conhecia, nunca tinha visto num cardápio. trocadilhos a parte, essa caráia deste prato estava escondida num cardápio de um restaurante português que também se escondia num beco aqui perto da firma. um segredo. e acho que entendi porque escondem esse prato. acho. é uma teoria simples. que não foi auditada pela price water coopers. a teoria é que os lisboetas escondem de nós turistas. servem bacalhau. servem mariscos. servem camarões graúdos. mas escondem o tal secretos do porco. e foi assim, nesse esconde esconde no cardápio que o prato ganhou esse nome. é bom pra caralho. tiras de porco das mais saborosas da história. imagina aquela costela de porco que deixa os dedos lambuzados de banha. bom, agora imagine só a carne da costela, mas de umas dez costelas. essa carne toda lado a lado formando um bife de porco. não confundir com lombinho. não, é uma carne bem macia, gordurosa, saborosa. o filé do porco. não, é o filé do filé. sabe quando você vai a um restaurante de carnes argentino e o garçom hermano te diz que a carne do dia é um corte especial do centro da alcatra nobre da coxa dianteira do boi? é mais ou menos por aí. secretos de porco preto é o kobe beef dos suínos. um negócio tão bom que os portugueses não querem dividir com os turistas. mas foram dar esse nome irônico. carregado de sarcasmo. descobri a pourra do segredo. e como você pode ver pelo texto que acaba de ler, estou dividindo com você.

quinta-feira, maio 31, 2007

o plano do couvert português.

sempre tive uma relação de amor e ódio com couvert de restaurante. se de um lado a pourra do couvert mata a fome quando seu estômago mais ronca— também fódi com o apetite das pessoas. você foi até o restaurante comer o tal ojo del bife argentino e acaba matando a fome com lascas de pão mergulhadas nas bolinhas de manteiga. outra coisa também é que o couvert invariavelmente infla qualquer conta. quantas pessoas estão na mesa? então multiplica esse número por 5,90. não tem jeito, se não o apetite, o couvert acaba fodendo o seu bolso. aqui em portugal o couvert é diferente. tem o mesmo pão. as mesmas manteigas. os mesmos patês e queijinhos. de longe é idêntico. mas quando chega a conta é que você vê a diferença. aqui se cobra pela unidade. tinham três pães no cesto e quatro potinhos de manteiga? bom, mas você só meteu a mão em dois pães? e abriu apenas um pote de manteiga? ah, meu amigo, então é isso que você vai pagar pelo couvert. dois pães e um pote de manteiga, discriminados na conta. se em um outro restaurante você optar por ficar brincando com o mini-queijo, e der um gelo no pão... você paga apenas pelo mini-queijo. nada mais justo. nada mais democrático. se em são paulo a facada do couvert era daquelas facas gigantes usadas para fatiar peças de alcatra, a daqui é daquelas de passar manteiga e sem serra. o plano do couvert português é sensacional. tenho certeza que se tivesse no brasil algo similar, você se sentiria menos trouxa. menos forçado a socar a pança com pães, “eu tô pagando couvert então foda-se, vou comer todos os pães de queijo do restaurante! vou foder esses caras.” mas não, quando você é forçado a pagar uma grana pelo couvert e come para se vingar, está é estragando o seu jantar. aqui o couvert tem o tamanho e o preço que você bem entender.não sei qual é a relação que você tem com couvert de restaurante. mas se estiver em portugal,pode ser uma relação bem flexível.

terça-feira, maio 29, 2007

o intervalo do cinema. ou "pára tudo, pára o beijo, o pôr do sol, a perseguição implacável... que a gente volta em cinco minutinhos..."

em alguns lugares aqui em lisboa, cinema tem intervalo. cinco, três minutos. no momento em que o mocinho está prestes a beijar a mocinha. é, aqui, as vezes, o detetive tem que puxar o freio de mão do carro que está perseguindo pelas ladeiras de são francisco? no brasil não existe. e se acontecer algo parecido as pessoas gritam para o rapaz atrás do projetor, gesticulam, chamam o gerente. fazem tudo, menos sair para fumar um cigarro. o intervalo no meio das sessões de cinema é curioso. a primeira vez fui apanhado de surpresa, entrei sem ver a faixa que avisava a pausa do filme presa no cartaz. levei um susto. não um susto alfred hitchcock, um susto daqueles que você tem quando falta a luz em casa. neste caso, a luz veio. acenderam-se as luzes do cinema. e como ninguém reclamou, ninguém xingou, ninguém correu para a saída de emergência mais próxima, fiquei tranquilo. minutos depois, o filme continou e todos viveram felizes para sempre. acho que o intervalo nos cinemas daqui têm um lado bom. um só. que não está ligado a um segundo balde de pipoca. um lado muito bom. porque, se no brasil eu passava o filme ouvindo o casal de trás conversar e só podia olhar na cara deles no final do filme. o intervalo do cinema permite um duelo. uma troca de olhares. uma quase ameaça. o intervalo do cinema é perfeito para acabar com pessoas que falam. acendem-se as luzes e tudo que você precisa fazer é virar-se para trás e olhar como quem diz: “eu sei que são vocês que estão falando. e se vocês continuarem, no final do filme voltaremos a conversar.” silêncio total prossegue tal troca de olhares. é inevitável. principalmente quando o filme que corre pela tela é o de algum serial killer cuja identidade nunca foi identificada pela polícia.

sexta-feira, maio 25, 2007

moedas que valem mais que notas no brasil.

no brasil eu sempre tive alergia a moedas. não me entenda errado. gosto de dinheiro. nunca destratei um centavo. mas as moedas escorriam do meu bolso para a bolsa da minha mulher. chegava em casa e colocava as moedas sobre a mesinha da cozinha. nunca tive uma carteira que tivesse aquele mini bolsinho para carregar moedas. no brasil, com moedas, você compra chiclete, assim no singular. mas aí, bom, aí chegando aqui eu me deparo com as moedas de euro. a de 50 centavos, a de 1 euro e a de 2. a de 2 euros é a fucking fuckers master das moedas. a imperadora intergaláctica das moedas. a darth vader das moedas. vai valer assim na casa do caralho. e o foda é que eu demoro pra acostumar. sempre me fodo. sempre esqueço moedas no fundo da mochila. nos bolsos das calças. já deixei uma vez sobre a mesa de um restaurante. era um puta troco fudido. e nem me toquei. com pressa de pegar o cinema, vi de longe umas moedas se aproximar e pensei "ué, moedas, vou deixar pro fera que atendeu a gente!" deixei uns 30% de gorjeta. uma conta de 14 euros, 4 euros de gorjeta. moeda aqui é foda. tenho medo delas. quando compro um jornal, uma bala, um café-- e vejo que vou receber moedas de 1 ou 2 euros-- corro para a carteira e tento fazer alguma matemática que possa me ajudar numa troca por uma nota de papel. aprender a lidar com as moedas vem do dia-a-dia, é costume. ainda vou perder muito dinheiro aqui. dia desses retornei para o tal restaurante da gorjeta de 30% e o mesmo garçom quase brigou com uma tiazinha para me atender. neste dia ele atendia uma outra parte do restaurante. discutiu com a tiazinha. queria porque queria atender a minha mesa. a tiazinha não entendeu nada. mas nada mesmo. afinal, naquele dia eu já estava mais íntimo das moedas e de seus respectivos valores. naquele dia, ela deve ter recebido uma das piores gorjetas da sua vida. ficou puta com o tiozinho e comigo. nessa ordem. culpa das moedas. que como o título deste textinho diz, valem mais do que notas no brasil.

quarta-feira, maio 23, 2007

os abutres do ponto de ônibus. ou quando você fica com a saca cheia e pega um taxi.

o sistema de autocarro, de ônibus em lisboa é sensacional. mas as vezes, as vezes, demora um tiquinho mais do que o comum. a noite principalmente, o serviço funciona de 20 em 20 minutos ao invés dos 10 em 10 da parte da manhã. zuzo bem, é só ser um tiquinho paciente. mas é aí, é nessa hora que os abutres atacam os pontos de ônibus. quando você está cansado do trabalho. quando tudo que você quer é chegar em casa e mergulhar o rosto no prato de pataniscas de bacalhau. quando você está contando os minutos para assistir mais um episódio de algum programa que você não sabe o nome, mas tem aquele ator que era amigo do forrest gump. é nessa hora que os taxistas começam a circular pelos pontos de ônibus. eles passam devagarzinho. olham para o ponto, dão uma bocejada para você fazer o mesmo e seguem em frente. mas muitos, muitos mesmo seguem em frente com um novo passageiro no banco de trás. um passageiro que estava ali no ponto. um plano interessante, curioso, marvado. os taxistas, os abutres se juntaram num belo dia e bolaram esse plano: "e se a gente, com o pôr do sol, passasse a circular lentamente pelos pontos de ônibus da cidade para pegar lisboetas e turistas. tiozinhos cansados. jovens esfomeados. abutres. fêlas. já fui vítima desse plano algumas vezes. um dia, com fome estava lá encostado no ponto quando passou um taxista que tinha em uma de suas mãos, um sanduíche que escorria queijo pelas beiradas.ele deu uma baita mordida e olhou fundo nos meus olhos. pulei em cima do capô do carro dele. cheguei em casa e montei um sanduíche idêntico. ele me deu a receita. o truque do bocejo também é infalível. o taxista passa lentamente e solta um bocejo. você boceja de volta e uma pequena parte do seu cérebro grita: "ôpa, que sono hein fera! vâmo pegar esse taxi e chegar mais cedo em casa pra cair debaixo das cobertas?!" nesse eu já caí umas três vezes. o serviço de autocarros daqui é fantástico, mas os abutres do ponto de ônibus podem atacar a qualquer hora. moral da história: tenha sempre, sempre 5 mangos no bolso da calça. deixe de almoçar, mas não gaste esses 5 mangos. como você já sabe, os abutres estão sempre por perto. e você, sempre longe de casa.

colaboração de sergio lobo. que numa quarta-feira friorenta apontou para um taxista que se aproximava do ponto de ônibus e disse: "esses taxistas são foda, desaceleram quando passam na frente do ponto só para tentar a gente."

segunda-feira, maio 21, 2007

o porto e o necaxa.

o porto foi campeão português. mas você tem que fuçar nos jornais para descobrir os detalhes do jogo. isso, porque quem mora em lisboa odeia o f.c. porto. se você começar uma frase com "o time do porto...", é melhor terminar com um palavrão. não se fala do porto aqui. não se comenta. depois do jogo ontem, não escutei uma só buzina nas ruas. nenhum grito de campeão. é como se não existisse a última rodada do campeonato português. quem nasce em lisboa é benfica. acho que é por lei. não se pode discutir, tem que aceitar e adorar o benfica. a sensação que eu tive aqui é a seguinte: é como se eu estivesse morando em são paulo, e, o título de campeão brasileiro tivesse ficado com o necaxa do méxico. com um timinho de um lugar longe. que ninguém sabe a pourra da escalação. ou finge que não sabe. é mais ou menos assim.

abril, chuvas mil. maio, decide caráio.

"abril, chuvas mil!" assim que eu cheguei em portugal era o que eu mais escutava. e corria da chuva e as pessoas falavam a tal expressão. saía da escada rolante do metro sob um cortina de água e um português resmungava: "abirl, chuvas mil." enquanto assistia a previsão do tempo no bom dia, liboa na tv... era só o tiozinho da previsão falar que seria uma segunda-feira chuvosa para o âncora do programa tampar o microfone e falar: "abril, chuvas mil!" faz sentido. em abril, aqui chove. chove muito. chove mil vezes mais do que o normal. a tal expressão também tem uma coisa boa a seu favor, a rima. é fácil de lembrar e auto-explicativa. bom, resumindo, curti a expressão e já sei o que esperar de abril. nunca vou ser pego de surpresa. mas chegou maio. como o calendário insiste, uma hora abril tem que acabar, não tem jeito. o que nos leva ao tema, ao título, ao assunto deste textinho: maio. é, porque se abril, é "abril, chuvas mil." maio, bom, maio é "decide caráio." maio, decide caráio. mais uma vez, maio, decide caráio. explico. este sábado que passou, trinta e três graus. sol. asfalto se desfazendo. senhoras se abanando encostadas nos muros. filas nas sorveterias. aí chega o domingo, doze graus. treze talvez. não mais que isso. e uma chuva fina que fatiava toda e qualquer vontade de sair de casa. de se mover.guarda-chuva saiu da mochila. o casaco mais grosso saiu do cabide. e a máquina de café trabalhou overtime, trabalhou duro. e essa putaria se repete dia sim, dia não. semana sim, semana não. reza a lenda que esse vai ser o verão mais quente de todos os dias. junho vem com tudo. armado pra acabar com a indecisão crônica de maio. nesses nove dias que restam de maio vou divulgar a minha teoria, a minha expressão. quem sabe, quem sabe, ano que vem se você chegar aqui em lisboa nessa época, em maio você não escuta uma nova expressão. ao sair do metro, ao lado de um português todo encasacado-- quando um sol de 38 pegar ele de frente-- ele vai olhar para o lado e vai resmungar... "maio, decide caráio!"

quinta-feira, maio 17, 2007

o vinho de 4 euros e o fígado rosado.

não entendo picas de vinho. sei mais ou menos a diferença entre um tipo de uva e outro. quando tomo um vinho que eu curti, volto a pedir o mesmo. sei que um "sangue de boi", aqueles vinhos em garrafas de 20 litros com aquele trançado de palha ao redor da garrafa não é um bordeaux. sei o basicão. sei evitar uma dor de cabeça na manhã seguinte. já assisti o documentário mondovino e o filme sideways. nunca bochechei vinho e cuspi no copo para comentar do sabor aveludado e dos tons de tanino. quebro um galho. o que nos leva ao tema desse textinho: o vinho de 4 euros. entre 2,99 e 6,99. na média, 4 mangos, 4 euros. os mesmos vinhos que eu comprava no brasil, em são paulo, e que lá custavam entre 30 e 50 reais, aqui custam 4 euros. simples assim. varia um euro para cima. um euro para baixo. se você tem um fígado daqueles rosados, saudáveis, o seu lugar é aqui. pra tomar taças cheias no almoço, taças que transbordam no jantar. com a casa que eu aluguei, veio de brinde um rack daqueles de guardar vinhos. tudo aqui conspira para você colaborar com o aumento do consumo per capita de vinho dos portugueses. existem vários motivos para o preço dos vinhos beirar os 4 euros. portugal é o maior produtor intergalático de cortiça para rolhas de garrafas de vinho. proporcionalmente pelo tamanho da área que ocupa no mapa-mundi, é um dos maiores produtores de vinho, o que continua depois do jantar, com o vinho do porto. se você curte vinhos. se carrega na bolsa um recorte de jornal com alguma notícia de algum estudo que diz que vinho faz bem para o coração—visite portugal. passe uma, duas semanas por aqui. aproveite o clima. aproveite a açorda de gambas. mas aproveite, principalmente, o vinho de 4 euros.

terça-feira, maio 15, 2007

9.7 de cada 10 portugueses fumam.

isto é um fato. você vai trabalhar e volta para casa com a impressão que veio da boate. você vai almoçar e volta para casa cheirando a despedida de soleteiro. você vai jantar e volta defumado. você se torna um fumante. eu devo fumar uns dois cigarros por dia sem querer. fácil. e aí você pergunta, “mas erick, os cigarros daí não têm aqueles adesivos com foto de pulmão carvão, dentes podres?” não, os cigarros daqui têm um adesivo gigante que diz “fumar mata!” fonte grande. daquelas que se pode ler a distância. os portugueses fumam pra cacete. quando o metrô ameaça chegar na estação, basta olhar para o lado para ver um monte de gente já com um cigarro sambando preso nos lábios. e, segundos depois, a escada rolante fica parecendo um show do U2 durante ‘with or withou you”. uma caráiada de isqueiros pipocam acendendo os cigarros. dependendo da música que está tocando no sistema de som do metrô, dá até vontade de chorar. de emoção, não da fumaça nos olhos. o dia que proibirem o cigarro nos bares ou restaurantes aqui, esse país pega fogo. é, porque pelo o que eu notei aqui, todos os restaurantes são divididos em “fumantes para caralho” e “fumo apenas 3 cigarros por refeição”. e não sei se a combinação de doses cavalares de azeite, vinho e caminhadas pelas ladeiras da cidade, mas todos aparentam estar com a saúde perfeita. impressionante. 9.7 de cada 10 portugueses fumam. e um dia você vai trabalhar e volta para casa pensando alguma história na cabeça caso a sua mulher não acredite que você estava mesmo trabalhando – e não na noitada mais selvagem de lisboa.