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pastel de nata. travesseiro de sintra. queijada de sintra. ovos moles. baba de camelo. e se você fuçar um guia de culinária português, descobre mais uns vinte e seis tipos de doces em que o principal ingrediente é o ovo. um ovo não. uns cem. não vou ficar aqui explicando como é cada doce, porque é sacanagem. eu vou cagar na receita e você vai ficar com água na boca. mas vou contar uma curiosidade sobre eles. ou melhor a única razão pela qual esses fêlas das puta existem.é, pode agradecer aos santos por cada um desses doces. pode falar m voz alta após cada mordida: "ai meu deus! obrigado meu deus!" vai, o fera não vai ficar puto. ele realmente tem alguma coisa a ver com os doces a base de ovos que explodem balanças e artérias com a mesma facilidade. ELE tem muita responsabilidade pela existência desses doces. quatro quilos depois, fui descobrir a caralha da origem dos doces. nunca perguntei. nunca googlei, deveria. o negócio tava quicando aí. quicando em pratos de sobremesa. em pratos que brilham de longe. com aquele amarelo forte. aquele sabor gordo. os doces a base de ovos nasceram da necessidade das freiras de fazer alguma coisa com as gemas que sobravam. mas gemas que sobravam do que? bom, as freiras passavam o hábito, as roupas, com a clara dos ovos. para deixar as roupas durinhas, com aquele aspecto, bem, com aquele aspecto que ELE aprovaria. as freiras tacavam clara de ovos no tecido e passavam o ferro. e roupa vai, roupa vem, o problema foi se amontoando. aquele cheiro de ovo nas igrejas. aquelas centenas de milhares de gemas nos conventos. "o que fazer com as gemas?" "tem muita aqui no convento irmãs!" "um bilhão de gemas! o que faremos? rezamos?" e um das irmãs deve ter comentado: "mas isso, a gente já faz.... e se a gente fizer doces? isso, doces com as gemas?" bom, o resto é história e fila em belem para comer os pastel. e em sintra para comer o travesseiro. taí uma daquelas coisas que seja você católico fervoroso, um católico mais ou menos-- ou pode até não acreditar em nada... taí uma daquelas coisas que você tem que agradecer o fera. afinal, foi ali, na casa dele e do pessoal que trabalha para ele que as guloseimas nasceram. "meu deus! o que faremos com as gemas?" doces, você já pensaram em fazer doces?
- sempre que você entrar num restaurante português e o peixe no cardápio estiver com o preço do kilo, não do prato... fodeu. isso também vale para crustáceos como o camarão. é impossível não se foder com esse esqueminha. de uma refeição para a outra você tem que aprender a diferença de pedir por um preço fixo para pedir por kilo. camarão por exemplo, tem cabeça, rabo e casca. tira isso tudo e você tem o camarão que você vai comer. ou seja, você paga por um peso que você não vai comer. peixe por kilo? corre, meu amigo.
- sempre que você entrar num restaurante em que o garçom colocar rapidamente dois tipos de queijo na mesa com o couvert, queijo seco e fresco... fique esperto. o primeiro custa uns 4 mangos, o segundo, uns 2.50.
- sempre que você for comer pratos como açorda de gambas e alheira com esparregado, use uma calça de moletom.
- eu queria dois ingressos para o show do the police.
- dois ingressos. ok.
- não acredito, que sorte. começaram a vender hoje e eu consegui comprar. ufa.
- muita sorte sim senhor. você é um homem de sorte.
três meses depois na mesma agência bancária.
- eu queria um ingresso para o show do the police.
- um ingresso. ok.
- não acredito, que sorte. começaram a vender em maio e eu consegui comprar. ufa.
- muita sorte sim senhor. você é um homem de sorte.
- este filé de pescado do cardápio, tem espinha?
- o que o senhor acha?.
bom, antes de qualquer coisa, se você caiu aqui por acidente pois achava que encontraria um site sobre o travesseiro de sintra, minhas sinceras desculpas. o google tem dessas coisas. bom, mas agora vamos falar do travesseiro, do doce, do entupidor de artérias. do doce com sete mil calorias. o nome, como já diz, afirma que doce é da cidade de sintra. lá você encontra o mai famoso de todos os tempos, mas, se fuçar em algumas outras lojas que não estão necessariamente em sintra, consegue encontrar o fêla. mas se o nome diz que a pourra do doce é de sintra, o melhor, obrigatoriamente, está lá. mais precisamente na "periquita". isso, periquita. se você for a sintra e não voltar com os dedos lambuzados da crema de ovos que escorre pelos cantos da boca após uma mordida, você não foi a sintra. é sério. chegando a sintra dê uma olhada rápida ao redor, guarde um punhado de imagens na cabeça e depois corra para a fila do periquita. a outra metade do nome, travesseiro, também diz muito sobre o doce. é um pequeno travesseiro. um pequeno travesseiro recheado de uma crema intensa de uns 32 ovos. ou mais. é uma explosão de sabores. uma explosão nuclear de sabores. é um armaggedon de sabores. bem, você entendeu. a bagáça e gostosa. para você ter uma idéia como é gostosa, muita gente não consegue se decidir o que é melhor, o travesseiro ou o pastel de nata de belem. alguns, alguns tem coragem de falar em voz alta que preferem os travesseiros no lugar dos pastéis. fica aqui a sugestão. você tem amigos que te chamam de magricelo(a)? você tem um colesterol dentro dos limites aceitáveis pela medicina moderna? se você respondeu sim para alguma dessas perguntas e principalmente para a última, soque um travesseiro de sintra goela abaixo quando visitar portugal. o fêla da pulta do doce vai te adicionar umas 600 gramas de banha logo que você acabar de comer. mas tudo bem. sem dramas. é uma vez só. até porque, basta comer uma vez para nunca mais esquecer. ahhh, o travesseiro de sintra. e se você, que caiu aqui, sem querer, porque digitou no google "travesseiro de sintra", continuou lendo até aqui. té o final. mesmo não sendo este o caráio de site que estava a procura, obrigado.
- bom dia, eu estou ligando pois vi no jornal que você está alugando um apartamento....
- sim.
- então...
- você está interessado?
- na verdade quem está interessado é meu amigo, mas ele é argentino e não entende português. por isso estou aqui meio de interprete/representante.
- ah tá. argentino?
- ele é.
- e você?
- brasileiro. mas quem vai alugar o apartamento é ele.
- argentino?
- isso, mas ele está dizendo aqui do meu lado que ele também é italiano.
- como?
- argentino e italiano.
- mas você é brasileiro?
- isso. brasileiro.
- eu sou portuguesa.
- sim. a senhora é portuguesa.
- mas o seu amigo é duas coisas?
- acho que sim. argentino e italiano.
- desculpa, pede para ele decidir e me ligar de volta.
- não entendi? decidir?
- se é argentino ou italiano.
- [silêncio] ok, mas ele não fala português.
- então pede para ele decidir e você me liga de volta. ok.
- ok.
- quando a temperatura bate os 40º graus aqui em lisboa todas as pessoas tem a mesma idéia ao mesmo tempo: pegar o ônibus. é uma espécie de greve dos pedestres ao contrário. ninguém fica na rua. todos ficam dentros dos ônibus.
- quando a temperatura bate 42º aqui em lisboa todo mundo liga o foda-se e fica com as camisas e vestidos ensopados de suor, sem dramas. subáca molhada. costas molhadas. calças molhadas. chega uma hora que todos trocam olhares silenciosos como concordassem entre-si: "galera, o calor tá foda, vamo deixar de putaria e vamo ficar suado mesmo. não fode. e abrem-se as torneiras."
- quando a temperatura bate os 43º graus aqui em lisboa, o carinha da loja estilosinha aqui perto da agência, aumenta o preço dos ventiladores. paguei 38 euros num ventilador grande powermakers. uma outra pessoa aqui da agência foi comprar o mesmo ventilador um mês depois, agora, no verão, e o fela da pulta cobrou 60 mangos.
juan christmann, um redator argentino, sósia do mel gibson em máquina mortífera 1,num restaurante se vira para o garçom e inicia um quase diálogo.
- tienes pan?
- pan?
- isso, pan!
- pan?
- isso, pan!
- pan?
silêncio de uns 7 segundos...
- tienes PÃO?
- ahhh!!!! pão.
- isso, pan!
tem um episódio do seinfeld em que o carinha que servia do outro lado do balcão era, digamos, ranzinza. o soup nazi. e, mesmo assim, o fera tinha filas que escorriam pelas ruas e dobravam esquinas com a mesma facilidade que uma criança ainda sem coordenação motora dobra um canudo de plástico. a sopa era boa. muito boa. por isso, o pessoal no episódio segurava a onda e a vontade de mandar o soup nazi dar meia hora de bunda, e esperava por sua vez de pedir a tal sopa. bom, aqui em lisboa tem um lugar parecido. com o mesmo esqueminha. a comida é boa para cacete e quem atende não é assim o cara mais gente boa do mundo. mas a comida é muito boa. daquelas que você levar a sua mãe para comer assim que ela pousar em lisboa. para começar, nunca, nunca chegue na porta do restaurante sozinho e diga que é uma mesa para quatro. ele vai mandar você a merda. só peça a mesa quando todos estiverem alinhados lado a lado na porta do restaurante. bom, sua mesa está pronta? prepare-se para dividí-la com um casal ou outros 4 estranhos. o lugar é pequeno então não tem essa de mesa separada, privacidade e tal. não é o lugar para ir com uma mulher no segundo encontro. ou mesmo no último encontro, quando um dos dois quer falar algo mais sério. mas a comida é fucking fuckers. então você continua a frequentar a bagáça. não tem jeito. você sentou, decida o que vai comer rápido. não fique punhetando ou o carinha que serve, vai te acertar com raios laser que solta pelos olhos. foco meu amigo. muito foco e calma. não coloque casacos ou mochilas atrás das cadeiras ou o carinha vai ficar puto. "tá atrapalhando a circulação de pessoas caráio!" algo do genêro ele vai falar e vai pegar o seu casaco e pendurar num cabide bem improvisado. mas mesmo assim você vai continuar comendo lá e recomendando. peça uma cerveja. assim: "uma cerveja!" não peça uma cerveja gelada que ele pode te olhar com ódio como quem diz: "você acha que a gente tem como costume servir cerveja quente seu fêla da pulta?" as porções são fred flintstonianas. e o preço honesto. o lugar tem poucas janelas. é quente pra caráio. mas da entrada a sobremesa fode com a sua cabeça. o nome da bagáça? cantinho do bem estar. ficar perto da praça de camões numa subida ao lado da loja da diesel. num esqueminha mais escondido que a bat-caverna. cantinho do bem estar. pessoal mau humorado. comida boa. mais ou menos como aquele episódio do seinfeld.
dia desses no ônibus uma mulher se vira para mim e inicia um diálogo:
- as horas, por favor?!
- sete e meia (da noite)
- putz tô atrasada!... e que dia da semana é hoje?
- terça-feira.
- terça?! caráio achei que era quarta!
ou seja: a muié tava atrasada e adiantada ao mesmo tempo.
imagine acordar com o termômetro marcando 42º. e isso, vale ressaltar, é o termômetro do alarme digital fucking fuckers makers que está ao lado da cama. quarenta e dois graus. não estou falando daqueles relógios digitais que também marcam temperaturas nas esquinas mais movimentadas de são paulo. aqueles relógios variam uns oito graus de esquina para esquina. não fodi. bom, mas voltemos aos 42º dentro do meu quarto. para ser sincero, por alguns instantes, juro que achei que a pourra da casa estava pegando fogo. pensei nos incêndios florestais que se alastram por portugal durante o verão. pensei numa cerveja gelada. mas me lembrei que ainda eram nove da manhã. sai de casa em câmera lenta. o caminho que antes levava 15 minutos para fazer, esse fim de semana levou quase uma hora. anda, pára. anda, pára. anda, copo d'água. anda, respira, gatorade. anda, se apoia. anda, comenta como a camisa está ensopada de suor. anda começa a delirar. anda e pensa como você daria seis ziguilhões de dólares por um ar-condicionado. no dia seguinte, um domingo, a temperatura atingiu 43º. quase não me lembro do domingo. o domingo é uma grande sauna a vapor na minha memória. dizem, que agosto costuma ser assim. agosto inteiro. que os restaurantes fecham. que todos saem de férias. que as florestas pegam fogo. que algumas pessoas pegam fogo ao caminhar sem boné nas ruas. é só o começo. se eu pudesse dar duas dicas para um candidato a primeiro ministro português eu teria a solução para uma votação recorde. provavelmente o primeiro primeiro ministro eleito com 100% dos votos. uma plataforma de governo baseada em duas idéias. a primeira delas: havaianas. isso, havaianas. uma lei obrigaria todas as pessoas, todos os 11 milhões de habitantes de portugal a usar havaianas durante o verão . o fêla da pulta que quebrar o esquema e usar um sapato de couro durante o verão, é fuzilado em praça pública.a outra idéia: escadas rolantes. isso, escadas rolantes por lisboa inteira. simples."e a saúde candidato? a educação? a segurança? a divída pública? o que o senhor tem a dizer sobre isso para os seus eleitores?" e a resposta do candidato seria sempre a mesma:"havaianas e escadas rolantes!" recorde de votação. capa da the economist. busto de bronze folheado a ouro na avenida da liberdade. petição nacional para adicionar a cara do ministro naquela montanha americana--o mount rushmore-- que tem a cara dos outros presidentes americanos. imagine acordar com o termômetro marcando 42º. dentro de casa.
não sei como você acorda pela manhã. tem gente que acorda com o celular. o telemóvel. tem gente ainda que acorda com o nada. acorda sem nada. simplesmente abre os olhos na hora certa. trabalhei com um dupla assim. eu falava: "cara, vê então se coloca o alarme mais cedo amanhã para gente adiantar esse trabalho. eu também faço o mesmo." e ele ficava calado e logo depois dizia: "beleza." e eu perguntei uma vez: "que caráio, você tava fazendo? pensando se tinha algum compromisso amanhã seis e meia da manhã?" e ele: "não, armando o alarme." e eu: "cuma?" e ele:"é, é só eu pensar que tenho que acordar amanhã mais cedo que acontece." tá bem, o papo não foi assim. mas foi quase. o cara acordava sem nada. eu, bom, eu acordo com radio. com música. sintonizo numa rádio x e pimba. no dia seguinte uma música geralmente me solta um tapa nos olhos. ok, ok. soltava um tapa. é, porque aqui em portugal, quase todas as rádios que eu já tentei colocar no alarme, tocam músicas românticas. lentas. slow motion.clássica. já perdi a hora umas vinte vezes. ameaço abrir os olhos e o lionel richie me joga de volta para o travesseiro. o olho esquerdo abre e o rod stewart fecha o fêla da pulta. o olho direito treme e o richard clayderman massacra o piano até você entrar num leve estado de coma. não sei não. isso tá me parecendo um truque, um esquema da oposição. foder com a produtividade do país. quanto mais as pessoas demoram para acordar. menos se produz. quanto menos se produz, mais se pode culpar o governo que está no poder. sugestão. você é do governo ou conhece alguém que conhece alguém? lance hoje mesmo uma rádio heavy metal que só toca nas manhãs dos dias uteis. ou, você está procurando um plano b? um esqueminha para investir uma grana? monte esta rádio heavy metal você mesmo. é pá pum. é índice de popularidade do governo de volta na ascendente e dinheiro no bolso na certa.
aqui em lisboa o que eu mais vejo são tiozinhos donos de restaurantes que executam as mesmas quatro funções: recepcionista, garçom, cozinheiro e o carinha do caixa.bom, e quando não é assim. se trata de um restaurante extremamente família. o carinha da recepção e do caixa é o pai/marido. a chef da cozinha e assistente da cozinha é a mesma mulher, a mãe/esposa. e a garçonete é a filha. tem um lado bom e um lado ruim. o lado bom: o dinheiro todo fica com a família, não é preciso dividir com nenhum sócio. o lado ruim: você não leva trabalho para casa. você leva a casa para o trabalho. os multi-homem e os restaurantes família.
todo e qualquer restaurante no brasil e no mundo tem lá o seu prato do dia. dois no máximo. isso é comum. o que não é comum, é quantidade de pratos do dia aqui de portugal. são sempre, pelo menos uns dez. isso, dez pratos do dia. um cardápio inteiro por dia. mais é claro, as outras páginas fixas do cardápio. não entendo. acho que todos os donos de tascas e restaurantes daqui de lisboa deveriam marcar uma reunião e chegar a um acordo. "quem quer focar? optar por apenas 2 pratos por dia? levanta a mão! vâmo lá nuno, pedro, zé! caráio, levantem a mão peloamordedeus!" só assim, o trabalho dos caras vai ficar mais fácil. porque quando eu digo "prato do dia" não estou falando de strogonoff e spaguetti carbonara. não, é uma caráiada de pratos complicados: "bacalhau a brás com arroz de tomate", por exemplo. com esse esquema de mais de dez pratos por dia deve estar havendo um desperdício do caceta nas cozinhas portuguesas. e mais: garanto que os caras estão tendo que dormir um tanto mais tarde todos os dias para fazer um prato de terça que não seja igual ao de segunda ou de quinta passada. e, para ser sincero, apesar de lisonjeado com a quantidade de opções, sempre me fodo. sempre preciso de uns sete minutos para chegar a qualquer tipo de conclusão. são muitas opções, muitas opções gostosas para um sujeito que ainda está conhecendo a cozinha dos feras. e detalhe, se você entra numas de pedir um prato que não esteja na extensa lista de pratos do dia, fodeu geral. mas geral mesmo. o garçom enche os olhos de lágrimas grossas. o cozinheiro tem princípio de infarto. afinal, você está fudeindo com o esqueminha deles. são outros ingredientes. outro prato que vai disputar uma boca do fogão. é engraçado. é curioso. é saboroso. mas seu eu fosse um deles marcava uma reunião com os outros hoje mesmo.
quando você esquece de pagar a conta do gás e a água quente do seu chuveiro é a gás, é o mesmo que se você tivesse esquecido de pagar a conta de água.
a cerveja sagres-mini realmente fica gelada por mais tempo já que você termina ela antes que esquente. o foda é que todo aquele timing que você demorou uma vida inteira para aperfeiçoar-- de quanto tempo demora para uma cerveja ficar tinindo de gelada no freezer-- vai pro caralho. já perdi umas 4 mini sagres congeladas no freezer.
o "bom dia portugal," um programa que passa pela manhã aqui, sempre me fódi o horário. no brasil, o bom dia brasil acabava oito da manhã em ponto. era começar a ana maria braga para correr pro trabalho. aqui a pourra do programa vai até quase 10 da manhã. e não tem a ana maria braga pra fazer você ficar sem ar e correr. foda.
dia desses entrei numa tasca e pedi um prego, um sanduba de carne. um x-filé. bom, eu perguntei pro fera do outro lado do balcão: "e aí? quanto custa?" ele ficou olhando para minha cara um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete segundos e quando ameaçou falar um número que começava com "dois euros e..." ele parou, abriu o sanduíche, colocou mais uma fatia de queijo e disse, desta vez rapidamente: "três. três euros."
mas voltemos ao que fez dele "seu". seu jaime. dia desses, encostado no balcão, pesquei uma conversa dele com o andré peixoto que trabalha comigo e tem um fígado de aço. seu jaime disse que ia tirar férias. apontou com as sobrancelhas uma foto presa na parede que fica de frente para o balcão em que ele passa quase 10 horas por dia servindo ginja. seu jaime ia tirar férias ali, naquela foto. um vilarejo daqueles que você conhece de histórias da branca de neve e tal. puta negócio bonito. umas vinte e duas casinhas fincadas num vale. o que me fez lembrar daquele filme "collateral" com o tom cruise e o jamie foxx. o tom cruise era um assassino que pegava um taxi com o jamie foxx dirigindo. aquele filme em que o jamie foxx tinha uma foto de uma ilha no quebra sol do taxi. sabe? então, aquela foto movia ele. era ela que incentivava o jamie foxx dirigir aquele taxi com o tom cruise grisalho com uma arma na mão. bom, o mesmo acontece aqui. com o esqueminha do seu jaime. aquela foto do outro lado do balcão é o que incentiva o seu jaime. ele serve dez ginjas e olha na foto. olha para o relógi, vê que já é madrugada, e olha para a foto. puxa papo, conversa, serve chopp também, e olha para a foto. aquela vila que eu não sabia que existia é o que faz do seu jaime merecedor do títulos de "seu", seu jaime. a vida do seu jaime que existe naquela foto é a história ,a bagagem que fez ele merecedor do título. na inglaterra os "sir", você pode notar, são quase que exclusivos de multi biliardários, artistas e tal. o 'seu' não, o 'seu' é muito mais foda ganhar. só ganha "seu" pessoas assim. que alimentam o início da noite de milhares de portugueses e turistas. e que tem uma foto como a do seu jaime, estratégicamente colada na altura da visão, do outro lado do balcão. gente bacana como seu jaime. os 'seu' e os 'sir'. o sir vira sir quando a rainha quer e bate com a espada no ombro do fera, sir richard branson. já o seu, não. "seu" só vira seu com o tempo. seu não tem essa putaria da rainha da inglaterra. "seu" é quando o povo quer. os 'seu' são foda. se você quiser conhecer um "seu", visite a ginjinha do seu jaime. no chiado. não abre segunda-feira e três semanas por ano. como você já sabe, ele planeja essas férias o ano inteiro. a noite inteira. a cada ginjinha servida. grande seu jaime.
como todo lugar do mundo, portugal também tem os "seus...", "seu miguel", "seu manoel", "seu zé." geralmente quando você conhece uma pessoa que tem o "seu..." antes do nome, essa pessoa, obrigatoriamente, tem algum tipo de história. tem alguma bagagem. alguma coisa que fez ele ganhar este "seu". é como os "sir" da grã bretanha. sir paul mccartney, por exemplo, era compositor da maior banda da história. então, virou sir paul. o "seu" é uma espécie de sir, dos mortais. de pessoas que frequentam o seu dia a dia. gente que você encontra no elevador. gente que serve você no restaurante. o seu antônio pode ser facilmente uma pessoa que trabalhava na sua escola e era o único que sabia onde ficava a chave do armário em que se guardavam as bolas de futebol. bom, aqui em lisboa encontrei um "seu", muito bacana. o seu jaime. seu jaime tem um bar que serve ginja no bairro alto. ele é responsável pelo consumo de grande parte das ginjas consumidas no bairro alto. na verdade, tecnicamente, o bar do seu jaime não fica no bairro alto, fica no chiado, mas é perto. é lá que começam muitas noites que vão acabar nas ruas mais acima, do bairro alto. o bar do seu jaime é um bar pequeno, bem localizado. mas bem pequeno. com um balcão que cabe duas pessoas atrás. o seu jaime e a sua mulher. ele serve dois tipos de ginja, meia e inteira. a meia custa 1 euro. a inteira 1 e 50. seu jaime importa ginja de óbidos, uma cidadezinha perto daqui. seu jaime faz sucesso. fala baixo, esboça pequenos sorrisos e respeita a ordem de chegada no balcão.
passei 48 horas entre portugal e espanha esse fim de semana. me perdi pra cacete. se em são paulo, cidade que eu morava já há 8 anos eu me perdia, aqui eu só me fodo. bom, o que nos leva ao assunto deste textinho. o portunhol. perdido num vilarejo daqueles com um único café e uma só grande avenida cercada de terra batida, achei a única alma viva da cidade e pedi ajuda. mandei um português, devagar, lentamente, e nada. o senhor olhava para a minha cara como quem olhava para o jar jar binks no primeiro episódio da nova safra de guerra nas estrelas. tentei portunhol, nada. tentei carregar mais no portunhol e nada. foram três minutos que pareceram horas. apontei para o mapa. ele apontou no horizonte e lá fui eu. esta cena se repetiu umas trinta e duas vezes nesses últimos dois dias. o espanhol é simpático, gente boa, esboça sorrisos com facilidade. mas uma coisa que é comum em todos os espanhóis: eles não falam portunhol. o que, no início, não dá para entender. "caráio, eu estou falando espanhol, como é que esse fêla da pulta não está me entendendo? ele só pode estar de sacanagem." mas portunhol não é espanhol. bastou ligar a tv do hotel para entender isto 100%. não entendi picas do programa de entrevistas que passava na tv. nada. 0,2%. quando eu era mais moleque, fiz um curso de espanhol. eu achava que aprendia, o professor achava que ensinava. ele também falava portunhol. todo e qualquer brasileiro que acha que fala espanhol, ou que pelo menos arranha, está enganado. ninguém fala. fala o portunhol. é que, todo brasileiro entende o espanhol. por algum motivo, nosso cérebro consegue compensar uma ou outra palavra numa frase inteira de espanhol-- fazendo que a gente entenda. pelo menos uns 70% do que foi falado. e é por isso que não conseguimos aprender a língua. temos vícios do português. e o nosso cérebro, ele novamente, fica com uma puta preguiça quando descobre que as duas línguas são muito parecidas. fica com uma preguiça fudida quando descobre que dá para enrolar aperfeiçoando algumas entonações e movimentos de língua. quando descobre o portunhol. resultado, alguns poucos brasileiros, uns dois ou três, e só, de um universo de 180 milhões, conseguem falar espanhol. o resto não. bom, o resto é mestre de portunhol. o resto se perde 32 vezes numa viagem que era para durar 4 horas e meia e acaba durando 7 horas. e, quando encontra um espanhol, metralha perguntas em portunhol. o espanhol não entende picas. você não entende picas de como ele não está endendendo você. e os dois ficam alí, um olhando para o outro se perguntando: "mas que caráio de idioma este filhodaputa está falando?"
dia desses fui num otorrino. gente boa o cara. investiga a garganta. dá uma espiada nos ouvidos. e foca no nariz. nas narinas. luz, mini binóculo olhando lá dentro da bagáça. um emprego, digamos, diferente. "amor, como é que foi o seu dia hoje?" e a única coisa que o cara consegue se lembrar são as narinas, ou melhor, o buraco das narinas e dos ouvidos das pessoas. e ele fica ali, cara fechada, sem saber ao certo o que falar. otorrino é um médico que não reconhece os pacientes na rua. exemplo: você está comendo com a sua mulher e entra o otorrino com a família. se você acenar para o fera, ele não vai entender picas. não vai saber do que se trata. agora, se você inclinar a cabeça para trás e puxar um fio de cabelo dos nariz, aí ele vai reconhecer. vai fazer a maior festa. vai apresentar a família e vai comentar com a mulher depois: "o erick é realmente um nariz muito simpático!" "os ouvidos dele também são bacanas e tal, mas as narinas dele conversam mais. são mais simpáticas. falando nisso, acho que conheço aquele par de orelhas daquela mesa ao lado. otorrino na praia também dever ser engraçado. dois amigos otorrinos: "você viu aquelas narinas que passaram?" "nosssssa, se vi, você notou a cartilagem da ponta?" e por aí vai. não sei, também fico imaginando o dia que esse cara decidiu: "eu vou dedicar a minha vida inteira ao nariz." dia desses fui num otorrino.um emprego curioso.
não sei quem foi o filhodaputa que inventou. é um sabor novo de sorvete da haagen dazs. caramel apple vanila crumble. se você ler o nome dele em voz alta três vezes começa a babar. fico imaginando o carinha numa sala sentado de frente para um computador: "apple pie. hmmm, não, apple pie não. e se fosse "apple vanila sensation? também não, tá faltando sonoridade. sonoridade é isso que está faltando. caramel apple vanila crumble! aposto que logo logo vai ter um brasileiro babando por essa pourra."