quinta-feira, outubro 08, 2009

poemas desconexos que não rimam.1


sábado de manhã.
café na rua-- perguntou ela.
não, em casa, claro, grunhiu ele.
pão velho, manteiga dura, leite fora do prazo.
"vizinho filho da puta, desgraçado!"
olha o palavrão, antônio cláudio!
o jornal da porta, roubaram-- só pode ter sido ele.
café na rua-- perguntou ela.


no estacionamento do shopping.

ele decorou as letras do estacionamento.
ele anotou os pontos de referência.
ele rabiscou o número da vaga.
ele gravou a cor do carro ao lado do dele.
ele lembrou de entrar e sair pelo mesmo elevador.

ele não conseguiu ir embora para casa.

ele esqueceu a chave dentro do carro.

diálogo de suspense barato de qualidade duvidosa.

- alô?
- olá.
- serviço de quarto?
- sim.
- ovos mexidos com aspargos. quarto 246.
- tem certeza?
- como?
- a senhora está no 244.
- como é que você sabe?
- posso ver no identificador.
- ok.
- e usando uma camisola azul clara, linda.
- como é que você sabe?
- posso ver pelas frestas do armário.
- como!
- brincadeira... mas o seu perfume é especial.
- como é que você sabe?!
- está vendo esta cortina atrás da cama?
- sim.
- olhe para o chão. está vendo os meus pés?

quarta-feira, outubro 07, 2009

a quase coluna do destak da semana

muitas vezes uma coluna que eu envio para o destak para uma semana, fica para a próxima.
é a natureza do jornal. as vezes, com a correria, a quantidade de notícias, reportagens maiores, e até mesmo notícias frescas-- a coluna é guardada para a semana seguinte.
mas neste caso, como esta coluna é sobre uma dica, um evento que vai acontecer no próximo domingo-- a coluna não tem uma sobrevida.
então, como ela não servirá para a semana que vem, resolvi publicar aqui.

o golo no parque mayer. ou no português falado no brasil, o gol...
para ser lida com a trilha sonora do filme carruagens de fogo.
ah, banda sonora = trilha sonora.
momentos de glória = carruagens de fogo.
remate= chute.
claque= torcida.

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O golo no Parque Mayer.

Devo um dos dias mais felizes da minha vida à banda sonora de Momentos de Glória. Eu tinha 8 anos de idade, levava a bola na direção do campo adversário. O coração palpitava e o juiz ameaçava inspirar o ar para dar o apito final. Aos 8 anos poucos momentos são tão importantes quanto um golo decisivo. Aos 8 anos, estes jogos marcam a vida de um garoto.
Sim, porque, para um menino de 8 anos, aquele é o momento mais importante do mundo, de todas as galáxias para ser mais exacto. O golo que pode separá-lo da glória com os amigos e a namoradinha-- da tristeza inexplicável.

Bom, neste dia, como você pode suspeitar pela primeira frase, eu marquei o golo. Foi lindo, foi no último segundo, foi mágico. Se eu hoje lhe contar como foi, a partir das minhas memórias, eu diria que deixei para trás 32 jogadores, e que depois acertei um remate de longe ao ângulo direito com o guarda-redes a cair em câmara lenta. E é aí que entra a banda sonora de Momentos de Glória. O filme era recente naquela época. A música de Vangelis marcou toda aquela geração.

Naquela manhã de Sábado, com a bola colada ao meu pé direito, eu não ouvia nada, a claque, os gritos, apenas a banda sonora do filme que tocava no volume máximo na minha cabeça. E foi cada nota daquela banda sonora, que me levou até ao golo. As bandas sonoras têm este poder. E neste domingo você tem a oportunidade de se reencontrar com muitas que o marcaram. No Parque Mayer às 21:00. A Lisbon Film Orchestra irá tocar alguns clássicos que com certeza já serviram de banda sonora para alguns dos melhores momentos da sua vida. Imperdível.

quinta-feira, outubro 01, 2009

a crônica do destak da semana.

a coluna da semana do destak é uma figurinha quase repetida aqui neste blog. o texto é novo. mas já falei sobre o restaurante aqui e no outro blog com dicas de restaurantes, o guia fucking fuckers. o outro textinho neste blog é sobre o sr. ramiro que trabalha lá. basta fazer uma busca com o nome "ramiro" ali em cima para conhecer um pouco deste sujeito nota 11 que trabalha lá.
bom fica aqui novamente a dica. chegou aqui em lisboa meio sem saber ao certo onde ir? farta-brutos. o prato? esse aí da coluna. (na outra coluna você vai encontrar um textinho sobre o figado de aves com macãs. que também é excelente. mas não é uma unanimidade como o prato da coluna desta semana.) ou chegou alguem para fazer uma visita? também. mas vá também se estiver com muita muita fome de comida e de um bom atendimento.





terça-feira, setembro 29, 2009

mas ele morde?

é a primeira vez que ela vai ao apartamento dele.
um cachorro se aproxima e ela começa a fazer carinho.
ela inicia um diálogo:

- ele morde?
- não.
- tem certeza?
- tenho.
- mas ele está rosnando ?
- mas morder, morder--- não morde.
- mas ele está mostrando os dentes?
- mas não morde, pode ficar tranquila.
- mas ele está fazendo xixi no meu pé?
- mas morder, não morde. relaxa.
- mas ele está trepando com a minha perna?
- mas não vai te morder.
- mas, mas, ele está destruindo a minha bolsa louis vuitton!
- mas morder, tirar pedaço de você, ele não vai.
- mas que cachorro filho da puta!!
- ó, agora, se xingar a mãe dele. aí ele morde.
[som de salto alto pipocando pela sala seguido do som da porta batendo e cachorro latindo.]

14 anos depois.

é aquela coisa. ele sempre soube que ela era a mulher da vida dele.
e ela sempre soube que ele era o homem da vida dela.

mas como ainda tinham apenas 16 anos-- e estavam absolutamente certos do destino incontornável de ambos juntos-- tomaram uma decisão sensata.
se despediram e combinaram de se reencontrar aos 30.

a melhor saída.

o chefe ligou para marcar uma reunião para organizar a outra reunião que serviria para montar a apresentação da reunião com o cliente que irá apresentar os resultados desta reunião na reunião do board. board, que sempre se encontra, quinzenalmente na sala de reuniões para uma reunião.

ele respondeu de bate pronto-- meio corrido-- como se estivesse com pressa: "infelizmente não posso. tenho uma reunião. e uma muito importante."

estratégias para pegar a que ele queria-- quando no começo parecia exatamente o contrário.

dois amigos encostados no balcão observam as mulheres que entram no bar. eles conversam:

- olha aquela loira. ela está olhando para a gente.
- é linda mesmo. quer ficar com ela? eu pego a amiga dela.
- mas a amiga não é tão interessante...
- mas tudo bem. a loira é sua. você disse primeiro.
- mas... o que é que você viu nessa amiga dela que eu não estou enxergando?
- nada cara. é aqui assim, todo mundo fica feliz.
- mas você ficaria mais feliz com a loira, não é?
- sim, mas você ficaria infeliz com a amiga dela. e eu não.
- mas eu não estou me endividando com você, não é? tipo, na próxima vez eu tenho que ficar com a baranga?
- não.
- promete?
- prometo.
- [silêncio]
- [silêncio]
- não cara, eu vou ficar com a amiga dela. você viu alguma coisa de errado na loira. algo que eu ainda não vi.
- mas...
- você é malandro. eu sei...
- mas cara... pode...
- conheço bem essa história do amigo que vai deixar o outro se dar bem para o bem da nação.
- que isso, você...
- fica com a loira e não se fala mais nisso.
- ok.

quinta-feira, setembro 24, 2009

ar.


ele inicia a conversa com ela.
- sabia que você me deixa sem ar?
- então você me ama assim, muito?
- sim.
- então, se eu deixo você assim, sem ar, é bom? não é?
- depende.
- depende?
- do ponto de vista.
- [silêncio]
- asma. eu sofro de asma.

coluna do destak da semana.



no classificados.



anúncio no jornal da cidade.

"morena. 22 anos. eu estava usando uma camisa de seda branca com bolinhas pretas.  você acenou de longe ao entrar no metrô. eu uso franjas no cabelo. tenho nariz fino. de perfil ele é perfeito. eu achei que você ia sair do metrô ao me ver. mas, não. seguiu em frente e acenou. você estava usando uma camisa preta e uma bermuda azul com desenhos de surf.  se você estiver lendo este anúncio-- queria lhe dizer algo muito especial: vai tomar no cu! seu bosta!! na próxima vez, fala alguma coisa."

o bikini da demi.

virginia, eua. madrugada.
no fbi. diretor de inteligência fala com um dos agentes.

- mas e essa luz aqui piscando. o que é isso ? rússia?
- mensagem nova no meu  msn.
- e esse ícone que não pára de pular no seu desktop? iraque?
- email novo.
- e essa lista que sobe no canto direito do monitor? lista de espiões chineses?
- o meu twitter.
- essa outra que...
- mensagem no facebook.
- [silêncio]
- [silêncio]
- e a movimentação das ogivas nucleares russas? a coréia do norte?
- shhhh... calma... o ashton kutcher acabar de twittar uma foto da demi moore de bikini.
- de bikini?
- de bikini.

terça-feira, setembro 22, 2009

a importância de um copo d'água durante uma reunião em que ele não estava.


a reunião já começou-- pensou ele.
mas é tanto blá blá blá, que não vão sentir minha falta-- raciocinou ele-- logo em seguida.
mas se não sentirem a minha falta, eles chegarão a conclusão que eu não faço nenhuma falta para a empresa!!-- concluiu ele-- assim com dois pontos de exclamação.
eles não podem descobrir!-- gritou ele, dentro da sua própria cabeça.

pausa.

a reunião já começou-- pensou ele.
melhor eu entrar-- e ao entrar,  derrubar um copo d'água sobre a camisa de quem estiver a falar--planejou ele.
assim, as pessoas irão se lembrar que eu estive por lá-- concluiu ele.

faltavam palavras

no shopping.

ele não sabia o que dizer para ela.
sabia que amava ela.
idolatrava ela.
sentia tudo por ela.
mas não conseguia dizer, assim, em palavras.

então num belo dia, ele comprou um milkshake de ovomaltine grande do bob's e deu na mão dela.

e, logo em seguida, entre uma chupada e outra no canudo, ela olhou para ele e disse: - eu também.



espaço

no alto falante da torre de comando:

- 10.9.8.7.6.5.4.3.2.1....

dentro da cápsula, o astronauta coloca a mão sobre a testa e diz, baixinho:
- cacete, o gás! deixei o gás ligado.

quinta-feira, setembro 17, 2009

doc. brown

homem conversa com o vendedor numa concessionária de carros usados.
ele se aproxima de uma kombi, olha o interior restaurado, as calotas quase novas e a pintura original. ele pergunta:

- e esse carro aqui, é bom para fazer viagens?
- no tempo, sim.

a previsão.


dois cachorros conversam enquanto observam as nuvens escuras que se acumulam no céu.

- será que a chuva que está prestes a cair-- vai estragar o nosso passeio no parque?
- não. é só ameaçar fazer cocô dentro de casa.

terça-feira, setembro 15, 2009

a máquina

casal. após o primeiro encontro, na casa dela.
ela inicia a conversa:

- café com ou sem açucar?
- com.

ela sai, vai até a cozinha e volta com dois cafés. um para ela. outro para ele.

- pronto, aqui está.
ele olha para ela, em seguida para o café, dá um gole, fecha os olhos e diz:
- que delícia esse café. o sabor encorpado... é um café como nunca tomei em toda minha vida.
- que bom que você...
- (interrompe) mas é mesmo delicioso. que café gostoso.
- mas, é... ok, que bom você gostou...
- (interrompe ela novamente) ... é um negócio inexplicável. que café especial. o aroma. a textura. o sabor. nossa!!! é demais! é, uma coisa... pelo amor de deus... que café é esse... meu deus... que café... que lindo... a natureza é mesmo sábia...

ela coloca o café sobre a mesa, olha para o chão e em seguida para ele-- e diz:
- quando você disse que aceitava subir para tomar um café aqui no meu apartamento, achava que eu estava convidando você para a minha cama-- não é?
- mas é claro. então quer dizer que você me convidou para tomar um café, estava mesmo me convidando para tomar um café?
-sim, café. claro.
- mas... mas... mas desde quando "café" deixou de ser um código, um convite para ir para a cama das pessoas após um encontro?
- desde que eu paguei quase três mil reais numa máquina da nespresso.

quinta-feira, setembro 10, 2009

as primeiras colunas do destak. 3

O primeiro pastel de nata, a primeira coluna, uma sugestão e um pedido.

(essa só saiu no porto, pois era feriado em lisboa. por isso, diz ser a "primeira" também no título.)

Na vida, todas as pessoas costumam lembrar três coisas. Três momentos. Nesta ordem de importância: o primeiro beijo, o primeiro grande amor e o primeiro episódio da Guerra das Estrelas. Mas isso, é claro, até você aterrar em Lisboa e comer o seu primeiro pastel de nata. Se você é natural de Portugal, cresceu a comer pastéis de nata. Ou seja, pode até apreciar com carinho o pastel, mas provavelmente desconhece o impacto devastador que ele tem nas papilas gustativas dos turistas. O paladar estrangeiro não foi criado à base deste doce. Desta explosão de sabores feita de creme e ovos. Não. Já ouviu falar. Já leu sobre o tal pastel num guia. Mas é colocá-lo na boca para entrar num transe quase permanente. E não adianta levar a receita para tentar fazer igual no país de origem. No Brasil, por exemplo, pastéis de nata são bons, ok, mas nunca iguais. Os portugueses não revelaram a receita inteira. Escondem. Guardam. Juram segredo eterno. Eu faria o mesmo. Todo o português ao completar dezoito anos de idade, comparece ao tribunal de justiça mais próximo da sua casa e jura perante as bandeiras de Portugal e de Belém: "Eu, _______, prometo não revelar a receita dos pastéis de nata, sob a pena de ser preso por não mais de 25 anos." Resolvi aproveitar esta primeira coluna para deixar uma sugestão e fazer um pedido. Nesta ordem. A sugestão: você acaba de chegar a Lisboa? Deixe para comer o pastel na véspera de ir embora ou você não vai comer outra coisa. O pedido: Você é de Lisboa? Qual é a receita?