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a melhor maneira de ver se a porra do aquecimento global existe mesmo, é passar uns dias no rio. não um dia qualquer, tem que ser durante a semana. e tem que ser a trabalho. não vale passar uns dias de bermuda bundando na praia. tem que meter uma calça jeans, uma camisa de botão e sapato. aí meu amigo, eu tenho a absoluta certeza que você vai entender o que as pessoas, os cientistas querem dizer com aquecimento global. duvido que um fela da pulta vai deixar de acreditar que existe o o aquecimento global depois de alguns dias aqui no rio. com as subácas jorrando suor e o desodorante vencendo, o babaca que ainda não acredita que a terra está derretendo vai mudar de idéia rapidinho. uns três dias, com um ar condicionado gago, daqueles que cospe esbaforadas de ar-frio em pequenas etapas. com a testa suada, as meias arriadas pela canela pois não agüentam mais o próprio peso. com a sensação escrota de que o sol está atrás de você lendo o que você digita no computador. acho, só acho que da próxima vez que entrarem numas de propor um tratado mundial desses para acabar com a emissão de gases, deveriam fazer a tal reunião aqui no rio. no verão. meados de janeiro. tipo um dia de hoje. ninguem, nenhum chefe de estado iria ter culhão para discutir mais do que dois minutos. todo mundo iria assinar no primeiro dia. unanimidade. alguns dias no rio. mas tem que ser a trabalho. não vale ficar bundando na praia.
existem taxistas bons e taxistas ruins. e não estou falando da habilidade no volante. mas de caráter mesmo. se você entrar num taxi de um fêla da pulta e não souber direito como ir da vila mariana para a sua casa se fodeu bonitchu. meu amigo, o cara pode ir até o aeroporto internacional de guarulhos, fazer o retorno e voltar. e você não vai ter a menor idéia de que ele acabou de meter a mão no seu bolso. eu me considero um coitado no trânsito. quase me perco para chegar em casa do trabalho as vezes. na minha cabeça tenho uns quatro caminhos decorados. se eu tiver que aprender um caminho novo, para o dentista por exemplo, minha memória apaga um antigo e substitui por esse novo. por isso, e por volta e meia me encontrar no banco de trás de taxis, tive que desenvolver uma habilidade: fingir que eu sei o caminho quando eu não sei. é simples. quase ingênua. mas se você um dia pegar um taxista fêla da pulta pode ajudar. bom, vamos lá. você está na casa do caralho. foi cair lá por causa de uma reunião. foi de taxi do trabalho porque não tinha a menor idéia de como chegar e agora, obviamente tem que voltar. depois de alguns segundos acenando o braço, um taxista pára. você entra e ele pergunta: "pra onde, chefia?" e é aí que está o segredo. o "chefia". aproveite o gancho e chame o taxista de chefia: "ô chefia, eu tô indo para o brooklin.." o cara já vai se sentir o fodalhão, respeitado. aí ele vai perguntar que caminho você quer fazer. aí, como se você conhecesse são paulo como ele, responde: "olha, quem sou eu para ensinar você um caminho. eu até poderia, mas vou deixar para o especialista... que tal ir pela... não, não, você é quem manda." o importante aí e a pausa no momento em que você ameaça dizer o nome de uma avenida. a pausa é fundamental. ele não pode sentir que é um blefe. aí, bom, aí é fechar os olhos e partir com a cara e com a coragem. e esperar que o fêla ache que você conhece são paulo como ele. "chefia!", "quem sou eu..." e a pausa. nessa ordem. funciona sempre. ou pelo menos parece que sim.
hoje, a caminho da firma enquanto pescava cds no chão no banco do carona, flagrei um sujeito limpando o salão. catando catota. libertando a verdinha. explorando os canais da narina. lustrando a escuridão do canal da mancha. com uma calma e uma delicadeza de quem achava que estava em casa. e não cercado de centenas de carros. se o fêla tivesse um carro com insulfim 100% preto, beleza. 90% preto, ok. 80% preto, veja bem. 70% preto, é, acho que aquele sujeito ali está tirando uma meleca. agora, o vidro do cara estava aberto. aberto. e ele não estava tirando uma lasquinha de meleca da ponta do nariz. estava escavando serra pelada na busca de uma pepita. uma pedra preciosa. e, como o trânsito não andava, o fêla continuava. meleca teimosa. trinta, quarenta, cinquenta segundos com o dedo indicador enterrado até a primeira falange. gira para a direita. gira para a esquerda e nada de liberar a catota. o sinal abre, e o sujeito finalmente tira o dedo lá de dentro. não, ele não come. mas dá uns petelecos como se jogasse a teimosinha para a vida. como se libertasse ela de vez: "vai, vai viver, explorar esse mundo, sua meleca. você está livre..." depois raspou a ponta do dedo na camisa. como quem limpa uma pá de cocô de cachorro depois de usada. os carros começaram a se mover com uma certa rapidez até. ele abraçou o volante com as duas mãos, abriu e fechou as narinas e partiu. o sujeito que tira catota no trânsito. num belo dia, preso entre um caminhão de lixo e um taxi, com um motoboy metralhando a buzina para passar, você vai encontrar o fêla. com o dedo nervoso. sem nenhuma vergonha. e sem insulfilm. ele caga para as convenções da sociedade. o que importa é o salão limpo, lustrado, brilhando. só fique esperto para ele não petelecar uma na sua direção.
- todo avião que eu pego tem sempre o mesmo cardápio de duas linhas: "chicken or pasta?" ou "pasta or chicken?"
- quem é o filho da puta que não consegue acertar o vaso sanitário do avião ao mijar?
- ninguém mais olha para os comissários de bordo quando eles fazem os sinais de emergência antes do avião decolar. todo mundo caga para o colete, o oxigênio, as saídas de emergência. caga. baldes. deveriam usar aquelas cheerleaders peitudas de futebol americano para fazer a mesma apresentação.
- pegar uma viagem de 9 horas sem fone de ouvido para escutar o filme é pior do que sentar na poltrona do meio entre os dois caras mais gordos do mundo.
- uma taça de vinho mais ou menos custa 5 dólares na united. 5 doletas. sobrevoando o acre, com o sinal de apertar os cintos piscando, não dá para levantar, mandar a aeromoça à merda e comprar um vinho mais em conta na lojinha da esquina.
- quando o avião estava no ponto mais perto do sol, lá pelas 5 da manhã, uma mulher sentada na janela, abriu a caráia da janela. cegou uns sete passageiros. dependendo do ângulo que eu olho, não enxergo picas.
- o piloto do meu avião descrevia em tempo real as manobras que ele fazia: "agora eu estou levando o avião para 17.000 pés. 17.500, 17.490, 17.328... estamos sobrevoando o oceano atlântico e logo logo, estaremos passando sobre a ilha da casa do cacete..." real time. detalhe: toda hora que ele falava, um dispositivo interrompia o filme do monitor.
- a mulher do meu lado roncava.
- o tiozinho do outro lado tinha um puta chulé.
- acho, que deveria existir uma lei para essas ocasiões. "no caso do passageiro sentar ao lado de uma pessoa que ronca, bufa feio ou tem chulé, o passageiro em questão terá suas milhas creditadas em dobro no programa de milhagem." simples assim.
"em caso de reincidência, o passageiro pode exigir duas passagens de primeira classse para qualquer lugar."
- o filho da puta que se fizer de sonso e levar uma mala gigante para dentro avião e passar meia hora atrasando 200 passageiros tentando socar a mala no compartimento superior, deveria ser preso. uma semaninha só pra ficar esperto.
- o que leva um sujeito ficar em pé atrás do carrinho de comida durante os 45 minutos que está sendo servido o jantar? depois de uns 3 minutos acho que já dá para sacar que é impossível chegar ao toillete sem empurrar o carrinho junto.
- quem é que compra um conjunto de tacos de golf às 3 da manhã no carrinho de free shop que passa pelos corredores apagados do avião?
- como é que se cozinha 200 ovos mexidos numa cozinha menor do que o fogão que você tem em casa?
- "17.208... 17.100... 17078..."
- "chicken or pasta?"
nada contra a previsao do tempo. as vezes, quando os caras acertam, ate ajuda. mas aquela putaria de "chances de chuva no final da tarde", "maxima de 29, minina de 19"... nao fodi. vai tirar o cu da reta assim na casa do caraio. raramente esses caras arriscam algo mais especifico. a mocinha do tempo sempre aponta para uma parte gigante do mapa dizendo que ali, naquele espaco talvez, apenas talvez, dependendo da frente fria, pode ter chuvas esparsas. tai outra palavra bem fela da puta... "esparsas". chuvas esparsas e uma maneira que inventaram para tambem tirar o cu da reta. nao e nem aqui, nem ali. ou pode ser aqui e ali ao mesmo tempo. no brasil, a mocinha do tempo geralmente arrisca uns tres dias. o que, ca entre nos, ja e um chute memoravel. se ela nao consegue prever direito um dia, imagine tres de uma so vez. bom, dia desses assistindo o jornal das dez aqui nos estados unidos vi um negocio incrivel e de uma coragem impressionante. o carinha do tempo deu a previsao de sete dias. isso mesmo. o fela da pulta nao arriscou um dia. nao. nao chutou tres dias. nao. tambem nao se contentou em dar a previsao de cinco dias. o cara simplesmente, munido de mapas, graficos e uma senhora cara de pau, deu a previsao de uma semana inteira. imagine voce numa segunda feira, sabendo que caraio de tempo vai dar na outra segunda feira. impressionante. e o mais interessante e que o ancora sentado ao lado dele, assim como o comentarista esportivo franziam os olhos como se aquilo tudo fizesse o maior sentido. como se aquele nostradamus do tempo estivesse realmente prevendo cada gota ou floco de neve que cairia dos ceus nos proximos sete dias. se o cara acertou? acertou. mas tambe e claro que acertou, o fela tambem usa o mesmo linguajar cafajeste da mocinha do jornal nacional: "chances de neve entre 5 e 11 da noite.", "nuvens esparsas entre essa area do mapa e essa outra aqui.", "minima de 32 farenheit, maxima de 59..." ou seja, parece corajoso, mas tambem tira o dele da reta. qualquer coisa que acontecer esta de alguma maneira coberta pelas palavras vagas dele. bom, no dia que a farsa for descoberta, mandam ele para o olho da rua. ai, ele arruma um emprego escrevendo o horoscopo.
existem duas maneiras de se sentir magro: estando magro e estando cercado de nao-magros. a segunda e mais facil. muito mais facil. a primeira requer atividade fisica, dieta balanceada. a segunda, apenas um senso de localizacao. basta voce procurar o lugar com uma concentracao maior de pessoas acima do peso. no interior dos estados unidos eu encontrei uma porcao. muitos. pessoas gigantes, vertical e horizontalmente falando. andando num shopping num sabado a tarde, e como se voce tivesse emagrecido uns trinta quilos enquanto dormia na noite anterior. ninguem fica apontando para voce "olha que sujeito magro!". nao, mas fica claro que suas arterias estao menos entupidas que a da maioria das pessoas. nao me entenda errado, o pessoal e simpatico, receptivo, so e maior, gigante. o tamanho "p" equivale ao "g" do brasil, por exemplo. se voce for com muita sede a uma promocao de uma loja de roupas e comprar uma camiseta "p" sem experimentar, por exemplo, vai se foder. a camisa vai bater no seu joelho. como eu disse, o pessoal e gigante. cafe com leite pequeno e, qual e a palavra mesmo... gigante. o hamburguer testa os limites dos cantos da sua boca. "um spaghetti pomoddoro, por favor!" e, minutos depois, voce olha para o prato com a estranha sensacao que voce nao vai conseguir ver o fundo dele. tudo e gigante, grande, enorme. sorvete pequeno? nao. a batata frita que vem com o prato, nao vem no canto do prato. vem num prato separado. a mulher que serve a comida faz sombra na mesa. a colher do sorvete "pequeno" e do tamanho da mao de uma crianca. fatias de bolos, sao bolos inteiros. calcas de moletom quase uniformes. o que, se voce pensar, quando se esta de ferias, e muito interessante. afinal, por alguns dias, voce pode comer para cacete, olhar ao seu redor e se sentir o sujeito mais magro do mundo. existem duas maneiras de se sentir magro: estando magro e estando cercado de nao magros.
esse blógui vai entrar de férias junto com o sujeito que escreve ele até janeiro.
sabe quando você sai pela rua meio assim com pressa e, encontra no seu caminho uma outra pessoa, igualmente com pressa? bom, e é aí que fodi. para não colidir com a pessoa, você tem que escolher um lado. desvio para a direita? desvio para a esquerda? e, enquanto você pensa isso, o sujeito que vem na sua direção está pensando a mesma coisa: "desvio para a direita? desvio para a esquerda?" as chances de colisão são grandes. enormes. eu sempre me fodo. bato de frente, trinco uma lasca do dente. pessoas que você não tem assim tanta certeza se vão virar para a direita ou para esquerda são uma ameaça ao bem-estar da nação. eu não sei porque, mas por algum motivo eu sempre ameaço ir para a direita, o fêla da pulta também, aí eu faço um desvio brusco para a esquerda, e o cara, bom, o cara também. as vezes existe a chance de mais uma desviada. uma só. mas essa terceira chance é rara. muito rara. a colisão é certa e dolorida. hoje, por exemplo a caminho do elevador, estava lá eu com uma certa pressa. um olho no chão, outro na minha reta atento para essas quase colisões. de longe vi um tiozinho marchando na minha direção. o filho da pulta me olhou no olho como que diz, "não vou desviar nem a caráio." também mantive a mesma direção. ele não titubeou. em cima da hora, desviei para a direita e o cagão também. esquerda. direita. esquerda. colisão. pessoas que você não tem assim tanta certeza se vão virar para a direita ou para a esquerda. fique esperto. tome cuidado. uma hora, um desses pode aparecer no seu caminho.
se você acredita nessas coisas de céu e inferno e quiser ter uma idéia do que te espera se você não se comportar e for uma mau menino, pegue o seu carro e vá ao shopping. qualquer um. qualquer dia da semana. entre hoje e o domingo dia 24. é impressionante. o inferno está localizado entre o andar das violetas e o das margaridas. é, só de putaria, estacionamentos de shopping têm esses nomes alegres para identificar os andares da garagem. mas o que acontece lá é o contrário. não tem nada de margarida ou violeta. você fica puto, bem puto. demora em média uns 37 minutos para achar uma vaga. e, quando acha, tem que disputar ela com um sujeito que aparenta estar armado. bom, aí você conseguiu a vaga, então acabou o inferno? pourra nenhuma. você se fodeu. meu amigo, olhe ao redor, você parou longe, bem longe de tudo. o elevador é na casa do cacete, a escada rolante então. você já entra no shopping puto. se tiver acompanhado da mulher ou dos filhos, as chances de brigar com eles são grandes. bem grandes. e, se você não brigar, não vai trocar uma só palavra na tarde de compras de natal. pode notar, em época de natal, todo mundo está puto no shopping. maridos chutando o chão. crianças chorando, mulheres tensas. tudo culpa do estacionamento. não sei se existem essas estatísticas, mas o índice de divórcio durante o natal deve aumentar consideravelmente. fico imaginando o juiz recebendo a papelada. "motivo do divórcio: estacionamento de shopping durante o natal." o juiz não vem nem titubear. vai lembrar da última vez que ele arriscou fazer compras num shopping nessa época e vai passar a caneta concedendo a pourra do divóricio. casais deveriam pedir indenizações para os shoppings. os shoppings deveriam ter um fundo reservado especialmente para banca a terapia das pessoas que se fodem procurando uma vaga. é foda meu amigo. evite, a todo custo. a não ser é claro, que você é curioso e quer porque quer saber como é o tal do inferno. aí você vai lá.
cavalos (1)
dois cavalos conversam antes do páreo começar no jockey. eles estão lado a lado.
- e aí, tudo bem?
- mais ou menos.
- o que aconteceu?
- dor... tô com uma dor nas costas...
- é o jockey que está aí em cima de você.
- caramba, como eu sou burro. é verdade, eu tinha esquecido.
cavalos (2)
dois cavalos conversam antes do páreo começar no jockey. eles estão lado a lado.
- você deixa eu ganhar essa?
- beleza.
cavalos (3)
um cavalo mais velho fala com o filho, um potrinho.
- meu filho, o que você quer ser quando crescer?
- reprodutor.
cavalos (4)
duas éguas conversam:
- ai a-mi-ga
- fala sua égua lin-da!
- você tem que ver as ferraduras que o fazendeiro colocou em mim.
- ma-ra-vi-lho-sas.
cavalos (5)
cavalo mais velho conversa com um potrinho:
- meu filho, ou você se comporta, ou quando morrer, você vai para um lugar lá cheio de jockeys e cowboys com botas com esporas.
cavalo (6)
um casal de cavalos sai para namorar.
- (cavalo garçom) e o que a senhora égua vai querer de entrada?
- hmmm, alfafa.
- (garçom) e você, senhor cavalo?
- alfafa.
- (graçom) e de prato principal?
- acho que a gente vai...deixa eu ver... acho que a gente vai experimentar essa alfafa.
- (garçom) excelente pedida.
minutos depois. o garçom volta.
- e de sobremesa, para a madame?
- é, vou querer um pouco de alfafa. mas só um pouquinho.
- (garçom) e o senhor?
- acho que eu vou acompanhar ela, alfafa.
dia desses vi na tv o miss universo. ganhou a da república dominicana. quase bonita. cheia de dentes. a brasileira ficou entre as dez. o que eu achei estranho foram os jurados que os caras escolheram pra votar. um casal bem esquisitinho de uma novela mexicana. uma modelo daquelas que se te falassem que é modelo, você não saberia dizer que era. uma ex-miss que se tocasse o interfone e o porteiro perguntasse se a fêla podia subir, você mandaria ele a merda. um maquiador com um jeitão suspeitíssimo. e um apresentador de programa de auditório colombiano. caráio. não dá pra sair resultado justo daí. como é que esses caras são capazes de escolher uma gostosa. uma mulher cujo rosto ira adornar as fantasias da molecada. não fódi. na minha sincera opinião, o jurí tinha que ser outro. tinha que ter pelo menos cinco adolescentes. espinhentos e com os hormônios em ebulição. um deles com a mão peluda. três véios safados, aqueles bem sacanas de banco de praça. e uns dois pedreiros de obra. vestidos a carater. com a cara suja de cal e com aquele assobio de arrancar sangue dos tímpanos das secretárias que passam na frente das obras. gente que ganha a vida observando, babando e secando a mulherada. no dia que eles fizerem um concurso com jurados assim, a miss universo não precisará usar coroa pra ser reconhecida na rua. vai ter que estar em forma pra correr com aquela coroa socada debaixo do braço. aí sim meu amigo, essa miss vai ser gostosa.
gin tem cheiro de porre. vodka tem fama de cabeça na calçada. uísque tem jeitão de quem vai acordar com dois dedos de olheiras e os olhos com aquele emaranhado de veias. cerveja, por natureza, gera repetição, repetição, repetição, o que indiretamente, só pela quantidade de garrafas alinhadas na mesa, pode-se prever um porre. ou uma leve dor de cabeça. cachaça, bem, cachaça é feito da mesma matéria-prima que movimenta os carros flex fuel. agora, o saquê, o saquê é traiçoeiro. aparentemente inofensivo. pra começar, o bicho é feito de arroz. é associado com sushi, peixe cru. saquê vem naquelas garrafas gorduchas e é servido em copos quadrados decorados com sal. e alí, no meio daquele ritual, você se engana, acha que o bicho é inofensivo. toma um, toma dois, toma três. toma quatro. mais uma garrafa, por favor. e quando você vê, sua língua está enrolada, num nó quase cego. você jura que está ok. mas não está. vai ceder gentilmente as chaves do carro para a sua mulher e procurar falar menos ou quase nada. o saquê é traiçoeiro. ainda mais traiçoeiro é o saquê combinado com frutas. ah, quando você combina o saquê com frutas o efeito é potencializado. você acaba bebendo mais. três, quatro, "tem certeza que eu bebi sete?" e aí, chega a conta e você acha que deixou cair uma lente de contato no chão. ou, em muitos casos, chega em casa, e, pilhado, coloca um dvd (desses de seriados) para assistir. quatro horas depois, com a tv chiando e as lentes de contato grudando, você levanta no susto do sofá e pensa: "caráio, saquê é traiçoeiro."
um cachorro desce o elevador com a dona.
a porta se abre e entra uma cadela. os dois conversam:
- e aí, tudo bem?
- tudo.
- você sabe onde essa porta vai dar quando abrir? é, eu sou nova no prédio.
- bom, quando essa porta abrir, é só você sair pelo portão do prédio, que é o banheiro.
- obrigada.
- de nada.
- lady, muito prazer.
- rex, igualmente.
- bom, cocô.
- procê também.
manobristas de bigode e costeletas são perigosos por um motivo muito simples: assistiram muitos filmes de ação. assinam telecine action. são fãs de steve mcqueen. manobristas de bigode e costeletas não assobiam enquanto pilotam o seu possante. não, esses são munidos de uma paixão pela velocidade. cheiro de pneu queimado na rua e velocidade. pode notar, nesses filmes de ação, tem sempre um sujeito chamado "buck" ou "toby jones" com costeletas a lá wolverine. com aquelas luvas de couro com os dedos cortados e uma lata de budweiser rolando no chão do carro. esses manobristas não estão alí, batendo continência no restaurante da moda para ganhar 10 mangos por carro. ah, meu amigo, eles estão alí para colocar a mão nos carros do ano, doze válvulas, tiptronic, 2.4, gasolina podium de alta octanagem. é uma teoria. baseada em uma única observação, dia desses deixei meu carro na mão de um fera com bigode e costeletas que escorriam até a base do pescoço. e olha que o meu carro deve acelerar de 0 a 100 em quase um minuto. mas não importa. foi eu voltar para buscar o celular que tinha esquecido no carro para flagrar o cara cantando os pneus do meu carro no asfalto. e, enquanto o pneu fabricava fumaça na rua, olhei para o outro manobrista que estava na porta e comentei: "telecine action. bigode e costeletas." ele olhou para mim e, balançando a cabeça disse: "bigode e costeletas." brincadeira, essa parte da história é mentira. mas que o fêla da pulta tinha bigode e costeletas, tinha. é apenas uma teoria. mas não custa ficar esperto.
"ôpa, zuzo bem?" quantas vezes você já não saiu em busca de uma bebida num casamento e esbarrou num cara que você não tem certeza de onde você conhece, ou até mesmo se conhece o fêla. aí fica aquele negócio, levanta as duas sobrancelhas ou manda um "ôpa." mas um ôpa contido, sem putaria, sem aperto de mão, sem "quanto tempo!?". afinal, você não tem a menor idéia do nome do cara. então, naquele momento, o nome dele vira "ôpa". foda-se o nome que os pais dele escolheram pra ele. a partir daquele momento, o nome dele é "ôpa". você encontra muitos "ôpas" no shopping, prédio de firma, fila de cinema. os "ôpas" estão por toda parte. dia desses sentei numa mesa de um restaurante ao lado de uma mesa em que estava um "ôpa". passei o jantar inteiro tentando lembrar o nome do fêla, e nada-- então chamei o sujeito de "ôpa". reunião de trabalho é um lugar cheio de "ôpas". com tantas reuniões, você com certeza já foi apresentado para o cara ou para a mulher que está do outro lado da mesa. mas fica ali, meio envergonhado de perguntar o nome novamente. então, na cara dura, estende a mão e fala: "ôpa." conheço muitos "ôpas". não consigo decorar o nome de ninguém. dia desses entrei no mesmo dentista que frequento desde mil novencentos e tal e esqueci o nome do fera. "quanto tempo, erick!" e eu, com a boca aberta, "ôpa." o "ôpa" é recomendado para momentos breves. quando você passa por alguém. quando você esbarra. quando uma pessoa está saindo do elevador e você entrando. mas deve ser evitado por exemplo quando você se senta ao lado de uma pessoa que você acha que pode conhecer na ponte aérea. é esquisito repetir o "ôpa" durante uma hora e tal. te vira colega, arrume um jeito de descobrir o nome do cara ou da mulher. o "ôpa" tem mil utilidades. é simpático, breve e ao mesmo tempo dá uma mão para o fêla que você não tem tanta certeza se conhece ou não. é, porque o fêla, também pode olhar para o seus córnios e falar "ôpa."
- apertar a cobertura e perguntar: “você sabe se eles têm manobrista para helicopteros aqui nesse prédio?”
- perguntar para qualquer morador que tenha cachorro: “e aí, já pegou bosta dele no chão hoje?”
- deitar a cabeça para trás e perguntar: “o meu nariz está sujo?”
- cantar baixinho “singing in the rain” e ao sair do elevador no seu andar, dar alguns passos de sapateado.
- ou cantarolar baixinho “singing in the rain” e perguntar para quem está no elevador se ele ou ela viu o seu guarda-chuva por aí.
- fazer embaixadinha com uma bola imaginária.
- jogar iô-iô imaginário.
- recitar "e agora josé" de drummond enquanto o elevador sobe. e "no meio do caminho tinha uma pedra" enquanto o elevador desce.
- fazer uma bola grande de chiclete e estourar propositalmente na cara. e subir o resto dos andares assim.
- comentar: "você está prendendo uma bufa? porque eu estou."
eu já perdi umas setecentas e noventa canetas bic. por baixo. você já perdeu um número similar. a pessoa que está ao seu lado, também. e por aí vai. o mundo inteiro já perdeu uma caráiada de canetas bics. e, foi perdendo mais uma, um dia desses que eu comecei a pensar como é que se perde tantas bics. para onde elas vão. e o mais importante, como é que elas somem. cheguei a conclusão que existe uma galera, funcionários pagos pela bic para sumirem com as suas bics. uma caráiada de franceses meio marcel marceau, aquele mímico francês, cuja única função na vida é roubar a bic que está sobre a sua mesa. você deixou uma bic dando mole ao lado do bloquinho de papel enquanto foi ao banheiro? lá vem o francês com a mão boba para roubar a fêla da sua mesa. quer ver outra área de atuação dos pegadô de bic? faculdade. você está no meio de uma aula de física, e, quando dá uma piscada, olha para a carteira a sua frente e nada de bic. taí uma das táticas de maior sucesso dos franceses pegadô de bic. esse bando de fêla se matricula em escolas e faculdades, eles prestam atenção nas aulas para não serem notados, mas só estão lá para pegar a sua bic. aeroporto, você está lá preenchendo aqueles formulários e olha para uma turista alemã com uma irmã gemêa ainda mais gostosa. um francês passa e pega a sua bic. as gemêas são um velho truque deles. famosos também sofrem. fim de jogo de futebol. o artilheiro sai do vestiário e é cercado de fãs pedindo autógrafos. pode notar, tem sempre uma peituda ou um torcedor da torcida adversária no meio para causar alvoroço. mais uma vez, ambos são contratados pela bic. para foder com a organização e sumirem com a bic. e assim as vendas continuam, crescem e batem recordes. não existe outra explicação. os pegadô de bic. enquanto escrevia este paragrafozinho, um francês filho da puta pegô a última bic da minha mesa. brincadeira, mas eu estava sem um final decente para ele.
o primeiro peixe circula pelo aquário no sentido horário.
o segundo peixe, que é uma mulher, circula no sentido anti-horário.
- eu não te conheço em algum lugar?
- eu não te conheço em algum lugar?
três segundos depois.
- eu não te conheço em algum lugar?
- eu não te conheço em algum lugar?
não sei como é o seu prédio. o meu é cheio de tiazinhas. metade rabugenta, metade quase-simpática. o elevador é pequeno. tem uma plaquinha que diz que cabem 6, mas cabem apenas 4. e com uma certa dificuldade, um esquema meio nariz na nuca da vizinha. o que nos leva ao título desse parágrafo, desse textin: cuidado com a tiazinha do seu prédio que usa bobs no cabelo. quando eu entro na caráia do elevador, tenho o costume de fingir que não tem nenhuma tiazinha lá. finjo que a fêla é invisível. é uma antipatia preventiva. evitar abrir as porteiras do "bom dia, boa tarde, como é que vai a senhora sua mulher, e o tempo, e olha que ainda nem é verão, você viu o trânsito?, é um poodle toy, tem três anos, o nome dele é lindinho, adivinha porque?, que horas são?, já!, comprei na feira, quer um pouquinho?" é meu amigo, se você arrisca o primeiro "bom dia!" com uma tiazinha de bobs no cabelo, uma coisa é certa, para o resto dos seus dias ali, naquele prédio, você se sentirá na obrigação de comentar sobre o tempo, a feira, o trânsito e o vizinho maconheiro do 602. e é fácil entender porque. uma tiazinha que sai de casa com bobs no cabelo é tudo, menos tímida. mas principalmente, uma tiazinha que sai com bobs no cabelo mora sozinha. está sedenta para falar com alguém. e como é que eu sei que ela mora sozinha? bom, se ela dividisse o apartamento com alguém, esse alguém, nem fodeindo, deixaria ela sair com bobs no cabelo. simples assim. nada contra a tiazinha. mas é um perigo. uma ameaça. a tiazinha com bobs no cabelo é uma represa prestes a se romper. e o "bom dia!" que você dá, é a marreta que vai colocar a represa abaixo. é por isso, e só por isso que eu, no máximo, mas no máximo, levanto as sobrancelhas. as duas, juntas, num leve slow-motion. como quem diz: "não fódi tiazinha com bobs no cabelo, a gente mora no mesmo prédio, mas não precisamos ser melhores amigos, belê."
"o senhor gostaria de um naco dessa picanha nobre?" não sei se você já notou, mas em qualquer churrascaria, as carnes são divididas em classes sociais. tem a picanha que é nobre e tem a normal. tem o corte especial da alcatra, assim como tem o corte normal. tem o coração da picanha e da alcatra. mas como você já sabe, tem também os cortes comuns, os mais simples, sem fru-fru. o próprio filet-mignon, que em qualquer outro lugar é rei, na própria churrascaria é recebido com descaso. pode notar, o filet mignon dentro de uma churrascaria é tão bem aceito quanto uma lasca magra de cupim. resultado dessas classes sociais impostas pelos estabelecimentos. miolo de picanha nobre, especial, especialidade da casa, com crosta de alho, com crosta de alho especial, com crosta de alho nobre e super especial, master beef sumus. é sempre a mesma cena--quando se aproxima da sua mesa o garçom com o espeto com aqueles galetinhos magros de frango, você pode ver nos olhos do sujeito um certo ar de "sou um bosta, eles não me acham capaz de carregar um miolo especial fucking fuckers master sumus premium. não, é franguinho mesmo." o garçom do cupim então, já chega olhando para os próprios sapatos como se estivesse pagando algum pecado. o carinha do filet mignon fala baixinho, com ênfase no "gnon", só pra ver se desperta nas pessoas aquele brilho nos olhos. costela de boi, fraldinha. fodeu. essa divisão de classes está fodendo com as carnes com nomes mais simples. lá perto de casa, por exemplo, os nomes mais pretensiosos é que fazem maior sucesso: ancho premium, "bife de tira, dotô, corte argentino!" já, perto do trabalho, tem uma churrascaria que inventou um tal de "baby beef fiorentina especialidade da casa!!" o garçom oferece a tal especialidade com sangue nos olhos: "vai um fiozinho de azeite campeão? fica ainda mais especial." toda churrascaria é assim agora. carne não é mais simplesmente carne. se custar uns 80 mangos pode se chamar master beef supremus imperador maximus. já a picanha comum, comum, que supostamente não é tão fodona como sua irmã mais nobre, a nobre, não teria coragem de cobrar metade disso. não sei se você já notou, mas em qualquer churrascaria, as carnes são divididas em classes sociais.