quinta-feira, setembro 10, 2009

as primeiras colunas do destak. 2

A chegada, o taxista , o Cristiano Ronaldo e a primeira coluna.

O avião aterra. Mala. Mala. Passaporte. Carimbo. Um, dois, três minutos na fila do táxi e chega a minha vez. E, é só chegar o táxi para descobrir uma coisa, que você só entende quando gagueja para o taxista um endereço que não existe. Os taxistas em Lisboa não sorriem com facilidade. Não são mal humorados. Não me entenda errado. Eles são sérios. E foi já nesse meu primeiro taxi ao chegar a Lisboa que aprendi um truque. Um truque que deveria ser ensinado em escolas de turismo e repetido pelas caixas de som do avião pela hospedeira antes do avião pousar. Um truque simples. Repita comigo: "E o Cristiano Ronaldo, hein, caro taxista!?" Assim com a exclamação e a interrogação. Você entra no taxi, erra o endereço, a pronúncia ou os dois. O taxista fulmina-o pelo retrovisor. Aí, bem, aí você abre um sorriso e, de um jeito humilde fala, no formato de pergunta: "E o Cristiano Ronaldo, hein, caro taxista!?" Você conquista o cara. Ele responde com orgulho. Mostra dentes, mostra pontos turísticos pela janela. E fala do Ronaldo quando ainda jogava no Sporting. Fala como ele está a conquistar o mundo. Você é tratado como um rei. Vá por mim. É um truque simples e que funciona sempre. Mas não custa praticar um bocadinho. Você deve perguntar com um tom que indique que você quer a opinião do taxista sobre o Cristiano Ronaldo, e ao mesmo tempo deve deixar claro que está ciente que se trata de um génio ímpar do futebol. Bom, esse foi meu primeiro dia em Lisboa. O primeiro taxi. A primeira coluna no Destak

as primeiras colunas do destak. 1

O Eléctrico 28 e o Michael J. Fox.

Viajar para o espaço: 20 milhões de Euros. Viajar no tempo: 1,30 Euros. Explico. Um dia destes, com um guia na mão e um mapa mal dobrado no bolso lá estava eu a planear os pontos turísticos que iria visitar. Era um Domingo. Melhor, era um Domingo de sol. Melhor ainda, era um Domingo de sol sem nuvens no céu. Bom, e enquanto os meus dedos vagueavam pelas páginas do guia, vi crescer no horizonte o eléctrico 28. O que no Brasil chamamos de bondinho. Sem saber, estava a dois passos do ponto de partida do 28E. Em Campo de Ourique. Sentei à janela. com o dedo indicador nervoso agarrado no botão de disparo da câmara. Uma viagem no tempo. Cada curva. Cada subida. Cada descida. Tudo cheira a mil oitocentos e tra lá lá. Senti-me na pele do Michael J. Fox. O eléctrico 28 é uma espécie de Delorean, aquele carro que carregava o actor pelo tempo nos filmes. O motorista acelera e quando o eléctrico consegue vencer a lombada da subida, pimba, você está numa parte mais moderna da cidade. Ele faz uma curva e você se vê de frente para uma ruela que não se encontra em nenhum guia. Chega um ponto e turistas entram. Quase nenhum sai. E todos partem juntos para o final apoteótico. Como nos filmes protagonizados pelo Michael J. Fox. O motorista pisa fundo. Acelera até atingir o ponto que permite a derradeira e emocionante viagem no tempo. Num piscar de olhos você deixa a cidade e chega a Alfama. Chega à porta do Castelo. E assim como no cinema, você sai a coçar a cabeça e pensar: "tenho que ver esse negócio mais uma vez."

terça-feira, setembro 08, 2009

os erros dele.


ele chegou tarde em casa.
chegou cheirando a cigarro.
chegou com bafo de cerveja e vodca.
duas bebidas, que quando misturadas por ele-- causavam estragos.

ela então colou as narinas na nuca dele. ou melhor naquele espaço atrás do ouvido.
entre o cabelo e as costas do ouvido e respirou fundo.
sim, ele ainda tinha cheiro de sabonete palmolive.
o palmolive era a prova que ela precisava.
ele não precisava dizer que amava ela. ou inventar desculpas.
cheiro de palmolive verde provava que não havia acontecido qualquer transferência de aroma.

ela sabia, que qualquer contato com uma outra mulher. qualquer rala e rola e aqueles traços de palmolive já não estariam lá.

até porque-- foi assim que eles se conheceram.

a imaginação deles.

lá fora-- o condomínio inteiro a espera dela para ver ela de biquini.
todos os meninos que a idolatravam com a roupa da aula de educação física.
e todas as meninas que a invejavam com a roupa da aula de educação física.
(mais cedo, quando ainda era dia-- ela entrou correndo, quando todos prestavam atenção no salto acrobático do filipe-- e por lá ficou.)

enquanto você lê isto aqui-- ela continua lá. dentro d'água.
ela, a reputação dela e muito mais importante: a imaginação de uns oito moleques do prédio dela.

a crise e as fotos.

"sorria!'-- disse ela.
"nem fudendo, acabei de perder mais 120.000 reais na bolsa!"-- disse ele.

segunda-feira, setembro 07, 2009

a camiseta... esgotada

* eram 12 no total.
4 foram dadas para quem ajudou a fazer.
vendemos 8.

valeu!

agora é esperar o véio, também conhecido como renato, desenhar outras.

sexta-feira, setembro 04, 2009

a camiseta.

o véio, também conhecido como renato lopes, além de meu dupla aqui na leo-- é um ilustrador fucking fuckers. esse novo header aí em cima é autoria dele.
bom, e o véio além de ter sido bem gente fina para criar o cabeçalho novo-- fez-- junto com o jr e o franca aqui da agência, umas camisetas do bigode molhado.

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100% algodão. disponível nos tamanhos P/M/G.

modelo masculino e feminino.

o preço: 15 Euros + postagem.

para encomendar a sua, escreva para o email: erickdois@yahoo.com.br




quinta-feira, setembro 03, 2009

inga & arthur


eles se conheceram num chat num site de encontros na internet.

na primeira vez que se falaram online-- ele entrou e disse que tinha um metro e oitenta, um físico em forma, falava três línguas, trabalhava em um banco de investimentos e era artista plástico nas horas vagas. johan, disse ele ser o seu nome. descentende de alemães por parte de pai. e canadense por parte de mãe.

ela disse que tinha um metro e cinquenta e dois, estava acima do peso, trabalhava num call center, ainda não tinha tirado o diploma do curso intensivo de inglês mas que estava a caminho. acrescentou ainda que apreciava ir ao cinema, principalmente comédias românticas com a sandra bullock. disse que seu nome era maria.

depois de meses online, marcaram um encontro.

ele, descobriu que ela era uma mulher de quase um metro e oitenta, com cabelos castanhos lisos e longos.com o corpo perfeito e com seios quase fartos, enfim, linda. falava com um leve sotaque dinamarquês-- pois a dinamarca era a sua terra natal. e que o nome dela era inga.

ela, descobriu que ele tinha um metro e sessenta exatos. estava um pouco acima do peso. era um pouco calvo e no momento trabalhava numa oficina mecânica especializada em tunning de carros. e que o nome dele era arthur, como na história do rei.

ele descobriu que ela havia mentido para afastar pessoas interessadas apenas na aparência física dela. problema que sempre atrapalhou sua vida amorosa. e ela descobriu que ele havia mentido porque era inseguro sobre a sua aparência física. problema que sempre atrapalhou a sua vida amorosa.

ela descobriu que estava apaixonada pelo homem que achava que estava apaixonado pela gordinha baixinha do call center fã da sandra bullock-- e viveram felizes para sempre.

terça-feira, setembro 01, 2009

coisas de casais.

casal mais velho conversa. ela tem 62 e ele 69. ela larga o corpo sobre o sofá e puxa uma conversa:
- plínio?
- diz.
- você sabe que eu tenho um amante, não sabe?
- sim. sei.
- e porque não faz nada sobre isso?
- ana, você sabe, não sabe-- que eu também tenho uma amante?

- sei.
- [silêncio]
- você não tem curiosidade para saber porque eu nunca deixei você sabendo que você tem uma amante, e por eu também ter um amante?
- o meu penne all 'arrabbiata.
- e porque você nunca me deixou, já que você tem uma amante e eu...
- ninguém sabe aparar os cabelos da minha orelha como você.
-[silêncio]
-[silêncio]
-[silêncio]
- tá com fome?

o filtro solar.


ele contou para a mulher que estava numa reunião de negócios.
o filtro solar fator 60 que ele comprou no free-shop, também.

o identificador de chamadas.

ela não tirava o olho do identificador de chamadas do telefone da sala de casa.
foi pela sala que ela chegou e pela sala ela ficou as próximas vinte e sete horas. ela e o telefone.
ao seu lado uma sacola de compras da c&a ainda com todas as roupas dentro.
a sua frente, além do telefone, uma garrafa de martini bianco e um copo desses que vem de brinde ao comprar a garrafa-- cheio.
o sexto cigarro queimava na direção do indicador e do dedo médio dela quando o telefone tocou. pelo identificador ela viu que era o seu pai. não era ele. a pessoa que ela havia conhecido no bar, no happy hour do dia anterior. o identificador de chamadas não mente. disso ela tinha certeza. e foi ali, ao lado do telefone que ela acordou na manhã seguinte. com a mesma roupa do dia anterior, um maço vazio e um gosto de nada na boca. quando o relógio marcou oito, ela levantou-se e foi para o trabalho.

ela não contava para ninguém, mas estava viciada no identificador de chamadas. é, não era a voz do outro lado que ela aguardava ansiosa. mas a luz azul piscante com o número de alguém que ela havia conhecido recentemente. a luz piscante com número do pai, do irmão, essa não tinha graça. mas a luz piscante com número de um sujeito que ela conheceu em algum lugar e ela-- mesmo se fazendo de difícil, conseguiu que o cara ligasse-- isso deixava ela completamente louca. ela também nunca contou para ninguém que a razão pela qual seus relacionamentos eram breves, era exatamente essa. o identificador de chamadas. quando um sujeito se transformava em namorado, o número estava decorado, e ansiedade e emoção do indentificador de chamadas se diluia.

hoje um pessoal do trabalho convidou ela para sair. ela disse que tinha um compromisso. passou no mercado, comprou milho para pipoca. fez a pipoca, vestiu algo confortável e passou a noite assistindo a luz do identificador de chamada piscando. as vezes com emoção. as vezes não. o seu programa favorito.

quinta-feira, agosto 27, 2009

a madeleine peyroux


- pequena? o que é que você sente por mim?
- carinho.
- amor?
- não, carinho.
- mas você não me ama?
- carinho, sinto carinho por você.
- mas amor, daqueles de filme, tórrido, de último capítulo de novela, paixão... não?
- isso não.
- mas...
- carinho é melhor.
- como assim?
- paixão é inflamável, finito, poderia ser medida em mililitros, centímetros cúbicos.
- e carinho?
- carinho é atemporal. sobrevive calendários, distância, a falta de dinheiro, idade, sobrevive tudo. carinho é ingenuo e sincero.
- paixão não?
- paixão é sexo no elevador, mordida desmedida e briga escandalosa de ciúmes de algo que não faz sentido. carinho é sexo numa quarta-feira chuvosa de férias com meia garrafa de vinho ainda por tomar na cabeceira da cama e-- madeleine peyroux tocando no som do quarto-- baixinho.
- madeleine peyroux?
- madeleine peyroux.
- cantando a versão dela de "river" da joni mitchell?
- pode ser.

de pai para filho.


o pai se aproxima do filho de 16 anos, coloca a mão no ombro dele e inicia uma conversa.
- filho?
- oi pai.
- eu queria dividir uma coisa com você...
- claro.
- um segredo. uma lição. o segredo da felicidade.
- o segredo da felicidade?
- algo que o meu pai contou para mim quando eu tinha a sua idade. e o seu bisavó contou para ele quando ele...
- ...tinha a minha idade.
- isso.
- é algo que você deverá guardar para sempre e contar para o seu filho quando ele tiver a sua idade. e fazer ele prometer que terá a mesma conversa com o filho dele... quando chegar a hora.
- por favor pai. me conte.
- essa sabedoria pode mudar muita coisa na sua vida. é a chave da felicidade. a chave.
- por favor...
- ok...
- (ele respira fundo, aperta o ombro do filho enquanto começa a falar, solta o ar e começa) nunca fale para uma mulher que ela está gorda quando ela perguntar para você. seja forte. resista a tentação de ser sincero, se este for o caso, se a mulher que perguntar-- estiver 5, 10, 15 kilos acima do peso, não dê um pio. sorria e diga que não. se ela estiver 500 gramas acima do peso, resista comentários. qualquer um. mas treine isso na frente do espelho. treine a partir de hoje. você precisa parecer sincero. precisa parecer humano. se você não treinar, ela nota.
- quem?
- todas elas. treine. treine. treine. nunca, nunca fale para uma mulher que ela está gorda.
- mas... mas... esse é o segredo?
- esse é o segredo. pode parecer pouco. pode parecer uma bosta. mas vá por mim. essa pergunta será repetida milhares de vezes na sua vida adulta. e um dia, o cérebro cede e finalmente diz o que pensa.
- e...
- e aí meu filho, a sua vida nunca mais será a mesma.
- [silêncio]
- [silêncio]
- obrigado pai.
- de nada.

ferris.

ela tirou a bateria do laptop.
cancelou a conta no twitter, no blogger e no facebook.
colocou um daqueles avisos automáticos no email "estou de férias..."
desligou o celular.
disse para a família que iria para a neve. foi para a praia.
comprou um filtro solar 45.
todos os 37 livros que sempre quis ler na vida mas nunca teve tempo.
tatuou uma frase em latim no braço esquerdo que não sabia o significado, mas esteticamente, achava linda.

e pensar que ela devia tudo ao matthew broderick.

sim, porque um dia-- na sessão da tarde, enquanto almoçava-- ela, acidentalmente assistiu pela primeira vez o filme "ferris bueller's day off".

naquele dia, ela não voltou para o trabalho, como costumava fazer sempre após o almoço-- tirou a bateria do laptop, cancelou a conta no twitter, no blogger e no facebook...

19:28

ele entra no taxi correndo-- com uma valise preta em uma das mãos e grita para o taxista:
- senhor! siga aquele trânsito!!

quarta-feira, agosto 26, 2009

rsvp

ela atende o celular depois do quinto toque. do outro lado da linha, uma voz nervosa:
- patrícia?
- pedro? oi. diz...
- você não deveria estar na igreja agora? ao meu lado?!
- como?
- é hoje! agora!! o seu casamento!!! o nosso casamento!!!!
- [silêncio]
- a igreja está lotada!! e a recepção?! os meus avós, vieram da polônia, cacete!!!
- [silêncio]
- patrícia!!!?
- eu não r.s.v.p.
- como?!
- paixão, não tinha um número de telemóvel para ligar-- no verso do convite-- e confirmar a presença?!!
- oi?!
- aquele número daquela mulher que ajudou a organizar o casamento, que as pessoas tinham que ligar para confirmar que estariam presente. sabe? e que ajudaria a contabilizar a comida, a bebida...
- e?
- não liguei. não r.s.v.p.

terça-feira, agosto 25, 2009

ana & astolfo



terceira série. 1990 e tal. a professora, com um caderno pautado em uma das mãos, grita enquanto dá mordidas pequenas em um bolo ana maria.

- ana?
- presente!!
- antônio?
- presente!!
- astolfo?
- presente!!!

e, para o resto da vida, astolfo sofreria uma dor indescritível. e para sempre-- culparia-- a ordem alfabética-- por colocar entre ele a sua amada ana, o filho da puta do antônio.

e mesmo anos depois, décadas-- sempre que alguém perguntava se ele estava namorando, ou pelo menos interessado em alguém-- ele sempre gritava bem baixinho, aquele grito contido que acompanha sempre uma batida na mesa com o punho fechado: "ordem alfabética filha da puta!"

2.


e no segundo aniversário de casamento deles-- a crise transformou a promessa de um anel de brilhantes em um bolo cravejado com m&m's.

quinta-feira, agosto 20, 2009

escovas.

eles nunca se casaram na igreja.
eles nunca se casaram no cartório.
ele nunca comprou uma aliança.
ela nunca pediu uma.

um dia, ele comprou duas escovas de dente e um copo quase translúcido.
colocou sobre a pia, acrescentou um tubo de pasta de dente.

e viveram felizes para sempre.

o pé direito alto.

ela casou com ele porque ele era mais alto do que a média.
um dia a luz da sala queimou. ela pediu para ele trocar.
ele não alcançou sem a ajuda de um banco.
a partir daquele dia, ela passou a olhar para ele com menos paixão, menos admiração até.

tudo culpa do pé direito alto.